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Crítica | Castlevania – 4ª Temporada

por Ritter Fan
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  • Há spoilers. Leia, aqui, as críticas da temporadas anteriores.

Não tenho certeza se as acusações contra Warren Ellis levaram ao encerramento extemporâneo de Castlevania ou se a série realmente estava planejada para acabar na 4ª temporada, mas, seja qual for a resposta precisa para essa dúvida, o fato é que esse quarto ano prova duas coisas sobre a adaptação televisiva da famosa franquia de games da Konami. A primeira é que é perfeitamente possível conciliar blá blá blá com ação e a segunda é que a modorrenta 3ª temporada foi realmente uma perda de tempo enorme.

Afinal, considerando as elipses temporais e narrativas que fazem a ponte invisível entre as duas temporadas, fica patente que aquele longos monólogos artificialmente expositivos do ano anterior em linhas narrativas independentes e que jamais tangenciam poderiam muito facilmente ter sido evitadas, contraindo todos aqueles 10 episódios repletos de vazio, se é que me entendem, em não mais do que alguns breves momentos salpicados aqui e ali de forma que, então, o final propriamente dito pudesse ser contado. E não é que a temporada final seja perfeita, pois ela está muito longe de ser, mas ela pelo menos não corre atrás do rabo como a anterior, mesmo que introduza novos personagens em tese importantes completamente do nada (Varney, vivido por Malcolm McDowell, que se revela como o grande vilão, é o mais saliente dos exemplos) ou crie subtramas que simplesmente precisamos aceitar, como a que lida com a traição de Saint Germain.

No frigir dos ovos, tudo é muito simples também nesse encerramento. A trama macro tem relação com facções vampirescas que querem ressuscitar Drácula, com as histórias menores lidando com Isaac finalmente reunindo-se a Hector para muito facilmente acabar com Carmilla e seus planos de dominação mundial, com Trevor Belmont e Sypha Belnades continuando a enfrentar uma variedade gigantesca de monstros aleatórios até chegarem em Targoviste, onde continuam enfrentando monstros aleatórios e, finalmente, com Alucard fazendo alguma coisa mais útil do que ficar com aquela cara blasé dele olhando para o nada ao salvar um vilarejo próximo ao seu castelo. Se mais uma vez os visuais são lindos, com algumas lutas particularmente muito boas, especialmente as que envolvem Alucard, as conexões narrativas são tênues, não muito mais do que desculpas rasas para a pancadaria comer solta de maneira variada e com aquela extrema violência anestésica que é capaz de gerar mais bocejos do que realmente momentos marcantes.

A trama do todo-poderoso Isaac é anticlimática na melhor das hipóteses e os pombinhos Trevor e Sypha só realmente tornam-se interessantes quando, somente no penúltimo episódio, reúnem-se mais uma vez com Alucard para trucidar vampiros e outras criaturas noturnas das mais variadas possíveis, algumas particularmente enormes, mas nenhuma realmente ameaçadora. E todo o desdobramento que leva à revelação de que Saint Germain é o conduíte da volta de Drácula e, mais sem graça ainda, que um personagem aleatório como Varney é, na verdade, outro personagem aleatório como a Morte (ou um mega-vampiro que se auto-intitula Morte, pouco importa), não passa de exemplo clássico de roteiro preguiçoso, incapaz de trabalhar com o que foi construído anteriormente, sendo obrigado a criar remendos para dar alguma substância à história, mais uma vez demonstrando que o que veio antes foi uma coleção de eventos vazios e que, se espremermos, não têm verdadeira relevância para o todo.

Por outro lado, apesar de algumas escorregadelas no quesito “diálogos repletos de filosofia de botequim”, a temporada soube equilibrar mais o falatório com a ação, criando, como consequência, um ritmo bem menos maçante que o da temporada anterior, apesar de ter pouca história para contar. Continua, claro, sendo a típica série da violência, tripa e sangue porque sim, sem qualquer contexto maior, sem nenhuma tentativa de subtexto minimamente enriquecedor que preza a forma sobre qualquer semblante de substância, o que desperdiça personagens potencialmente trágicos, transformando-os em meros super-heróis unidimensionais de cabelos esvoaçantes e vozes roucas que gostam de usar uma simpática variedade de armas cortantes ou de soltar raios pelas mãos. Como não há construção e desenvolvimento de ninguém, o peso dos personagens e de seus sacrifícios não são palpáveis e se perdem entre uma cabeça cortada ali, tripas escorrendo lá e, claro, luzes piscantes acolá como um grande desfile de técnica de animação sem sustentação dramática.

Castlevania vai embora – pelo menos esta versão, pois há promessa de retorno de alguma forma – como uma série que tinha enorme potencial para ser uma obra-prima, talvez a melhor adaptação de um game para as telinhas (e telonas também, claro). No entanto, no final de 32 episódios, porém, tudo o que fica é uma lição de como jogar fora conteúdo e ficar só com uma carcaça lustrosa e chamativa, mas absolutamente vazia.

Castlevania – 4ª Temporada (EUA, 13 de maio de 2021)
Direção: Sam Deats, Amanda Sitareh B.
Roteiro: Warren Ellis
Elenco (vozes originais): Richard Armitage, James Callis, Alejandra Reynoso, Theo James, Adetokumboh M’Cormack, Jaime Murray, Jessica Brown Findlay, Yasmine Al Massri, Ivana Milicevic, Bill Nighy, Malcolm McDowell, Marsha Thomason, Titus Welliver, Toks Olagundoye, Matthew Waterson, Graham McTavish, Emily Swallow
Duração: 264 min. (10 episódios)

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