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Crítica | For All Mankind – 2X08: And Here’s to You

por Ritter Fan
894 views (a partir de agosto de 2020)

  • Há spoilers. Leiam, aqui, as críticas dos demais episódios.

Deixe-me já começar meus comentários de And Here’s to You pelo elefante na sala, ou seja, a concretização do caso entre Karen e Danny. Afinal, quando isso era apenas um flerte em The Weight, já estranhei e, quando o beijo entre eles aconteceu em Don’t Be Cruel, concluí que, apesar de não ter gostado, a questão foi abordada com elegância. E é importante deixar claro que minha hesitação sobre o assunto não está no caso em si, ou seja, no fato de Karen ter decidido deixar-se levar por seus desejos ou por Danny estar apaixonado por ela. O ponto de estranhamento é, única e exclusivamente, o fantasma de Sean.

Afinal, a morte do garoto, que levou à adoção de Kelly como uma forma de terapia de casal (sei que é uma maneira fria de ver a coisa, mas é, lá no fundo, verdade) e, ao que parece, um arrefecimento da relação entre Karen e Ed, ainda está muito presente para os pais, como a temporada tem demonstrado. Danny, filho de Tracy e Gordo, tinha em Sean seu melhor amigo e, mesmo que não tenhamos visto o quanto a morte súbita o afetou em razão do pulo temporal, presume-se que o jovem tenha sofrido. Mesmo com isso, consigo ver a atração mútua ali. Não falo apenas a beleza física dos dois que é fato, mas sim da dependência de um pelo outro, com Karen representando possivelmente a mãe ausente de Danny e Danny um resquício de Sean, ainda que essa minha afirmação pareça querer concluir por uma forma de incesto, o que de forma alguma é o caso. É, apenas, uma enorme estranheza ver uma mãe transar com o melhor amigo de seu filho morto que, de tabela, é também filho do ex-casal mais próximo da família Baldwin.

Dito isso, o roteiro de Ronald D. Moore e novamente a direção de Dennie Gordon emprestam uma aura de elegância à situação, o que sem dúvida alguma suaviza a estranheza e dá significado à relação que pode ou não perdurar e repetir-se. A primeira escolha inteligente é abordar o momento como algo absolutamente inevitável entre os dois, com os atores realmente convencendo em suas atuações envolvidas em paixão, desejo e uma série de outros sentimentos, inclusive de autoafirmação por parte de Karen. A outra escolha boa é lidar com a transa em si na forma de elipse, com um corte para o momento posterior, com os dois deitados no porão e com Danny revelando seus sentimentos ainda adolescentes por Karen e ela afastando-os de imediato mesmo que isso signifique – não sei ainda – que ela mesmo está afastando ou repelindo o que verdadeiramente sente pelo rapaz. O resultado é um momento bonito e solene que, mesmo não afastando os problemas conceituais ao redor da situação, pelo menos trouxe relevância e uma sensação de que o que ocorreu era inescapável para eles. Será interessante ver como isso evolui agora, já no finalzinho da temporada.

E, deixando o momento de ação para o final de meus comentários, a intensificação da procura de Kelly por seu pai biológico também foi bem abordado dentro do contexto do episódio, ainda que essa subtrama permaneça a mais distante do todo. Digo isso porque ainda é difícil delinear como essa investigação da jovem afetará sua relação com seus pais adotivos e seu futuro e o quanto isso afetará a narrativa macro. Em outras palavras, temos realmente que aguardar antes de bater o martelo sobre esse pedaço da história. Por outro lado, Aleida finalmente ganha um pouco mais de tempo de tela em outra subtrama de menos impacto, mas que é também abordada de maneira sóbria, quando ela se vê obrigada – primeiro unicamente pela ordem de Margo, mas, depois, também moralmente – a procurar Bill depois que ele pede demissão da NASA por ela ter agido como a gota que fez o copo derramar. A discussão sobre bullying – em um contexto adulto, o que é raro! – e as cicatrizes psicológicas e físicas que ele pode causar foi interessante, ainda que potencialmente didática demais, com uma história do passado de Aleida inserida ali de maneira um tanto quanto conveniente para espelhar o drama do especialista veterano.

