Crítica | Doctor Who: Canção de Ninar Venusiana, de Paul Leonard

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Equipe: 1º Doutor, Barbara, Ian.
Tempo: 3.000.000.000 a.C
Espaço: Vênus

O time “Full TARDIS”, que consiste em três ou mais companions viajando ao lado do Doutor não é a configuração mais popular de elenco principal entre os fãs da série. A tendência deste formato é que um companion seja posto de lado, deixando a dinâmica do elenco principal truncada e tornando algum personagem supérfluo. A exceção à regra está nos primórdios da série, onde durante as suas duas temporadas iniciais, o 1º Doutor viajou com um time “Full TARDIS” sem enfrentar estes problemas. A dinâmica dos dois primeiros times de companions (Susan Ian e Barbara, posteriormente com Vicki substituindo Susan) sempre foi muito funcional e completa porque o grupo possuía uma ótima dinâmica familiar que precisava da presença de todos para funcionar, com as companions mais jovens muitas vezes desempenhando a função de mediadoras entre o Primeiro Doutor e os dois professores humanos. No romance Canção de Ninar Venusiana, o autor Paul Leonard explora essa visão, ao mostrar o quão abalado o time da TARDIS se torna quando a sua equilibrada dinâmica familiar é quebrada com a perda de um de seus membros.

Na trama, situada diretamente após os eventos de The Dalek Invasion of Earth, o Time da TARDIS ainda se recupera da recente partida de Susan, quando o 1º Doutor encontra um convite para o funeral de um amigo venusiano. Viajando três bilhões de anos no passado (onde por ser mais perto do início do universo, a TARDIS é mais navegável), o Time Lord, Ian e Barbara, chega a Vênus para o funeral, encontrando uma civilização dividida e em pânico pelo iminente fim da sustentabilidade da vida no Planeta, prevista para ocorrer em algumas centenas de anos. Quando os alienígenas Sou (ou) Shi chegam a Vênus oferecendo salvação, sugerindo levá-los para a Terra (neste período, sem vida humana), o Doutor torna-se imediatamente desconfiado das intenções dos visitantes.

Um dos grandes méritos do romance de Paul Leonard é o quanto ele se esforça para criar uma sociedade definitivamente alienígena com os venusianos. O livro rejeita os clássicos alienígenas humanoides bípedes, optando por retratar os nativos como imensas criaturas do tamanho de rinocerontes, com uma aparência que lembra vagamente a dos crustáceos. O choque cultural de Ian e Barbara diante de costumes como a organização parental e especialmente sobre a forma como eles honram os seus mortos, comendo os seus cérebros para “lembrá-los”, geram ótimos momentos. O conceito de “lembrar” é especialmente interessante, pois como os dois professores logo descobrem, não se trata apenas de uma metáfora ritualística, pois aqueles que comem os cérebros venusianos de fato absorvem as suas memórias. Mesmo a clássica canção de ninar venusiana escutada na série de TV na voz do Terceiro Doutor de John Pertwee é ressignificada neste livro, em um trecho que consegue ser bonito e perturbador ao mesmo tempo.

Além da interessante cultura venusiana, Leonard apresenta esta civilização dividida em várias facções devido ao iminente fim do mundo. Há aqueles que aceitam a extinção com resignação e há os diferentes grupos que buscam algum tipo de salvação, como o “povo do vulcão”, que passou milhares de anos fazendo cálculos para tentar cobrir a atmosfera do planeta de poeira, diminuindo assim a temperatura; o “povo do céu”, que tenta conquistar a viagem espacial, embora enfrentem a dificuldade de os venusianos serem alérgicos a qualquer tipo de metal; entre outros. Claro, de nada adiantaria uma civilização tão fascinante se não houvesse bons personagens para habitá-la, mas felizmente Leonard acerta ao criar um elenco carismático de venusianos que mexem com as emoções do leitor, com destaque para Jellenhunt, uma mãe que desenvolve um bonito laço de amizade com Ian. Entretanto, devo observar que o esforço do autor em dar este aspecto alienígena para os venusianos é tanto, que confesso, levei certo tempo para associar os personagens aos seus nomes, devido à sua estranheza, como Hatveg, Mrak-ecado, Dharkhig, Kontojij, Mrodtikdhil, e por ai vai.

Sem Susan, Barbara e especialmente Ian passam a se questionar o quão interessado o Doutor ainda está em sua segurança. Este poderia ser um caminho narrativo infeliz, devido ao número de aventuras que o Senhor do Tempo já havia vivido ao lado dos professores, mas o autor valida esse conflito ao retratar um Primeiro Doutor extremamente distante, ainda tentando processar a decisão de deixar a neta para trás. O romance ainda inclui um belo momento de confronto entre Barbara e o Time Lord, onde a professora o lembra de sua responsabilidade para com ela e Ian, já que eles não escolheram viajar na TARDIS e foram praticamente abduzidos.

Leonard consegue estruturar a trama de maneira competente e com um bom ritmo. Mesmo nos momentos em que separa os três viajantes do tempo em diferentes núcleos, o autor consegue manter uma ligação coesa entre as subtramas, sem que nenhum dos plots soe solto de alguma maneira. O mistério em torno dos Sou (ou) Shi por sua vez, não é tão interessante quanto poderia ser, pois a proposta desses alienígenas de levar os venusianos para a Terra carregava o potencial para um dilema moral para os protagonistas que é muito pouco explorado, ainda que o livro tenha uma boa justificativa pra não ir fundo nessa questão. Entretanto, o interessante conceito de criaturas que só podem tomar certas ações com consentimento, tem seu charme, lembrando os Monges enfrentados pelo 12º Doutor na 10ª temporada da Nova Série.

Canção de Ninar Venusiana é um bom trabalho de Paul Leonard, que apresenta uma fascinante e original civilização alienígena com a sua versão dos venusianos, ao mesmo tempo que lança um interessante olhar sobre a relação entre o Primeiro Doutor e seus dois primeiros companions humanos, criando uma virada na forma como os professores passam a enxergar as suas viagens na TARDIS. Em resumo, um ótimo livro da série, que deixa explícita por que diferente de todos os outros, os times “Full TARDIS” do Doutor de William Hartnell funcionavam tão bem, mesmo não sendo uma história com essa configuração.

Canção de Ninar Venusiana (Venusian Lullaby) – Reino Unido, 20 de Outubro de 1994.
Autor: Paul Leonard
Publicação: Virgin Missing Adventures #03
168 Páginas.

RAFAEL LIMA . . . Sou Um Time Lord renegado, ex-morador de Castle Rock. Deixei a cidade após a chegada de Leland Gaunt. Passei algum tempo como biógrafo da Srta. Sidney Prescott, função que abandonei após me custar algumas regenerações. Enquanto procurava os manuscritos perdidos do Dr. John Watson, fiz o curso de boas maneiras do Dr. Hannibal Lecter, que me ensinou sobre a importância de ser gentil, e os perigos de ser rude. Com minha TARDIS, fui ao Velho Oeste jogar cartas com um Homem Sem Nome, e estive nos anos 40, onde fui convidado para o casamento da filha de Don Corleone. Ao tentar descobrir os segredos da CTU, fui internado no Asilo Arkham, onde conheci Norman Bates. Felizmente o Sr. Matt Murdock me tirou de lá. Em minhas viagens, me apaixonei pela literatura, cinema e séries de TV da Terra, o que acabou me rendendo um impulso incontrolável de expor e ouvir ideias sobre meus conteúdos favoritos.