Crítica | Dilema (What/If) – 1ª Temporada

A culpa é um dos sentimentos mais fortes quando estamos diante da série Dilema, criada por Mike Kelley, o responsável pelo inicialmente aclamado novelão da vingativa Emily Thorne, isto é, Revenge, uma série rocambolesca, mas deliciosamente envolvente, repleta de tramas e muitas conexões e desconexões entre personagens e seus desdobramentos dramáticos na história. Desta vez, o criador utilizou os mesmos elementos da sua produção anterior, tendo como direcionamento, uma estrutura mais enxuta para evitar delongas e outros problemas oriundos de séries que se perdem em meio aos seus argumentos. Mesmo assim, diante da quantidade de episódios que se apresenta como a metade de uma temporada inteira de Revenge, os realizadores perdem a mão depois do primeiro episódio e enchem a narrativa de subtramas dispersivas e outros elementos que a tornam desfocada de suas propostas iniciais.

A sensação culposa explicitada na abertura desta reflexão refere-se ao caráter excessivamente novelesco da primeira e aparentemente única temporada de Dilema, uma série com proposta antológica se ganhar mais episódios futuramente. Mas, afinal, por qual motivo o espectador deveria sentir culpa? Explico: há, em nosso meio de consumo e crítica de produções ficcionais, certos preconceitos com tramas que nos remetem, mesmo que ligeiramente, à estrutura dramáticas das novelas mexicanas, conhecidas por seus desdobramentos burlescos diante de um fiapo de roteiro. Por isso, quando assistimos aos materiais na linha de Revenge, Dilema e afins, os dedos inquisidores logo são apontados para tais espectadores, pessoas que em alguns casos, colocam a culpa no tom viciante da série para explicar a motivação de assisti-la e ainda se entreter.

É por isso que constantemente, ao ler sobre Dilema, você encontrará referências ao chamado prazer culposo, isto é, a nossa consciência diante de algo que sabemos ser “ruim”, mas que ainda assim consumismo vorazmente. Em suma, diante do “dilema” no que se refere ao fato de ser ou não um espectador de Dilema, deixo a dica para o espectador: entregue-se aos episódios e divirta-se sem culpa. Para os interessados em extrair mensagens, a série é cheia de tópicos pontuais para compreensão sobre comportamento, algo que para o ramo psicológico da interpretação, rende boas discussões. Se não fosse o seu excesso de subtramas, feixes que fazem a história se espalhar como um rizoma, a série conseguiria ser mais substancial diante de todo o seu potencial dramático relativamente desperdiçado.

Para o leitor, no entanto, cabe algumas explicações. Do que se trata mesmo essa série com traços de Revenge, lançada pelo mesmo criador, Mike Kelley, em 2014? Em seu desenvolvimento, Dilema aborda trajetória da cartunesca Anne Montgomery (Renée Zellweger), uma investidora de sucesso no mercado financeiro, conhecida por apostar constantemente e manter-se sempre relevante diante de pessoas poderosas. Enigmática, a personagem ocupa o papel destinado ao vilão nos manuais de dramaturgia. Cínica, dissimulada, articulada e cheia de informantes, Montgomery é a alegoria da megalomania de Kelley, um criador com potencial para argumentos, mas que se perde diante da grandeza de suas próprias histórias. Relativamente “fatal”, a financiadora só aparece em cena vestida de maneira deslumbrante, maquiada perfeitamente e sempre a dominar todos os diálogos. Por não sabermos muito sobre a personagem, inicialmente achamos se tratar de uma mulher fatal que utiliza o dinheiro e o poder para brincar com a vida das pessoas.