Mas, já caminhando para o grande clímax, o roteiro consegue também lidar com diversos outros assuntos mais uma vez sem tumultuar o episódio. Molly descobre que tem glaucoma irreversível muito provavelmente em razão do banho de radiação que escolheu levar na Lua e lida com o assunto da única maneira que ela poderia lidar, ou seja, saindo da sala da oftamologista basicamente direto para o cockpit de um avião para poder ver o espaço talvez pela última vez em sua vida. Foi um belíssimo e tristíssimo momento que fez com que as consequências da escolha da personagem fugissem do mais natural, que seria vê-la enfrentar o câncer. Margo, por seu turno, tem um ótimo momento de flerte cômico com o simpático soviético Sergei dentro da cápsula em que o golpe de relações públicas em tese está para acontecer, ainda que ache pouco provável que os dois cheguem a ter algum tipo de relacionamento maior em razão de seus respectivos cargos. Finalmente, Gordo retorna à Jamestown, sendo recebido como herói e veterano e, finalmente, revelando para mais alguém – no caso Tracy em seu mais do que ilegal fumódromo – sobre seus problemas mentais e o sacrifício de Danielle.

E, sobre o clímax, a grande sequência de ação espacial em que os marines americanos matam um cosmonauta soviético (incineram, na verdade, ainda que sem querer) e ferem outro, o que tenho a dizer é que, muito além da excelente execução quase anticlimática e verossimilhante da sequência, com construção de tensão e tiros sem som, tivemos o primeiro gostinho da “guerra nas estrelas” que o showrunner parece estar preparando. Não me lembro de ter visto uma ficção científica abordando um futuro (ou passado, no caso) diferente do nosso que lidasse com conflitos espaciais tão próximos aos que temos hoje em dia na superfície da Terra mesmo, tornando perfeitamente possível imaginar esse momento como o primeiro de conflitos de larga escala que vemos em séries como The Expanse, um pouco mais no futuro, ou até mesmo o delineamento do que poderia vir a ser batalhas espaciais de um sem-número de filmes, séries e romances do gênero, inclusive a própria Battlestar Galactica de Moore. O que eu simplesmente preciso ver agora é até que ponto For All Mankind estará disposta a desenvolver esses conflitos espaciais, carregando a série de vez para a seara da ficção científica galgada na realidade.

And Here’s to You arrisca-se nas subtramas pessoais, saindo-se de maneira eficiente até mesmo nelas, ainda que o romance de Karen com Danny inegavelmente cause estranhamento. E, no macro, a série continua fascinante com sua abordagem do que poderia ser chamado de gênese das ficções científicas que tanto povoam a literatura e o audiovisual.

For All Mankind – 2X08: And Here’s to You (EUA, 09 de abril de 2021)
Criação: Ronald D. Moore, Matt Wolpert, Ben Nedivi
Direção: Dennie Gordon
Roteiro: Ronald D. Moore
Elenco: Joel Kinnaman, Michael Dorman, Wrenn Schmidt, Sarah Jones, Shantel VanSanten, Jodi Balfour, Krys Marshall, Sonya Walger, Nate Corddry, Dan Donohue, Noah Harpster, Michael Benz, Leonora Pitts, Teya Patt, Coral Peña, John Marshall Jones, Nikola Djuricko, Jeff Hephner
Duração: 74 min.

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3 comentários

Barry, o Lanterna 12 de abril de 2021 - 06:16

então…… kkk na última critica comentei que estava contente que pelo menos parecia que o caso da Karen e do Danny já tinha sido resolvido, mas eis que agora aconteceu isto. Eu acho que a “atração” do Danny pela Karen não é tanto amor genuíno mas sim algo como uma admiração muito grande desde criança e que ele pode ter confundido como amor. Espero francamente que não estiquem muito mais essa história porque não é de todo necessária e acho que pode vir a ter várias consequências na amizade da Karen e da Tracy e entre as duas famílias.

Achei a cena da Molly e do marido muito boa. Ele na t1 foi apresentado como alguém que destoava do resto mas que entretanto foi sendo mais aprofundado, e fiquei contente que ele foi dos primeiros a perceber que algo não estava bem com a Molly. E para variar também gostei de que não foram com a saída fácil de “Molly tem cancro e poderá morrer” como muitas séries fazem, mas sim algo que teria graves consequências e até faria mais sentido no contexto do personagem

Responder
planocritico 12 de abril de 2021 - 14:36

Concordo que a atração de Karen e Danny não é amor genuíno e também espero que essa trama tenha um fim logo, nem que seja drástico, com a revelação do que ocorreu. Sobre a Molly e o marido, acho que os dois formam um casal fenomenal, o melhor da série!

Abs,
Ritter.

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Barry, o Lanterna 12 de abril de 2021 - 18:19

Sinceramente acho que também concordo que é o melhor casal. São tão diferentes um do outro que acabam por se encaixar bem e compreendem-se!!

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