Crítica | Assassin’s Creed Syndicate

estrelas 3,5

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Assassin’s Creed Syndicate tinha a difícil missão de redimir uma franquia consagrada, mas que caíra no sentimento do duvidoso após a má repercussão que, o ainda sim bom, Assassin’s Creed Unity causara. Os desenvolvedores da Ubisoft, para começar a redenção prometida, optaram por avançar ainda mais no tempo, no caso, para a Londres no auge da Era Vitoriana, época assim denominada por causa do reinado da Rainha Vitória, uma das participantes dessa empreitada.

A maior virtude, provavelmente, da franquia de assassinos, a ambientação histórica é mais uma vez de tirar o fôlego. Toda a Londres do século XIX é reconstruída de maneira extremamente verossímil, tornando o jogador parte viva de um ambiente ainda não mostrado antes nos jogos da série. As chaminés cortando o céu e o deixando esfumaçado, o Rio Tâmisa enlameado em meio à chuva, os moradores de rua pedindo esmola e as crianças sendo obrigadas a trabalhar, ou nas ruas, ou nas fábricas. Todos esses aspectos tornam o jogo uma construção visual imensurável. O game, no entanto, poderia ser mais ousado em explorar a prostituição e a cultura do ópio, características deixadas de lado em uma tentativa de mascarar a degradação de Londres.

Já o enredo, infelizmente, não apresenta-se como um bom aliado à construção de época feita. Os vilões presentes não têm o poderio necessário para carregarem o fardo que os Borgias e Haytham Kenway carregaram nos jogos anteriores, porque, apesar de Crawford Starrick, novo personagem da série e antagonista principal do game, ser um retrato maior dos males que assolavam a capital inglesa, não há nada além de uma disputa de poderes entre ele e os protagonistas, sem que algum envolvimento emocional seja estabelecido durante todo o curso do jogo – tudo simplificado.

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Jacob Frye e Evie Frye – personagens que ostentam o peso de serem os primeiros a compartilharem o posto de protagonistas em um único jogo da série – possuem o renomado carisma que os protagonistas de obras anteriores da franquia carregaram – a exceção, talvez, seja Arno Dorian. Ambos são interessantes e possuem personalidades opostas, diferenciando as missões designadas a cada personagem a partir de uma essência. O foco de Jacob encontra-se na construção de uma gangue e sua imposição sobre outra, e o de Evie, mais canônico e importante, em continuar a busca de seu pai pela Peça do Éden, que encontra-se nas mãos dos Templários.

Além de diferir as missões, as árvores de habilidades também são pouco semelhantes, dando ao jogador o poder de optar por investir primordialmente em aspectos opostos para cada personagem. Enquanto o jogador impulsiona Jacob nas suas habilidades de combate, Evie pode ser trabalhada nas suas habilidades furtivas. O gamer então seleciona os personagens nas missões secundárias que eles se adequarem mais. A gameplay situada no presente, por outro lado, sempre a mais fraca dos jogos, é mais uma vez intragável. Mesmo que se mantivesse consideravelmente interessante até Assassin’s Creed III, a Ubisoft agora tenta investir em uma proposta fraca, que o público não está interessado e que várias vezes prejudicam o ritmo do jogo. A empresa surpreenderia mais caso abrisse mão dessa história de Abstergo ou reinventasse-a por definitivo.

Já as missões secundárias possuem três divisões. As mais comuns, e mais importantes, são relacionados à conquista de distritos e com a Guerra de Gangues proposta por Jacob em sua história particular. Além disso, temos algumas atividades diversas, como Invasões, Escoltas de Carga, Clube de Luta, Corrida de Carruagens e os famigerados coletáveis, que vão desde ilustrações a flores prensadas. Essas missões, principalmente as relacionadas à conquista de territórios, são demasiadamente repetitivas, podendo cansar ao longo do tempo, mas são igualmente obrigatórias para a conclusão do enredo, não um mero extra quase ordinário.

As memórias, enfim, são um ponto altíssimo, visto que elas abordam diversos personagens hoje icônicos da história mundial, além de seus respectivos afazeres mundanos. Dentre essas peças da reconstrução de época encontram-se figuras como: Charles Dickens, um reflexo adulto da vida precária de várias crianças na Era Vitoriana, além de criador de célebres obras literárias; Charles Darwin, o renomado autor de A Origem das Espécies; Karl Marx, polêmico filósofo e sociólogo; além de outras dezenas de personalidades. O jogo é um prato cheio para os apreciadores e críticos desses personagens estufados em gigantescos livros de história. Ademais, Syndicate ostenta uma excelente incursão do jogador, disponível durante o jogo, para a Primeira Guerra Mundial, igualada à magnitude extraordinária das incursões de Unity. A presença do político Winston Churchill e uma visita à Ponte da Torre, ponto turístico que só fora construído décadas após os eventos do gameplay principal, contribuem para a experiência tornar-se ainda melhor.

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A jogabilidade pode ser considerada redundante ao jogo anterior, que já tinha feito um grande avanço no sistema de escaladas e descidas. Sendo assim, algumas melhorias no sistema de parkour e de combate tornam o jogo apenas mais um Assassin’s Creed, sem transportar consigo alguma revolução verdadeira da mecânica. De novidades “grandiosas”, agora temos a possibilidade de dirigir carruagens e utilizar um gancho, ideia adaptada dos jogos da série Arkham, da Rocksteady. A jogabilidade é mais dinâmica, permitindo uma maior apreciação do mundo.

Os gráficos do jogo estão bonitos, como de costume na franquia, podendo o game ser considerado, para os mais entusiastas, um pequeno espetáculo visual da temporalidade. Durante a jogatina no Playstation 4, entretanto, recorri ao reinício de jogo dezenas de vezes, mas, conforme pesquisa aprofundada, essa parece ter sido uma exceção e não a regra. Acerca de bugs, uma quantidade ínfima comparada ao Unity, ou seja, um interessante avanço, sem, contudo, o alcance de um esmero irrefutável. A usual confusão entre o sistemas furtivo e o sistema de combate, entre os problemas da jogabilidade, ainda mais em momentos como os de uso de bombas de fumaça, retorna, prejudicando um pouco a experiência dos mais impacientes. O sistema de sequestro, outra nova adição do jogo à franquia, paralelamente sofre de várias dificuldades de funcionalidade.

Assassin’s Creed Syndicate é certamente melhor que o Unity, mas só isso não bastava. A Ubisoft tinha a obrigação de entregar uma experiência com ares de renovação, porém, acaba fracassando nisso, embora decisões difíceis, mas interessantes, sejam tomadas, como a remoção do modo multiplayer que se fazia presente desde Assassin’s Creed Brotherhood. Enquanto Unity foi a primeira bola fora de uma sequência de jogos anuais que, mesmo com a fórmula repetida – excetua-se aqui Assassin’s Creed IV: Black Flag -, mantinham uma qualidade própria e um posto garantido da série na lista dos melhores jogos do ano, Syndicate é um doloroso chute na trave, quase se igualando a qualidade de outros games da série, no entanto, o gosto do público pela franquia não se restabeleceu. A Ubisoft entendeu o recado, surpreendentemente interrompendo a anualidade da série. Será que veremos a Ordem dos Assassinos se reestruturar novamente?

Assassin’s Creed: Syndicate
Desenvolvedora: Ubisoft
Lançamento: 23 de Outubro de 2015
Gênero: Ação
Disponível para: PS4, Xbox One, PC

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.