Crítica | Howard, o Super-Herói

Não faz o menor sentido um filme de Howard, o Pato (eu me recuso a usar o subtítulo idiota da versão nacional) ter sido produzido em 1986 pela Lucasfilm. Um pato antropomorfizado dos quadrinhos que era desconhecido mesmo naquela época exigiria esforços muito convincentes em termos de efeitos práticos e digitais, além de um roteiro que fosse mais do que apenas uma bobagem qualquer costurada como algo que elevasse interesse para além do inusitado que é um pato falante praticante de quack-fu ser o protagonista. Só que a conjunção astral para lá de estranha determinou que esse seria o primeiro longa cinematográfico de um personagem da Marvel Comics depois do serial do Capitão América de nada menos do que 42 anos antes.

Projeto de estimação de Willard Huyck e Gloria Katz, colegas de faculdade de George Lucas que viriam a co-escrever o clássico Loucuras de Verão, importantíssima obra que daria visibilidade à produtora de São Francisco, permitindo, poucos anos depois, que a História do Cinema fosse mudada para a sempre com Guerra nas Estrelas, o longa acabou ganhando um orçamento até razoavelmente polpudo de 37 milhões de dólares de uma Universal Studios “inocente” que não queria deixar passar um projeto assinado pela revolucionária produtora. E olha que, inicialmente, a ideia era fazer uma animação, o que faria muito mais sentido para a tecnologia da época, mas a Lucasfilm tinha uma obrigação contratual oriunda da licença obtida, de colocar na lata um filme live-action, ou seja, com atores reais e, novamente, Lucas fez história, só que não da maneira que intencionava.

Normalmente considerada como uma das piores produções de todos os tempos, o problema de Howard, o Pato não está na sua premissa, no pato por vezes animatrônico, outras vezes uma “roupa” e outras ainda uma fusão das duas coisas e nem no fato de que a criação enlouquecida de Steve Gerber e Val Mayerick foi completamente deturpada, mas sim no roteiro idiotizante de Huyck e Katz que transporta o pato titular de seu planeta – igual à Terra em todos os aspectos, mas com a ave tendo sido a epítome da evolução – para cá, fazendo-o esbarrar na roqueira Beverly Switzler (Lea Thompson, que havia ganhado notoriedade com De Volta para o Futuro), com quem estabelece uma relação romântica(!!!), e com o  zelador que acha que é cientista Phil Blumburtt (Tim Robbins, em seu primeiro papel de destaque, provando a resiliência do ator) em uma trama que envolve criaturas demoníacas extradimensionais que querem dominar o planeta resumidas a uma possessão do Dr. Walter Jenning (Jeffrey Jones, em um papel razoavelmente parecido ao seu diretor da escola em Curtindo a Vida Adoidado, do mesmo ano). Ou seja, o bom e velho padrão de aventuras sci-fi infanto-juvenis oitentistas.

Mas mesmo essa bobagem simples e rasteira é mal desenvolvida e executada. Howard (ótimo trabalho de voz de Chip Zien) é o único destaque da fita, já que é realmente inusitado ver um pato com mais atitude e apetite sexual que as aves mais conhecidas da animação juntas (Pato Donald e Patolino, claro) quase chegando às vias de fato com Beverly, cuja direção de Huyck estranhamente faz questão de sexualizar ao máximo. Mas a novidade do primeiro terço do filme logo desaparece e o que se segue é genérico ao limite, com perseguições intermináveis de carro, ultraleve (essa então parece durar três horas) e um embate contra o grande vilão que, apesar de ter lá seu valor em termos de efeitos especiais, é anticlimático, demorado e resolvido facilmente demais, sem nenhum pingo de cuidado para sequer criar um momentinho sequer de verdadeira tensão.

Não é, porém, o fim do mundo e nem de longe “a pior produção de todos os tempos”, ainda que seja provavelmente a pior de 1986. Howard, o Pato funciona na apresentação do protagonista e na forma como o personagem é transposto para as telonas, ou seja, criando, propositalmente, um enorme “vale da estranheza” aviário que, ao contrário, aproxima o espectador pela pura bizarrice da coisa. Até mesmo a pegada risqué de zoofilia levanta sobrancelhas de curiosidade mórbida, devo confessar, e o filme consegue se segurar, aos trancos e barrancos, por sua meia hora inicial, somente para começar a desfazer-se quando a ameaça monstruosa vinda do espaço sideral entra em cena.

Se a Marvel voltou para os cinemas da pior forma possível e a Lucasfilm provou que tinha mesmo que viver de suas duas grandes propriedades, chega a surpreender que uma nova conjunção astral tenha reunido as duas empresas sob um mesmo teto, facilitando a criação de um universo que acabaria trazendo o pato dos quadrinhos de volta às telonas, ainda que muito discretamente. Quem sabe um dia não teremos Howard protagonizando um novo longa cinematográfico, desta vez beneficiando-se da tecnologia atual e de um roteiro que pelo menos entregue uma bobagem mais afiada? Afinal, patos falantes nunca são demais, especialmente os que lutam quack-fu!

Howard, o Super-Herói (Howard the Duck, EUA – 1986)
Direção: Willard Huyck
Roteiro: Willard Huyck, Gloria Katz (baseado em personagem criado por Steve Gerber e Val Mayerik)
Elenco: Ed Gale e Jordan Prentice (performers da roupa), Chip Zien (voz de Howard), Lea Thompson, Tim Robbins, Jeffrey Jones, David Paymer, Paul Guilfoyle, Liz Sagal, Dominique Davalos, Holly Robinson, Tommy Swerdlow, Richard Edson, Miles Chapin, Paul Comi, Richard McGonagle, Virginia Capers, Miguel Sandoval, William Hall, Richard Kiley (voz), Brian Steele
Elenco (marionetistas): Tim Rose, Steve Sleap, Peter Baird, Mary Wells, Lisa Sturz
Duração: 110 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.