Crítica | Chiller 13: Grandes Slashers Americanos

Desenvolvido pelo canal Chiller, o especial Grandes Slashers Americanos foi ao ar em 2013. Na produção, acompanhamos 65 minutos de exposição dos 13 principais representantes de um dos subgêneros de maior sucesso na indústria cinematográfica. Escrito e dirigido por David Stephan, o conteúdo é questionável em alguns pontos, mas é fruto de um olhar específico e determinado, o que cabe a nós, concordar, discordar ou complementar a lista hierárquica. Podemos considerar Psicose, de Alfred Hitchcock, um filme slasher? Hannibal é um psicopata slasher? Entre A Hora do Pesadelo, Sexta-Feira 13 e Halloween – A Noite do Terror, qual dos três merece o primeiro lugar no posto do slasher mais bem-sucedido?

São questionamentos que vão surgindo ao passo que a produção avança.  Todos os entrevistados opinam sobre as 13 produções selecionadas pelo texto de Stephan. Dentre os depoentes temos Kane Hodder, Jamie Lee Curtis, Danielle Harris, Sean. S. Cunningham, Tony Todd, Heather Langenkamp, Robert Englund, Derek Mears, Chris Sarandon, etc. São muitas opiniões valiosas, de gente que viveu intensamente a cultura slasher por meio da produção dos icônicos filmes citados. A Hora do Pesadelo, de Wes Craven, alcança o topo da lista, mantendo-se em primeiro lugar. A maquiagem e o chapéu, o humor cheio de acidez do personagem e a final girl proativa são alguns elementos que o texto justifica como motivação para a posição.

Apresentado de maneira decrescente, a proposta da crítica é inverter, numa trilha do primeiro ao décimo terceiro. Depois de Freddy Krueger, Michael Myers toma o seu posto de segundo colocado. Halloween – A Noite do Terror é comentado por Jamie Lee Curtis e Nick Castle, num passeio sobre o impacto da máscara assustadora, do sucesso inesperado, a sua estética apurada e a trilha marcante, modelo que serviu de inspiração para o terceiro da lista, Sexta-Feira 13, franquia financeiramente rentável e que também não esperava render tanto. Programada para apenas um filme, os realizadores acabaram ampliando os horizontes e trouxeram Jason como personagem em busca de vingança pela morte de sua mãe.

Kane Hodder comenta a sua morte predileta, isto é, o saco de dormir em Sexta-Feira 13 Parte 7: A Matança Continua, opinião corroborada por outros depoentes, inclusive Derek Mears, responsável por interpretar Jason na turbinada refilmagem de 2009. Com várias cenas do sétimo filme utilizadas para ilustração, a franquia teve a sua trilha sonora embasada em Psicose, filme que ocupa o quarto lugar no ranking, algo que confesso, causou estranhamento, haja vista o fato de sempre ter considerado a produção uma base para a elaboração do slasher, mas um filme que ainda não se encaixava exatamente no protótipo. A cena do chuveiro, como sabemos, é o grande ponto do filme, tanto por sua estética quanto por ser um local onde estamos bastante vulneráveis.

Ao moldar novas regras para o horror clássico, Psicose estabeleceu outros caminhos para a realização de filmes de terror. O Silêncio dos Inocentes, considerado um slasher de luxo, ocupa o quinto lugar, ovacionado por conta da dinâmica entre os protagonistas e a sofisticação de Hannibal Lecter, um antagonista inteligente, prepotente e poderoso. Se levarmos em consideração que Norman Bates e Buffalo Bill foram inspirados na mesma história de Leatherface, isto é, os crimes de Ed Gein, a presença do premiado filme na lista não causa tanto estranhamento. O Massacre da Serra Elétrica, por sinal, ocupa o sexto lugar. Um dos pontos mais comentados é a dança macabra do antagonista com sua motosserra no desfecho da produção, bem como o design de som da sua porta de correr e a bizarra pele de couro.

