Filmes que se passam completamente (ou majoritariamente) em um único ambiente são sempre desafiadores para um diretor. Em filmes como esse, não só as atuações ganham um peso muito maior, já que por haver um só cenário, o foco nos personagens é geralmente maior, mas enquadramentos e montagem precisam ser mais inventivos, para que aquele único cenário não se torne cansativo. O diretor Sidney Lumet já havia demonstrado mais de uma vez saber conduzir esse tipo de história, especialmente com o seu clássico Doze Homens e Uma Sentença (1957), e volta a se desafiar no formato com Armadilha Mortal, que propõe um tenso duelo psicológico encabeçado por Michael Caine e Christopher Reeve.
Na trama, Sidney Bruhl (Michael Caine) é um renomado escritor de peças de mistério, que já viu melhores dias. Bruhl lê o manuscrito enviado por um velho aluno, Clifford Anderson (Christopher Reeve) e, ao considerar a peça genial, Bruhl planeja convidar Clifford até seu isolado chalé no interior de Nova York sob o pretexto de revisar o texto, e, com a ajuda relutante da esposa Myra (Dyan Cannon), assassinar o rapaz e se apossar de seu texto. Mas este é apenas o início de um tenso jogo psicológico, pois Clifford tem os seus próprios planos, e nessa disputa, os dois homens vão descobrir que nada é o que parece ser.
Ao adaptar a peça de teatro escrita por Ira Levin, a partir de um roteiro escrito por Jay Presson Allen, Lumet caminha por um terreno que conhece bem, por já ter trabalhado com adaptações de teatro de poucos cenários, como Até Os Deuses Erram (1972) e Vidas Em Fuga (1960). Essa experiência com certeza se mostra presente neste projeto, já que toda a relação entre a dupla protagonista é entrecortada por meias verdades, segundas intenções, além de uma clara tensão homoerótica, uma combinação que nas mãos de um cineasta menos capaz poderia soar excessivamente didática ou histriônica, mas que aqui, é trabalhada por Lumet de forma elegante, sabendo quando ser sutil e quando ser explícito.
Claro, o roteiro de Jay Presson Allen também tem os seus méritos nessa construção. É interessante, por exemplo, como o texto brinca com a ironia da situação de Sidney, que alega estar passando por um bloqueio criativo, mas que cria um plot que poderia dar uma peça muito boa, se ele não estivesse tão focado em roubar o trabalho do colega. Há um comentário interessante aqui sobre o mito de que a arte é criada por inspirações milagrosas, e não pelas influências que nos cercam (inclusive de outros artistas), e que a falha em reconhecer isso é o que leva o personagem ao seu esquema assassino. Nesse sentido, é uma pena que o roteiro não trabalhe mais a superfície desse conflito, preferindo se ater puramente à alegoria, o que prova que algumas vezes, sutileza pode ser superestimada. Vale destacar que Armadilha Mortal é um filme cheio de reviravoltas, que constantemente puxa o tapete do espectador sobre a direção que vai seguir, ainda que nem sempre consiga manter a consistência na hora de fazer as transições que essas reviravoltas exigem.
O clima da narrativa lembra bastante alguns dos clássicos suspenses de Alfred Hitchcock, como Festim Diabólico (1948) ou Janela Indiscreta (1954), onde, somado ao elemento da tensão, há também um refinado humor ácido, o que é representado principalmente pela personagem da vizinha médium do casal Bruhl, a Sra. Helga Ten Dorp (Irene Worth). Nesse sentido, a escalação de Michael Caine para viver um dos protagonistas foi extremamente acertada. Com a sua competência habitual, o ator britânico vive Sidney Bruhl como alguém muito inteligente, que claramente se diverte ao planejar um assassinato como quem planeja um jantar, e que se adapta muito facilmente às novas situações que vão surgindo pelo caminho na execução de seu plano, ou melhor dizendo, de seus planos.
Christopher Reeve segura muito bem a onda de contracenar com Caine. Tendo aqui a chance de interpretar um tipo mais sombrio do que aqueles pelos quais ficou mais conhecido, Reeve consegue se desvincular da imagem de seu personagem mais icônico, o Superman, ao interpretar um Clifford com trejeitos levemente afeminados, mas que nem por isso deixa de ser ameaçador nos momentos certos. Reeve dá ao personagem um olhar astuto e constantemente atento, nos mostrando que Clifford nada mais é do que uma versão mais enérgica e talvez mais perigosa de Sidney. Dyan Cannon acaba sendo o elo fraco do elenco, vivendo Myra de forma excessivamente histérica. Ainda que a personagem solicite isso, ela perde o tom, tornando-se um alívio cômico que, muitas vezes, parece não ser intencional, em um desempenho que acaba tirando o público da inserção na obra.
Armadilha Mortal não chega a ser um grande clássico escondido ou algo que o valha, mas ainda é uma sessão muito divertida. O roteiro nem sempre consegue se manter coerente em suas diversas viradas, mas se não é completamente coeso, ao menos ganha pontos por certa ousadia. Além disso, o filme conta com a ótima química de cena entre Michael Caine e Christopher Reeve, a direção competente de Lumet, entregando um delicioso jogo de gato e rato cheio de intenções homicidas e humor ácido, além de alguns comentários interessantes sobre a natureza replicante da arte, e as formas de inveja no mundo dos espetáculos.
Armadilha Mortal (Deathtrap) — EUA, 1982
Direção: Sidney Lumet
Roteiro: Jay Presson Allen (Baseado em Peça Teatral de Ira Levin)
Elenco: Michael Caine, Christopher Reeve, Dyan Cannon, Irene Worth, Henry Jones, Joe Silver, Tony DiBenedetto
Duração: 116 Minutos
