Crítica | Capitã Marvel (2014 – 2015)

  • spoilers.

Kelly Sue DeConnick foi a responsável por finalmente transformar Carol Danvers em Capitã Marvel na primeira publicação solo da heroína com esse codinome. Graças às enlouquecedoras renumerações da Marvel Comics, porém,  esse primeiro run teve, apenas, 17 edições que comentei por arcos bem aqui. Quatro meses depois, porém, a mesma roteirista começa outro run zerado da Capitã, que por sua vez durou 15 edições, entre maio de 2014 e julho de 2015. São essas edições que são objeto da presente crítica, também divididas em arcos como publicados lá fora.

Vamos lá então?

Mais Alto, Mais Longe, Mais Rápido, Mais
(Capitã Marvel #1 a 6)

Tendo estabelecido a Capitã Marvel como uma grande heroína da Terra, Kelly Sue DeConnick parte então para literalmente ampliar os horizontes de Carol Danvers, fazendo viajar pelo espaço como emissária dos Vingadores. A “desculpa” imediata para isso é a descoberta de uma nave contendo uma extra-terrestre que precisa ser devolvida ao planeta Torfa onde vive e o pano de fundo para tudo são as consequências da saga Infinito, com a destruição de um sem-número de planetas pelos Construtores e o reposicionamento deo Rei J’son, de Spartax, pai de Peter Quill, como um grandessíssimo FDP.

Torfa é um planeta “presenteado” magnanimamente por J’son a refugiados de todos os planetas destruídos na saga. No entanto, trata-se de um presente de grego, já que o planeta está envenenado e isso começa a matar seus novos habitantes. O desespero da coalizão de diversos alienígenas para lidar com a situação kafkiana é palpável e bem construído, com evidentes e bem pensados paralelos com a crise de refugiados acontece nesse momento aqui mesmo em nosso planeta. Quando Carol chega por lá, como representante dos Vingadores e da Aliança Galáctica da qual Spartax faz parte, ela é mal recebida e precisa dar a volta por cima.

Nesse aspecto, o roteiro sofre para lidar com a personalidade militar e não-diplomática de Carol Danvers, por vezes caracterizando-a de maneira a deixar transparecer seu amadorismo, apesar de ela ser uma heroína com muitos e muitos anos de experiência, inclusive em conflitos galáticos. Além disso, a pegada levemente cômica do texto não se encaixa perfeitamente à desesperadora situação dos refugiados e parece deslocada, ainda que seja interessante ver Carol reunir uma “equipe” nova, começando por Tic, a alienígena que ela tem que devolver para o planeta. No entanto, justiça seja feita, quando toda a sub-trama por trás do interesse de J’son no planeta é revelada, as peças ficam firmemente encaixadas e a história decola.

Há também espaço para, antes de a história ficar séria de verdade, DeConnick brincar com a natureza de Chewie, a gatinha de Carol. Em seu encontro com os Guardiões da Galáxia (na versão com os uniformes mais feios que o grupo já teve, diga-se de passagem), Rocket quase infarta ao ver Chewie e identificá-la como um Flerken, criatura que ele teme com todos os pelo de seu corpo, tentando exterminá-la no ato seguinte, resultando em um divertido conflito com a Capitã.

A arte de David Lopez é, na falta de uma expressão melhor, funcional. Cumpre o objetivo a que se propõe sem arroubos criativos, sem arriscar e sem tornar-se memorável com a de Dexter Soy no volume anterior da heroína. É um trabalho feito milimetricamente para servir à história, o que não é nem de longe algo ruim, até porque ele sabe muito bem dividir páginas e trabalhar as narrativas com seus quadros, mas que não deixa sua marca.

Mais Alto, Mais Longe, Mais Rápido, Mais não é a coisa mais espetacular do mundo, mas continua as boas histórias da Capitã por Kelly Sue DeConnick, reposicionando a heroína dentro do Universo Marvel. É, também, o único arco do volume a efetivamente ocupar todas as edições com uma história só, dando mais espaço para a protagonista ser trabalhada.

Stay Fly
(Capitã Marvel #7 a 11)

Stay Fly, nome do encadernado americano que reúne as edições #7 a 11 de Capitã Marvel, na verdade lida com um mini-arco de duas edições jocosamente intitulado Libertem o Flerken (#7 e 8) e um segundo arco composto por três edições que contam com a edição comemorativa do 100º número de aventuras solo de Carol Danvers (somando tudo desde a primeira edição de Miss Marvel em 1977) e que “falam” de maneira um pouco mais tênue do que um arco propriamente dito.

Libertem o Flerken é pura diversão, com Rocket Raccoon novamente dividindo a história com Carol, o que obviamente cria tensão entre os dois em razão de Chewie, que ele insiste que é um Flerken, mas Carol, claro não acredita. A chegada de uma nave gigantesca que está justamente atrás do alienígena que se parece um gato da Terra é o estopim para ações comicamente desordenadas, com Chewie finalmente revelando – ao colocar 117 ovos!!! – que Rocket tinha razão esse tempo todo. É como uma comédia pastelão espacial que funciona muito bem por seu dinamismo, com a arte de Marcio Takara trazendo um sabor especial com seus traços simplificados, levemente caricatos, mas sempre harmônicos com a proposta da história.

