Crítica | Halloween (2018) – Trilha Sonora Original

Um dos pontos mais importantes para o sucesso de Halloween – A Noite do Terror, de 1978, era a trilha sonora impactante de John Carpenter. Simples, mas atmosférica, o material emulou o padrão Tubarão, de John Williams, e Tubular Bells, de Mike Oldfield, tema do clássico O Exorcista, além de ter Psicose e outras composições de Bernard Herrmann como inspiração. O resultado foi a condução musical mais intensa no subgênero slasher. Em 2018, com o retorno de Jamie Lee Curtis no papel de Laurie Strode, John Carpenter na produção executiva e trilha sonora, Nick Castle como Michael Myers e outras referências ao filme de 1978, é compreensível o apego com a mesma trilha que fez da franquia um sucesso do cinema independente e um marco do terror.

Para compor a versão atualizada, John Carpenter trouxe seu filho, Cody Carpenter, juntamente com o músico Daniel Davies. O resultado é uma trilha sonora que vai além das demandas industriais básicas e funciona dissociada de seu filme, sem emitir apenas ferrões sonoros e ruídos irritantes, comuns nas composições de terror, tema associado ao medo, pavor e desconforto. Há uma filosofia própria na trilha que versa sobre medo, ansiedade e traumas. Mixada por John Spiker depois do fechamento e entrega para conversão em mídias, a trilha sonora, produzida pela Sacred Bones Design traz fotos de Sophie Gransard num trabalho gráfico simples, pouco inspirado, sem nenhum recurso memorável que torne o álbum mais interesse que a mídia física com as faixas.

Primeira composição de Carpenter após Fantasmas de Marte, lançado em 2001, Halloween (2018) traz a simplicidade icônica de duas notas que nos deixam constantemente em suspense. A marcação 5/4 reforça o desconforto diante do retorno de Michael Myers, psicopata que há 40 anos, transformou para sempre a vida de Laurie Strode, uma mulher amargurada, instável e com requintes de vingança expelidos por cada poro da sua estrutura corpórea. Com a expectativa de mistério sem fim, cíclica e num ritmo de tensão crescente, o trio traz para a composição a presença do piano, a inclusão de novos sintetizadores e cordas densas, junto ao ótimo desempenho de Davies na guitarra, bem como as improvisações de Carpenter.

As 21 faixas seguem um fluxo intenso. Há altos e alturas normais, porque nenhuma composição afunda ao longo do processo. Soturna, Intro é uma faixa preambular poderosa, chamada para lembramos do passado e sentirmos o que está para acontecer. Halloween Theme é remixada, ganha ritmo mais ágil, mas sem perder o seu caráter hipnótico. Laurie Theme, faixa seguinte, passa emoção e tristeza, tamanha a carga melancólica de uma mulher que nunca superou os seus traumas do passado. Prison Montage, por sinal, é um dos melhores momentos da trilha, acompanhada por acordes que indicam o prenúncio do mal que vai se estabelecer.

Ademais, John Carpenter e seus pupilos adentram aos temas originais de Halloween – A Noite do Terror e depois expandem. E muito bem, por meio de cordas inquietantes, sintetizadores bem conectados aos instrumentos físicos e um piano que entoa música simples, mas marcante. Halloween continua com Michael Kills, Michael Kills Again, The Shape Returns (acompanhada de um plano-sequência metalinguístico), The Bogeyman, The Shape Kills, Laurie Sees The Shape, The Shape Hunts Allyson, dentre outras, além das derradeiras The Shape Burns (incrível) e Halloween Triumphant. Por fim, a trilha funciona como uma espécie de elegia. Tem tom fúnebre, melancólico e tal como a sua faceta literária, trafega por uma via moralizante destinada aos personagens e espectadores, orientados a aceitar o destino de Laurie que ainda não foi selado, haja vista o lançamento de Halloween Kill e Halloween Ends, episódios finais da saga de Michael Myers, filmados simultaneamente e agendados para 2020 e 2021.

Halloween 2018 (Music from the Motion Picture)
Compositor:
 John Carpenter, Cody Carpenter, Daniel Davies
Gravadora: Sacred Bones Record
Ano: 2018
Estilo: Textura percussiva

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.