Crítica | For The Love of The Boogyeman: 40 Anos de Halloween

For The Love of The Boogyeman: 40 Anos de Halloween é um documentário que sofre as agruras de ser uma produção “bastarda”, isto é, sem reconhecimento oficial de qualquer envolvido na produção de Halloween – A Noite do Terror. Isso não impediu, no entanto, o empenho de Paul Downey, juntamente com uma legião de admiradores de Michael Myers e John Carpenter, a produzir o material retrospectivo, lançado em 2018, ocasião do filme mais recente da franquia, marcado pelo retorno de Jamie Lee Curtis como Laurie Strode e do cineasta idealizador da produção de 1978 na execução e trilha sonora.

Outro problema é caminhar por uma via já exaustivamente retratada em documentários retrospectivos. O que dizer sobre algo que de tanto explanado, ainda não tenha sido revelado? Esse é um problema, principalmente pelo fato de não ser chancelado com alguma entrevista dos membros envolvidos na franquia. Resta, então, navegar no que já foi dito e relacionar o filme com uma geração específica de cinéfilos que foram influenciados, direta e indiretamente, pelo filme de 1978. Logo na abertura, a câmera busca emular o plano-sequência de abertura, famoso trecho do primeiro assassinato cometido por Michael Myers, ainda criança.

A música tocada, mixada especialmente para o documentário, lembra Halloween 2. Os depoimentos reforçam a importância de John Carpenter para o cinema independente da década de 1970, bem como a faceta estética bastante peculiar do cineasta. Adiante, eles analisam a história, tida como o clássico confronto entre o bem e o mal, além de exaltar alguns pontos considerados basilares para compreensão do filme como um clássico absoluto: a dilatação do suspense e as inquietações do ser humano diante de seu semelhante monstruoso. A forma como os realizadores contemplaram espaços confinados é outro ponto positivo, ressaltado nas entrevistas.

Ademais, o restante toca em pontos importantes, mas já trabalhados em outros documentários: a trilha sonora pontual, marcante como Psicose e Tubarão; o uso de steadicam, equipamento criado por Garret Brown em 1975, conhecido em enquadramentos brilhantes de O Iluminado e Caminho da Glória, ambos de Stanley Kubrick, bem como Rock – Um Lutador e o filme homenageado pelo documentário, também marcante no uso das possibilidades narrativas de um recurso que consiste na câmera que parece flutuar no espaço cênico, presa ao tronco de quem registra as imagens.

Há também um breve debate sobre a final girl, uma análise do perfil estoico de Michael Myers, antecipação para Freddy Krueger e Jason Voorhees. Dr. Loomis também é brevemente radiografado, tal como o processo de manufatura da famosa máscara do antagonista, informações editadas por David Hastings, organizador das imagens dirigidas artisticamente por L. J. Greenwood, membro da equipe técnica que investiu em máscaras, bonecos, estatuetas e aboboras representativas do imaginário do Halloween, a data no calendário, e de Halloween, o filme.

Intercalado entre um depoimento e outro há uma encenação de Michael Myers, interpretado por Evan Tapper. Ele surge numa oficina e ataca o mecânico (Chris Johnson), numa humorada referencia ao universo retratado pelo documentário que dialoga bem com os conceitos de crítica cinematográfica, gênero do discurso responsável por resgatar, memorizar, demarcar, em suma, transformar em registro histórico momentos oportunos das diversas etapas de evolução do cinema. A análise de Halloween e de seu antagonista é motivadora, apesar do que foi apontado logo na abertura, isto é, a falta de recursos mais oficiais, algo que quase deixou a produção despencar em sua totalidade no amadorismo. Foi por pouco, muito pouco.

For The Love of The Boogyeman – 40 Anos de Halloween (For The Love of The Boogyeman – 40 Years of Halloween) — Estados Unidos, 2018
Direção: Paul Downey
Roteiro: Paul Downey
Elenco: Dave McRae, Nathan Thomas Milliner, Jack Norman, David Hastings, Richard Stringham, James Plumb, Troy Escamilla, J. Blake Fichera, Chris Johnson
Duração: 75 min

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.