O arco seguinte começa quase que com um one-shot (A Fantabulosa Ópera Rock Technicolor de Lila Cheney) que resgata Lila Cheney, mutante roqueira e teletransportadora criada por Chris Claremont em New Mutants Annual #1, de 1984, colocando-a literalmente do nada dentro da nave da Capitã e de Tic. Ela quer ajuda para resolver um problema sério: seu casamente com um príncipe de um planeta e que todos os habitantes falam em rima (e o príncipe se veste de David Bowie e o rei de Elvis Presley). Mantendo a pegada jocosa, DeConnick demora a fazer a história engrenar, mas, quando o leitor pega o jeito, ela fica deliciosa.

E esse one-shot quase surreal nos leva à edição #10, a tal comemorativa do 100º número solo de Carol Danvers que começa o arco em duas edições batizado de Um Conto de Natal (em inglês, claro, A Christmas Carol – porque ninguém nunca pensou nisso antes?). Nela, Carol, por intermédio de Lila, recebe cartas de seus entes queridos, Kit, Jessica Drew, Rhodey e Wendy Kawasaki, contando uma aventura só em que eles tiveram que lidar com a enlouquecida Grace Valentine, introduzida ao final do volume anterior. É uma bela história (quase) sem Carol para Carol que resume bem sua importância e sua conexão com diversos personagens que ficaram para trás depois que ela resolveu singrar o espaço.

No encerramento, DeConnick mergulha no fantástico, faz Carol voltar para a Terra por um dia para ficar ao lado de sua amiga moribunda Tracy Burke e pareia a Capitã com ninguém menos do que o próprio Papai Noel. Uma outra bela história, ainda que simples, com Danvers.

Alis Volat Propriis
(Capitã Marvel #12 a 15)

O latim do nome do arco significa, na literalidade, “voe com suas próprias asas” e é isso que o pequeno arco inicial, composto por duas edições e batizado dramaticamente de 7 Segundos Antes de Morrer (#12 e 13), faz para a não tão jovem Tic, encerrando o arco iniciado na primeira edição desse volume. A parceira da Capitã encontra sua vocação ao ser capturada pelos piratas Haffensye (vilões do primeiro arco) em uma história que é um primor de concisão em um trabalho em dupla de DeConnick com o grande Warren Ellis.

De um lado, temos a Capitã de volta ao espaço, mas presa em sua nave tendo que correr atrás do que aconteceu durante sua breve ausência e lidar com uma região do universo chamada “envelope sem fim” onde as leias da física não se aplicam e, de outro, Tic tentando escapar das garras dos piratas. A história com Danvers é a mais desenvolvida, claro, e cria a conveniência de impedi-la de usar seus poderes, já que ela não consegue sair da nave (temos que aceitar isso e é algo razoável de se pedir de nossa suspensão da descrença). Isso traz de volta a Carol piloto, a Carol estrategista e a Carol badass que não precisar soltar raios fotônicos dos punhos para sair de uma enrascada. Um belo começo para a estirada final de DeConnick no timão da publicação da heroína.

A edição seguinte (#14) é um maldito tie-in, dessa vez de Vórtice Negro, saga cósmica envolvendo primordialmente os X-Men e os Guardiões da Galáxia. Como é uma edição só com a Capitã Marvel tentando levar o MacGuffin do título para Kitty Pryde e sendo perseguida por J’son (agora como Senhor Faca), ela fica completamente perdida no arco e complicada de avaliar ou até de entender sem ler a história maior, ainda que tenha ligações mínimas com o mini-arco imediatamente anterior.

Finalmente, em O Próximo Passo (edição #15), Kelly Sue DeConnick escreve seu adeus para sua era perante a Capitã Marvel em uma história muito pessoal, com a morte de Tracy Burke afetando uma recém-regressada Carol Danvers assim como a morte da tia da escritora, também em razão do câncer, a afetara em 2014. Uma bela forma de encerrar um ciclo e olhar para o futuro.

Capitã Marvel (Captain Marvel, EUA – 2014/5)
Contendo: Capitã Marvel (2014-2015) #1 a 15
Roteiro: Kelly Sue DeConnick, Warren Ellis (#12 e 13 em co-autoria)
Arte: David Lopez, Marcio Takara (#8 a 10), Laura Braga (#10)
Cores: Lee Loughridge, Nick Filardi
Letras: Joe Caramagna
Editoria: Sana Amanat, Stephen Wacker, Nick Lowe
Editora original: Marvel Comics
Data original de publicação: maio de 2014 a julho de 2015
Editora no Brasil: Panini Comics
Data de publicação no Brasil: junho de 2015 a julho de 2016 em Universo Marvel Vol. 3 #22 a 35; março de 2019 (arco 1 em forma encadernada)
Páginas: 22 a 24 por edição

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.