Crítica | Hellboy – Vol. 2: O Despertar do Demônio

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Hellboy é um passaporte para um canto do paraíso dos quadrinhos que você pode nunca mais querer sair. Entrem e aproveitem.
– Moore, Alan – Introdução ao encadernado.

Foram dois anos entre os primeiro e segundo arcos de Hellboy, mas, nesse interregno, Mike Mignola não deixou os leitores de sua criação completamente órfãos, soltando, aqui e ali, pequenos contos e historietas que, porém, só foram reunidos no Volume 3 da série. O Volume 2, portanto, continua mais diretamente a narrativa do icônico Sementes da Destruição, desta vez colocando Hellboy e sua equipe do B.P.D.P. contra um vampiro na Romênia.

Ou, pelo menos, esse é o pano de fundo da narrativa de Mignola que escreve e desenha o arco.

Com uma dedicatória a ninguém menos do que “Drácula e todos esses vampiros que amava”, o autor não esconde o que procura fazer em O Despertar do Demônio, ou seja, a construção de um mito vampiresco próprio, mas que bebe sem pudor do clássico de Bram Stoker, Os planos para ressuscitar um vampiro romeno chamado Giurescu por Ilsa Haupstein que, juntamente com o mascarado Kroenen e Leopold Kurtz, formam a fidelíssima trinca de nazistas que permaneceram fieis a Rasputin mesmo após o percebido fracasso do projeto Ragnarok, que conjurou Hellboy em 1944, servem de estrutura básica e “desculpa narrativa” para que Mike Mignola continue sua franca expansão da mitologia de seu universo lovecraftiano.

O que parece ser uma história razoavelmente objetiva lidando com o ressuscitação de um vampiro, começando um ano após os eventos do volume anterior, mas com um prólogo que confirma a volta dos três vilões mencionados acima (que ficaram congelados como o Capitão América desde o final da Guerra), logo ganha contornos bem mais ambiciosos, com a inclusão de mitos eslavos (Baba Yaga, que cronologicamente já tinha tido seu primeiro confronto direto com Hellboy), gregos (Hecate e as Hárpias) e nórdicos (Yggdrasil, a Árvore da Vida e que conecta os Nove Reinos), todos eles muito bem costurados em volta, claro, de Rasputin que, aqui, vemos constantemente, mas em sua forma espiritual, depois que foi arpoado por Abe Sapien, queimado por Liz Sherman e esmigalhado por Hellboy na aventura anterior. Toda a narrativa no castelo Giurescu, onde Hellboy literalmente cai sem para-quedas, na vila aos arredores e nos dois outros lugares onde outras duas equipes do B.P.D.P. vão investigar, conectam-se muito bem, além de abrir porta para um futuro novo e monstruoso membro do grupo e desenvolver a mitologia pessoal do Garoto do Inferno ou, como ele é finalmente nominado, Anung Un Rama, mas com a manutenção dos detalhes sobre o que exatamente isso significa, detalhes esses que até mesmo Hellboy não quer conhecer, por temer o pior.

Claro que Mignola faz como em Star Trek e inclui seus “camisas vermelhas” na história, de maneira a fazer parecer que o Bureau é repleto de agentes, mas cuja verdadeira intenção é poder matar alguns e mostrar que o jogo entre as forças paranormais cobra preços altos dos dois lados. Fica sem dúvida um pouco artificial, mas há que se dar crédito para o autor por querer legitimar sua criação para além de um grupo de personagens que nunca sofrem absolutamente nada, como é a maioria dos títulos mainstream. Além disso, aqueles que já leram volumes posteriores de Hellboy sabem que o crescimento do B.P.D.P. ganha mais organicidade tanto no título principal, quanto, também, nos spin-offs dedicados quase que exclusivamente ao Bureau.

No entanto, se o que gira em torno de Giurescu é mais um exemplo de grande controle narrativo, Mignola estabelece uma sub-trama envolvendo Kroenen, Kurtz e a cabeça “futuramada” do professor Herman von Klempt, amigo do primeiro, que realmente parece muito deslocada, quebrando a fluidez da história principal. As divergências entre Kroenen e Kurtz sobre Klempt ganham pouca atenção e, com isso, parecem artificiais e infantis, algo que nem de longe combina com a atmosfera sombria e lúgubre que o autor eficientemente imprimiu na narrativa mestre. Além disso, essa sub-trama ganha um desfecho apressado e insatisfatório, que reforça a impressão de que o lugar correto para ela seria em um conto apartado, dedicado a esse grupo de vilões de maneira que os leitores ganhassem, ao mesmo tempo, uma história pequena, mas potencialmente bem mais interessante e não tivessem O Despertar do Demônio picotada com algo sem conexão direta com o arco.

A arte de Mignola continua belíssima naquele seu estilo “ultra-deformado” que sempre a marcou, mas, aqui, ele parece ainda mais ousado, provavelmente em razão do sucesso editorial que foi o arco inicial. Com isso, ele se sente mais livre para abordar sanguinolência e violência com mais detalhes, mas sem gratuidade, mantendo a pegada chiaroscuro que as cores de James Sinclair, que entrou no lugar de Mark Chiarello, aprofundam ainda mais ao “emudecer” tudo que não seja o vermelho vivo da pele de Hellboy, criando uma atmosfera ainda mais opressiva e perigosa que no volume anterior. Aliás, considerando a localização geográfica da história – principalmente na Romênia – os aspectos góticos da arte são amplificados e muito bem aproveitados tanto no castelo Giurescu como nos demais locais onde as equipes de Sherman e Sapien vão para investigar.

O Despertar do Demônio continua a construir e a expandir o universo de Hellboy, aprofundando o mistério sobre a natureza sobrenatural e cósmica do protagonista. Não é um volume com suas arestas perfeitamente aparadas como no primeiro, mas é sem dúvida um trabalho invejável de Mike Mignola.

Hellboy – Vol. 2: O Despertar do Demônio (Hellboy – Vol. 2: Wake the Devil, EUA – 1997)
Contendo: Hellboy #1 a 4
Roteiro: Mike Mignola
Arte: Mike Mignola
Cores: James Sinclair
Letras: Pat Brosseau
Editoria: Scott Allie
Editora original: Dark Horse Comics
Data original de publicação: junho a outubro de 1996, junho de 1997 (encadernado), 2004 (epílogo)
Editora no Brasil: Mythos Editora
Data de publicação no Brasil: 1998
Páginas: 146 (encadernado brochura americano)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.