A inteligência e o charme, aparentemente, servem para leva-las para cama. Será? O primeiro episódio deixa isso delineado, pois algumas cruzadas de pernas são inevitavelmente comparadas ao clima de Instinto Selvagem. O uso do poder para manipular é “puro” Ligações Perigosas, ou para os mais jovens, Segundas Intenções. São todas comparações saudáveis e que nem de longe deixam a série se apresentar como um produto ruim. É o desdobramento de suas possibilidades que complica tudo e torna a série uma confusão desnecessária e previsível. Vai ser com o drama Proposta Indecente que Dilema estabelecerá sua assumida primeira linha metalinguística. O resto, como apontado, é ilação e interpretação nossa, com base em na bagagem cultural que carregamos.

Anne Montgomery decide, então, financiar uma start-up que oferece um diferenciado e instigante projeto para revolucionar o ramo farmacêutico. Assim, a poderosa vai assumir as despesas e se tornar sócia, tendo em vista salvar a CEO da empresa, Lisa (Jane Levy), jovem casada com Sean (Blake Jenner) e com sérias dificuldades para manter o seu negócio, pois já pegou vários empréstimos, deve salários atrasados aos funcionários e está em crise com na parte financeira do casamento, pois ambos não conseguem quitar as suas dívidas e curtir plenamente os primeiros anos de relacionamento. Até o momento da proposta, já conhecemos alguns detalhes do perfil de Montgomery, bem como de Lisa e Sean, apresentados paralelamente à exposição do perfil da vilã e dos demais personagens coadjuvantes, um número médio de pessoas, mas como veremos depois dos primeiros episódios, prejudiciais ao dispersar as atenções do drama que de fato merecia maior atenção dos roteiristas e demais realizadores.

Diante do exposto, eis a proposta feita por Anne Montgomery: ela topa financiar Lisa, mas para isso, quer passar uma noite com o marido da jovem. Como lidar? Será que o casal vai topar? E o relacionamento, em que pé ficará? Esses serão os questionamentos, respondidos entre um acontecimento e outro da série. Será mesmo que Sean se relacionou sexualmente com a investidora? Por que ela decidiu manipular o casal? O que há na misteriosa casa que Anne visita constantemente? Todos os flashbacks são mesmo necessários para o desenvolvimento da história ou a série poderia manter-se mais na sugestão? Sem deixar nenhuma pergunta sem a devida resposta, Dilema amarra todas as suas pontas no desfecho, ainda que a sensação que tenhamos é a de que os exageros do programa nos transformaram em pessoas com o menor nível de suspensão da crença possível, haja vista alguns acontecimentos que desafiam demasiadamente as leis da existência humana.

Na arte, no entanto, inconsistências temporais e outras liberdades de criação tornam a ficção um terreno mais livre que a realidade, o que nos leva a aceitar melhor, mas ainda com desconfiança, os 10 episódios desta série, dirigidos por Phillip Noyce, Jessica Borsisczky, Fernando Coimbra, Joanna Kerns e Russell Lee Fine, guiados pelos roteiros da equipe formada por Brenna Kouf, David Graziano, Blair Singer, Robin Wascerman e Elizabeth Benjamin, responsáveis por organizar os principais momentos das arquetípicas Anne e Lisa, vilã e mocinha, personagens com um amplo feixe de conexões, algo que é revelado nos dois episódios finais, de fato, os mais novelescos de toda a série, tamanho o número de reviravoltas clichês e conveniências para arredondar a série e não deixar os protagonistas e coadjuvantes com os seus arcos inacabados.

Além da trama central, acompanhamos também os fios narrativos de Marco (Juan Castano), irmão de Lisa, um rapaz com histórico problemático e que esconde algo em sua memória, prestes a, literalmente, explodir. Ele vive uma relação abertamente homossexual com Lionel (John Clarence Stewart), amor múltiplo que permite até mesmo a entrada de uma terceira pessoal com o consentimento de uma das partes, o gogoboy (Derek Smith) da boate, personagem com breve participação, mas catalisador de profundas e dispersivas questões dramáticas de Marcos. Angela (Samantha Marie Ware) é a amiga médica que mantém o casamento com Todd (Keith Powers), mesmo diante da crise que ambos atravessem, em especial a jovem, num caso com Ian Harris (Dave Annable), homem que é a representação máxima da masculinidade tóxica, adaptada rapidamente para a psicopatia entre o desfecho de um episódio e o começo de outro.

