Crítica | Amistad

Amistad é um filme que retrata uma história forte, dirigido por um cineasta que nos dispensa apresentações. Steven Spielberg, responsável por histórias de monstros assustadores (Tubarão), retratos sobre opressão e machismo (A Cor Púrpura), xenofobia e barbárie (A Lista de Schindler), invasões alienígenas (Guerra dos Mundos), tramas políticas (Munique), dentre tantas outras narrativas carregadas de “emoção”, sentimento latente que gravita durante os 155 minutos de Amistad, mas que não consegue se estabelecer completamente.

Isso não significa, no entanto, que a produção seja um desperdício e que a sua discussão não seja necessária, ao contrário, a questão racial e a opressão entre seres humanos é um tema que encontra ressonâncias na contemporaneidade e representa uma discussão que aparentemente nunca encontrará fim. A sina da humanidade. O ponto é uma rebelião de escravos africanos realizada a bordo da embarcação espanhola La Amistad, uma escuna de dois mastros com 37 metros de comprimento que tem a maior parte da tripulação europeia morta pelos homens aprisionados. Por não conhecer as regras náuticas, o grupo deixa dois espanhóis vivos, tendo em visto sobreviver no oceano e traçar a rota de retorno. O problema é que são capturados e retornam à condição anterior, agora com uma sentença para pesar em suas vidas que já não são tranquilas.

Diante da situação exposta, os homens africanos escravizados serão julgados pelos magistrados brancos estadunidenses. Eles vão precisar ficar diante de outros seres humanos que deliberam sobre os seus respectivos destinos. O contexto histórico, marcado por um tratado oceânico entre Estados Unidos e Espanha aumenta a tensão geopolítica, pois a Rainha da Espanha alega que os escravos pertencem ao seu reino, mas os marinheiros estadunidenses que encontraram a embarcação reforçam que o “material humano” pertence aos americanos.

Na história, os brancos não se interessam pela causa dos escravizados, homens humilhados que sequer conseguem esgueirar-se nos porões das embarcações, tampouco conviver diante de tanta miséria e fome, marcas de um povo acorrentado fisicamente e politicamente, diante de um dos maiores absurdos da história da humanidade.  Cinqué (Djimon Houson) é o “protagonista” da rebelião: ele consegue escapar das correntes graças ao apoio dos demais traficados. Ao atacar a tripulação próximo à Cuba, toma as rédeas da situação por alguns instantes, mas logo é levado ao status anterior. Presos novamente, os réus precisam lidar com um tribunal desinteressado em suas motivações. Uma possível Guerra Civil poderia estourar a qualquer momento e as questões políticas aquecem as decisões durante o julgamento. Por ser época de reeleição, num momento de pessoas divididas entre o Norte abolicionista e o Sul escravagista, até mesmo a decisão do juiz em prol dos africanos passa por momentos de imprecisão, pois a Suprema Corte Americana, envolvida até não poder mais com os sulistas, dificultou a tramitação do processo. Matthew McConaughey interpreta o advogado Roger Baldwin, favorável ao movimento abolicionista; Anthony Hopkins é o ex-presidente estadunidense que recorre aos trechos da Constituição para reforçar seu ponto de vista; Morgan Freeman é o ex-escravo Theodore Joadson e Stellan Skargard é Tappan, ambos também simpáticos ao movimento, integrantes do grupo que deseja a libertação dos julgados.

Spielberg dirigiu o roteiro escrito por David Franzoni, dramaturgo conhecido por seu trabalho em outro épico sobre seres humanos subjugados: Gladiador. A equipe técnica consegue emular alguns detalhes da época, apresentados ao público graças ao eficiente trabalho de Janusz Kaminski, diretor de fotografia competente, ciente do potencial da história e certeiro nas cenas externas e internas, sempre atento ao que precisa ser “mostrado” na narrativa que conta com o igualmente eficiente setor de design de produção, assinado por Rick Carter, profissional que conta com a dupla formada por Rosemary Brandeburger e Trish Luberti no desenvolvimento da cenografia, setor que contempla bem o momento histórico, o interior dos navios e os tribunais. Os figurinos de Ruth E. Carter também merecem destaquem, pois vestem bem os personagens e nos permitem o mergulho épico. A música de John Williams, por sua vez, continua fascinante, mas sem o brilho dos trabalhos anteriores.

Lançado em 1997, Amistad não é um grande momento do cineasta, mas cumpre o seu papel enquanto épico. A produção tem uma discussão bastante atual, pois trata do período de institucionalização do racismo científico, questão que ressoa ferozmente na contemporaneidade. Dentre os demais temas, podemos destacar os choques culturais e a língua como instrumento de poder e dominação social. Irônico observar o escravo se defender e tentar tocar o lado emocional dos julgadores através da língua do opressor. É um assunto e tanto e requer profícuas reflexões e debates, não é mesmo, caro leitor?

Amistad —  EUA, 1997.
Direção: Steven Spielberg
Roteiro:  David Franzoni
Elenco:  Morgan Freeman, Nigel Hawthorne, Anthony Hopkins, Djimon Hounsou, Matthew McConaughey, David Paymer, Pete Postlethwaite, Stellan Skarsgård, Razaaq Adoti, Abu Bakaar Fofanah, Anna Paquin, Tomas Milian, Chiwetel Ejiofor, Derrick N. Ashong, Geno Silva

Duração: 155 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.