Pânico ocupa o sétimo lugar, tendo ênfase na sequência de abertura e na proposital postura desengonçada de Ghostface, representação da morte que traz por debaixo de sua indumentária um ser humano comum, cheio de motivações para o crime. A quebra das regras da final girl e a autoparodia tornaram a franquia uma referência na história do cinema contemporâneo. O oitavo lugar, de certa maneira, também me surpreendeu, pois nunca considerei Pinhead, monstro de Hellraiser – Renascido do Inferno, um antagonista slasher. Minimalista e elegante, a aberração que utiliza práticas masoquistas para trazer o inferno à Terra promoveu mudanças na forma como se fazia terror na época de seu lançamento.

É uma inserção questionável, apesar de não ser totalmente descartada enquanto possibilidade slasher. Prefiro ver Pinhead como um dos monstros icônicos do horror, ao lado de Jason, Michael, Freddy, etc. Mas como slasher? Faltou uma explanação mais detalhada para convencimento. Dexter, famoso personagem da série televisiva alcança a nona posição. A morte de sua mãe é descrita como uma das cenas que ficaram marcadas em sua trajetória, mesmo sendo o personagem bem pequeno e pouco capaz de interpretar tudo que aconteceu. Com a designação de eliminar serial killers da sociedade, ele promoveu um rastro de sangue extenso, ao longo de oito temporadas. É o único personagem televisivo apresentado em Grandes Slashers Americanos.

A sátira aos anos 1980 e a crítica ao consumismo e materialismo estadunidense de Psicopata Americano colocaram Patrick Bateman como o decadente personagem slasher a ocupar a décima posição. Um dos destaques é o assassinato que ele comete contra um conhecido que possui um apartamento mais elegante que o seu. Doentio, insano e aterrorizante, o filme não é de fácil compreensão e não atende as demandas do grande público, pois pede determinados códigos cinéfilos para devida interpretação. No décimo primeiro lugar, Tony Todd e seu monstruoso O Mistério de Candyman resgatam mais uma vez o nome de Clive Baker no especial, realizador também responsável por Pinhead. A força do personagem, a criatividade da história e a dinâmica de apresentação em cena fizeram do filme um sucesso, merecida presença na lista em questão.

Johnny Depp, Tim Burton e o musical Sweeney Todd – O Barbeiro Demoníaco da Rua Flint ocupam o décimo segundo lugar. A sua arma? Uma lâmina de barbear. Os crimes que ocorrem na cadeira de atendimento dos clientes, posicionada para enviar o cadáver por um alçapão colocaram a produção repleta de ironia na penúltima posição da lista de David Stephan, finalizada com Brinquedo Assassino, impactante realização dos anos 1980 que também foi uma surpresa para a seara de produção dos filmes de terror. As pilhas que caem quando a mãe tenta contato com o boneco maldito é tida como uma das cenas mais assustadoras, juntamente com a morte da responsável por tomar conta do pequeno Andy, primeiro assassinato de Chucky.

Assim, Grandes Slashers Americanos apresenta a sua lista de nomes mais impactantes do slasher, dando ênfase sempre aos personagens monstruosos, a recepção do público e ao ponto de contato entre um filme e outro, todos partes de um tipo de tecido narrativo com tópicos em comum: pessoas em suas existências simples, debatem-se com o puro mal em situações inesperadas e ao passo que tentam garantir a sobrevivência, tornam-se testemunhas da trilha de corpos ensanguentados que surgem por seus respectivos caminhos. Paul Melluzzo assumiu a direção de fotografia do documentário televisivo, sem grandes momentos, com as cabeças falantes sempre na mesma posição, imagens intercaladas com as cenas dos filmes comentados, editadas por Steven Daff, responsável por ajustar a memória audiovisual apresentada. Tudo muito esclarecedor e dinâmico.

Chiller 13: Grandes Slashers Americanos (Chiller 13 – Great American Slashers) — Estados Unidos, 2013
Direção: David Stephan
Roteiro: David Stephan
Elenco: Jamie Lee Curtis, Sean S. Cunningham, Derek Mears, Danielle Harris, Tony Todd, Heather Langenkamp, Chris Sarandon, Tom Holland, Kane Hodder,
Duração: 65 min

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.