O tal caso amoroso traz uma gravidez, juntamente com lágrimas, dúvidas e perseguições envolvendo armas de fogo, sequestro e até mesmo um afiado machado. Há, ainda, Cassidy (Daniella Pineda), amiga de Lisa e uma das idealizadoras dos projetos desenvolvidos na empresa; Avery (Saamer Usmani), personagem que ocupa o posto camaleônico da trama, pois não sabemos de fato de que lado está, isto é, da mocinha Lisa ou da vilanesca Anne; Foster (Louis Herthem), “capanga” de luxo de Montgomery, homem que faz os serviços sujos e passa pano para o ego de sua chefa maléfica a cada plano exercido; e Maddie (Allie MacDonald), a namorada anterior de Sean, jovem viciada em drogas que traz problemas constantemente para o casal já balançado pelos problemas após a noite posterior de assinatura do contrato, um período que de acordo com uma das cláusulas, não pode ter nada, nenhum detalhe milimétrico revelado, pois qualquer exposição pode levar Lisa à perder a sua parte na sociedade estabelecida após o seu marido ter “passado” a noite com a investidora manipuladora.

Problemática na construção dos elementos dramáticos, visualmente Dilema é uma série bem conduzida. A direção de fotografia de Jeffrey C. Hygatt emprega bem os enquadramentos que tornam os personagens equilibrados diante dos elementos visuais propostos pelo design de produção de L. J. Houdyshell. A cenografia assinada por William DeBiasio é sofisticada, bastante elegante e sem exageros, devidamente adornada pelos traços da direção de arte de Bryan Jewell, profissionais que sabem erguer espaços domiciliares e profissionais, bem delineados em suas peculiaridades. Reneé Zelweger e Jane Levy cumpre bem os seus papeis e fazem o possível para manter a dignidade dramática em Dilema, mesmo que o texto em alguns momentos não ajude, esforços que recebem apoio dos figurinos de Shawn Holly Cookson, setor que consegue deixa-las imponentes e dão plasticidade às suas respectivas necessidades dramáticas.

Ainda na seara estética, os efeitos visuais de Anthony Kramer, em especial, as tempestades e raios exibidos enquanto Anne Montgomery não podem ser nada além da ironia diante do burlesco, tamanha a maneira como tais efeitos da natureza dão às cenas em questão um tom de malvadeza caricato.  A condução musical de Fil Eisler reforça os imediatismos de cada situação tensa e problemática da narrativa, também cumprindo a sua função sem ser intrometida demais. Ademais, de volta aos elementos no campo da visualidade, há um molho de chaves que fica bem no centro do escritório de Montgomery, conjunto que abre diversas portas da narrativa focada em refletir sobre a moralidade e a confiança, os principais temas em Dilema, série que também versa sobre os caminhos que escolhemos para trilhar em nossas vidas e suas respectivas consequências, positivas e negativas, claro, percurso metaforizado nas ações dos personagens, numa história sobre a “vida ser feita de escolhas”.

Dilema (What/If) – 1ª Temporada (EUA, 24 de maio de 2019)
Criador: Mike Kelley
Direção: Phillip Noyce, Jessica Borsisczky, Fernando Coimbra, Joanna Kerns, Russell Lee Fine
Roteiro: Brenna Kouf, David Graziano, Blair Singer, Robin Wascerman, Elizabeth Benjamin
Elenco: Renée Zellweger, Jane Levy, Blake Jenner, John Clarence Stewart, Derek Smith, Juan Castano, Samantha Marie Ware, Dave Annable, Keith Powers, Daniella Pineda, Louis Herthem, Saamer Usmani, Allie MacDonald
Duração: 10 episódios (média de 55 min).

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.