Crítica | Doctor Who: The Runaway Bride

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Se o primeiro especial de natal de Doctor Who era sobre uma companion lidando com a perda do seu Doutor e a chegada de um novo, The Runaway Bride, o Especial de Natal de 2006, trabalha com a questão oposta, com o Time Lord lidando com a partida de sua companheira. Não que este especial seja um episódio melancólico, nem poderia, já que é a história que introduz oficialmente à série a divertida Donna Noble. Mas a partida de Rose traz à tona algo que o show já havia sugerido em Dalek e que aqui é mostrado de forma ainda mais explícita: o Doutor precisa de um companion para lembrá-lo quem ele é, e o que ele defende.

O roteiro do Especial, escrito por Russell T. Davies começa mostrando como a noiva vista nos segundos finais de Doomsday foi misteriosamente teletransportada de sua cerimônia de casamento para dentro da TARDIS, para o espanto do Décimo Doutor. Seu nome é Donna Noble e, sem saber, ela está no centro de uma conspiração alienígena. Como no episódio de Natal anterior (e em quase todos escritos por Davies) o roteirista usa símbolos clássicos do Natal para transformá-los em armas mortais, como os robôs “Papai Noel” assassinos, vistos em The Christmas Invasion, além de bolas de enfeite explosivas e uma nave espacial em formato de estrela de Belém, que ataca Londres. Davies claramente se divertiu escrevendo o Especial e podemos perceber isso na ótima sequência em que a TARDIS persegue um carro, enquanto crianças no carro da frente vibram ao ver o Doutor resgatando Donna.

Quase todo o episódio se desenrola como uma comédia de ação, começando pela confusão e antipatia inicial entre Donna e o Doutor. O texto joga bem com o humor nonsense, pois embora Donna não esconda o espanto ao perceber que está no espaço ou ao ver o tamanho da TARDIS do lado de fora, ela está mais preocupada em chegar até o seu casamento do que em descobrir por que foi parar no espaço. Nessa pequena jornada até o local da festa, o Gallifreyano e a moça vão descobrindo suas afinidades, ainda que sempre com um gostoso clima de implicância. Quando a festa de casamento (que começou sem a noiva) é atacada e a dupla parte novamente para investigar, já percebemos o nascimento de uma grande amizade. Donna funciona muito bem para esse tipo de humor nonsense proposto pelo roteiro, mas Davies também utiliza a personagem para fazer graça com uma de suas obsessões com a série, que é a questão de como os humanos não percebem a existência de alienígenas com as invasões constantemente rechaçadas pelo Doutor. Nesse sentido, Donna é retratada como uma alienada, absorvida demais nos problemas da própria vida para notar ataques extraterrestres.

Entretanto, o exagero com que a trama cerca Donna e as situações que a envolvem (acompanhada por uma atuação histriônica nos momentos certos de Catherine Tate) poderiam tê-la tornado excessivamente caricatural. Mas o roteiro de Davies, aliado a pequenas sutilezas no trabalho de Tate concedem humanidade a Donna. Percebemos que por trás do clichê da “mulher surtada” existe alguém empático que demonstra grande preocupação com os feridos do ataque a sua festa de casamento e vulnerabilidade emocional ao mal conseguir ouvir os planos da Imperatriz Racnoss após descobrir que seu noivo apenas a usou para os planos da vilã. O Doutor diz que Donna é incapaz de “ver o grande esquema das coisas”, o que é paradoxalmente a grande fraqueza e a grande força da personagem, o que a tornaria no futuro uma companion tão perfeita para o Décimo Doutor.

O episódio continua o trabalho de Davies de resgatar a mitologia da série ao, pela primeira vez, nomear Gallifrey. Enquanto na Série Clássica, o nome do planeta surgiu de forma quase casual em The Time Warrior, Davies dá tremendo impacto a revelação deste nome diante da reação desesperada da Imperatriz Racnoss. Esta cena é tão impactante por nos convencer de vez que o Doutor (este Doutor em particular) não deve viajar sozinho. O Time Lord oferece paz e a chance de recomeçar em outro lugar a Imperatriz Racnoss, e quando a vilã recusa, ele faz o que tem que fazer e lhe dá punição, eliminando a espécie da vilã ao afogá-la nas águas do Tâmisa. A frieza no rosto de David Tennant, cercado de água e fogo enquanto vê a Imperatriz gritar desesperada é assustadora, e esse medo é refletido no rosto de Donna. A ira do Doutor nesta cena não é vinda da raiva, mas uma ira calculada, quase divina na falta de um termo melhor. Deuses não veem as pequenas coisas, mas pessoas como Donna veem, e por isso ela pode chamá-lo à razão.

