Crítica | Fora de Rumo

Alguns consideram trocadilhos o bem e o mal da linguagem. Eu confesso que amo, por isso começo a crítica dando longo a minha deixa: em Fora de Rumo, Clive Owen e Jennifer Aniston estão, literalmente, sem rumo, tamanho é a quantidade de excessivas reviravoltas que parece uma produção oriunda das mentes criadoras de Garotas Selvagens, outro filme “sujo” e “excessivo”, lançado em 1998. Sob a direção de Mikael Håfström, não é algo de se estranhar. Na verdade, é para se decepcionar, pois em 2005, o sueco cometeu esta narrativa cheia de potencial, mas que descarrilhava por conta de seu final freneticamente mutável. Nada contra os twists para nos fazer sair da mesmice cotidiana hollywoodiana, mas há excessos e excessos e Fora de Rumo abusa demais da conveniência, e, ainda mais caro, da nossa boa vontade enquanto espectador.

Se o leitor se perguntou os motivos para decepção, desde já reitero que não é apenas por conta do desenvolvimento da narrativa, mas pela falta de tato de Håfström enquanto realizador. Posteriormente, em 1408, adaptação de uma história de Stephen King, o cineasta perde relativamente o fio da meada entre o tédio e o desenvolvimento anticlimático da história. As mesmas proporções acometem O Ritual, outra história cheia de potencial, desperdiçada e pouco empolgante até nas sequências de exorcismo. No badalado Rota de Fuga, lançado em 2013, piorou, pois dirigir um filme já não é o seu forte, principalmente quando é preciso dar conta de atores medíocres, tais como Sylvester Stallone e Arnold Schwarzenegger.

Percebemos, então, que o cineasta não evoluiu com os seus erros, o que é lamentável. Mas vamos, então, após breve digressão, ao conteúdo de Fora de Rumo. Baseado no roteiro de Stuart Beattie, dramaturgo que teve como tarefa, elaborar a tradução intersemiótica do romance homônimo de James Siegel, o filme acompanha a trajetória errante do publicitário Charles Schine (Clive Owen), um personagem tipicamente hitchcockiano, condenado a pagar por um erro através de situações complexas e nada agradáveis. Ele é um pai de família em sua dimensão pessoal, responsável por economizar dinheiro, juntamente com sua esposa Deanna Schine (Melissa George), tendo em vista conseguir dar conta dos tratamentos da filha, acometida por complicações da leucemia.

Certo dia, ele conhece Lucinha Harris (Jennifer Aniston), a sereia de sua odisseia cotidiana entre o trabalho e o lar. Não que ela seja um monstro, ao contrário, a moça oferece ajuda justamente quando ele passa por uma situação delicada no deslocamento, já que além de ter perdido o metrô para o centro da cidade, ele também esqueceu a sua carteira. Da oferta de ajuda surge o papo e logo os dois trocam contato, almoçam e descobrem que seus casamentos estão mais fracassados do que imaginam. Ela mantém a conveniência e ele ainda se mantém por conta da filha. A atração imediata os leva a um hotel relativamente vagabundo. Antes de cometer o ato sexual para aliviar as suas tensões, a dupla é abordada por um bandido, Phillipe La Roche (Vincent Cassell).

Fogo no parquinho: Charlie apanha bastante, a sua acompanhante é violentada. Para piorar, além das desculpas que precisa dar em casa e no trabalho, ele começa a receber ligações ameaçadoras, repletas de chantagem. Como não denunciaram o fato, por decisão de Lucinha, preocupada com o que isso acarretaria em seu casamento, ambos precisam lidar com as desvantagens do silencio, aqui uma lição de morte. É daí que as coisas começam a dar errado em doses cavalares. Ele não se concentra mais no trabalho, outras pessoas acabam envolvidas na situação, tais como a sua esposa e filha, além do colega de trabalho, Winston (RZA), vítima fatal dos desdobramentos dessa trama cheia de chantagens e confissões.

Levado a extorquir a conta bancária com todo dinheiro para hipoteca e tratamento da filha, economizado pelo casal Schine ao longo de sete anos, o errante da narrativa segue um caminho de raiva, dor e impotência. Por conta de um deslize, numa fábula moralista sobre os perigos da infidelidade, ele precisa pagar um preço tão caro quanto o arcado pelos personagens de Michael Douglas, mas elevado a uma potência ainda maior. Resultado: um breve rastro de sangue acompanha a sua trilha, seguido de outras celeumas, tais como uma investigação por causa de investidas errôneas nas finanças da conta que assume na empresa, dentre outros problemas.

Para piorar, há ainda algumas reviravoltas antes do painel de mudanças bruscas do final. Lucinha Harris, vitimada na situação constrangedora do hotel e dona das pernas bem equipadas em seus altíssimos saltos naquele fatídico dia no vagão do trem pode não ser a pessoa que ele imagina que seja. Maquiada e vestida com os figurinos de Natalie Ward, a atriz vai do traje executivo ao tom urbano, casual, visual e propositalmente dúbia ao passo que a história avança. Seria ela uma possível falsária, viúva negra que o levou de vez ao caminho da derrota? Essa é uma das diversas questões que são expostas e respondidas em disparos múltiplos que mal conseguimos acompanhar a série de bifurcações no texto dramático em Fora de Rumo, uma história traumática orquestrada pela lógica do “crime e castigo”. Por falar na palavra-chave, isto é, “lógica”, o que fica evidente na trama é a sua ausência, juntamente com o desesperador pedido de suspensão da crença por parte dos realizadores.

Provavelmente convencidos de que compramos a sucessão de conveniências para o final apoteótico, com o protagonista a sair praticamente ileso de uma situação sem o mínimo de verossimilhança, os realizadores não se preocuparam com tal questão. Vão gritar, provavelmente, “é cinema”! Talvez por isso deixemos passar, mas que há problemas, caro leitor, isso não podemos negar. E não são poucos, tudo no desenvolvimento dos conflitos, pois a estética não deixa a desejar. Os enquadramentos e movimentos de câmera da direção de fotografia de Peter Biziou, editados pelo veterano Peter Boyle, demonstram-se eficientes, tal como o design de produção de Andrew Lewis e a condução sonora de Edward Sheamur. Os cenários e a direção de arte também estão adequados. Faltou mesmo foi bom sendo na construção da história a ser contada.

Fora de Rumo (Derailed/Estados Unidos, 2005)
Direção: Mikael Håfström
Roteiro: Stuart Beattie
Elenco: Addison Timlin, Clive Owen, David Morrissey, Giancarlo Esposito, Jennifer Aniston, Melissa George, Rachel Blake, RZA, Tom Conti, Vincent Cassel, Xzibit
Duração: 107 min

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.