A ausência de Rose é uma grande parte de The Runaway Bride. Na Série Clássica, quando um companion partia, ele às vezes ganhava uma menção saudosa no início do arco seguinte e acabou. A série seguia em frente, o que ia de encontro com a própria filosofia do personagem-título. Mas a TV das décadas de 60, 70 e 80, e o modo como os fãs se relacionam com as suas séries era completamente diferente do que era em 2006. Não se podia mais sumir com um personagem como Rose sem demonstrar consequências emocionais. Este Especial de Natal lida bem com o assunto, com o clima mais cômico da história sendo quebrado cada vez que algum tipo de lembrança de Rose surge. O Doutor sequer parece ter a capacidade de dizer o nome da ex-companion até o final do episódio. Ele consegue convidar Donna a se juntar a ele. Apesar de Donna declinar do convite para entrar no time da TARDIS (desta vez), ela parece fazê-lo entender que ele precisa de alguém para detê-lo de vez em quando. Ao enfim conseguir dizer o nome de Rose, o Doutor parece pronto para colocá-la junto com seus antigos companions em sua memória e seguir em frente. Infelizmente, não seria bem assim.

The Runaway Bride não funcionaria se não fosse a química rara entre David Tennant e Catherine Tate, tanto nas cenas de comédia escrachada, quanto em trechos mais amenos e dramáticos. Não é de se surpreender que a personagem, inicialmente pensada apenas para esta aventura, tenha retornado na 4ª Temporada como companion oficial. Euros Lyn retorna uma vez mais à série, fazendo um competente trabalho de decupagem, que dá dinamismo às cenas de ação, como a fantástica sequência de perseguição da TARDIS, muito bem realizada, ou à já citada cena do clímax no subterrâneo de Londres, onde ocorre o confronto final com a Imperatriz Racnoss. O diretor também sabe valorizar os diversos tempos cômicos do episódio, potencializando o humor do roteiro.

Tecnicamente, o episódio é bem executado. Embora eu tenha elogiado a sequência de perseguição, outros trechos envelheceram mal visualmente, como a fábrica onde o Doutor e Donna encontram a Imperatriz Racnoss pela primeira vez, onde a profundidade de campo é claramente um Chroma Key. O próprio conceito visual da Imperatriz Racnoss como uma criatura aracnídea, embora interessante, não parece muito bem executado, em um misto de maquiagem, animatrônico e CGI que não convence. Na trilha sonora, Murray Gold compõe um tema contagiante para Donna, que casa com o clima do episódio, e retornaria com a personagem na 4ª Temporada. Pessoalmente The Runaway Bride é o meu Especial de Natal favorito da Era Davies. É uma aventura despretensiosa e honesta no que se propõe, e ainda introduz uma das personagens mais carismáticas da Nova Série.

Doctor Who: The Runaway Bride (Reino Unido, 25 de Dezembro de 2006)
Direção: Euros Lyn
Roteiro: Russell T. Davies
Elenco: David Tennant, Catherine Tate, Sarah Parish, Don Gilet, Howard Attfield, Jacqueline King, Trevor Michael Georges, Krystal Archer
Duração: 60 Min.

RAFAEL LIMA . . . Sou Um Time Lord renegado, ex-morador de Castle Rock. Deixei a cidade após a chegada de Leland Gaunt. Passei algum tempo como biógrafo da Srta. Sidney Prescott, função que abandonei após me custar algumas regenerações. Enquanto procurava os manuscritos perdidos do Dr. John Watson, fiz o curso de boas maneiras do Dr. Hannibal Lecter, que me ensinou sobre a importância de ser gentil, e os perigos de ser rude. Com minha TARDIS, fui ao Velho Oeste jogar cartas com um Homem Sem Nome, e estive nos anos 40, onde fui convidado para o casamento da filha de Don Corleone. Ao tentar descobrir os segredos da CTU, fui internado no Asilo Arkham, onde conheci Norman Bates. Felizmente o Sr. Matt Murdock me tirou de lá. Em minhas viagens, me apaixonei pela literatura, cinema e séries de TV da Terra, o que acabou me rendendo um impulso incontrolável de expor e ouvir ideias sobre meus conteúdos favoritos.