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Crítica | Howard, o Super-Herói

por Ritter Fan
741 views (a partir de agosto de 2020)

Não faz o menor sentido um filme de Howard, o Pato (eu me recuso a usar o subtítulo idiota da versão nacional) ter sido produzido em 1986 pela Lucasfilm. Um pato antropomorfizado dos quadrinhos que era desconhecido mesmo naquela época exigiria esforços muito convincentes em termos de efeitos práticos e digitais, além de um roteiro que fosse mais do que apenas uma bobagem qualquer costurada como algo que elevasse interesse para além do inusitado que é um pato falante praticante de quack-fu ser o protagonista. Só que a conjunção astral para lá de estranha determinou que esse seria o primeiro longa cinematográfico de um personagem da Marvel Comics depois do serial do Capitão América de nada menos do que 42 anos antes.

Projeto de estimação de Willard Huyck e Gloria Katz, colegas de faculdade de George Lucas que viriam a co-escrever o clássico Loucuras de Verão, importantíssima obra que daria visibilidade à produtora de São Francisco, permitindo, poucos anos depois, que a História do Cinema fosse mudada para a sempre com Guerra nas Estrelas, o longa acabou ganhando um orçamento até razoavelmente polpudo de 37 milhões de dólares de uma Universal Studios “inocente” que não queria deixar passar um projeto assinado pela revolucionária produtora. E olha que, inicialmente, a ideia era fazer uma animação, o que faria muito mais sentido para a tecnologia da época, mas a Lucasfilm tinha uma obrigação contratual oriunda da licença obtida, de colocar na lata um filme live-action, ou seja, com atores reais e, novamente, Lucas fez história, só que não da maneira que intencionava.

Normalmente considerada como uma das piores produções de todos os tempos, o problema de Howard, o Pato não está na sua premissa, no pato por vezes animatrônico, outras vezes uma “roupa” e outras ainda uma fusão das duas coisas e nem no fato de que a criação enlouquecida de Steve Gerber e Val Mayerick foi completamente deturpada, mas sim no roteiro idiotizante de Huyck e Katz que transporta o pato titular de seu planeta – igual à Terra em todos os aspectos, mas com a ave tendo sido a epítome da evolução – para cá, fazendo-o esbarrar na roqueira Beverly Switzler (Lea Thompson, que havia ganhado notoriedade com De Volta para o Futuro), com quem estabelece uma relação romântica(!!!), e com o  zelador que acha que é cientista Phil Blumburtt (Tim Robbins, em seu primeiro papel de destaque, provando a resiliência do ator) em uma trama que envolve criaturas demoníacas extradimensionais que querem dominar o planeta resumidas a uma possessão do Dr. Walter Jenning (Jeffrey Jones, em um papel razoavelmente parecido ao seu diretor da escola em Curtindo a Vida Adoidado, do mesmo ano). Ou seja, o bom e velho padrão de aventuras sci-fi infanto-juvenis oitentistas.

Mas mesmo essa bobagem simples e rasteira é mal desenvolvida e executada. Howard (ótimo trabalho de voz de Chip Zien) é o único destaque da fita, já que é realmente inusitado ver um pato com mais atitude e apetite sexual que as aves mais conhecidas da animação juntas (Pato Donald e Patolino, claro) quase chegando às vias de fato com Beverly, cuja direção de Huyck estranhamente faz questão de sexualizar ao máximo. Mas a novidade do primeiro terço do filme logo desaparece e o que se segue é genérico ao limite, com perseguições intermináveis de carro, ultraleve (essa então parece durar três horas) e um embate contra o grande vilão que, apesar de ter lá seu valor em termos de efeitos especiais, é anticlimático, demorado e resolvido facilmente demais, sem nenhum pingo de cuidado para sequer criar um momentinho sequer de verdadeira tensão.

Não é, porém, o fim do mundo e nem de longe “a pior produção de todos os tempos”, ainda que seja provavelmente a pior de 1986. Howard, o Pato funciona na apresentação do protagonista e na forma como o personagem é transposto para as telonas, ou seja, criando, propositalmente, um enorme “vale da estranheza” aviário que, ao contrário, aproxima o espectador pela pura bizarrice da coisa. Até mesmo a pegada risqué de zoofilia levanta sobrancelhas de curiosidade mórbida, devo confessar, e o filme consegue se segurar, aos trancos e barrancos, por sua meia hora inicial, somente para começar a desfazer-se quando a ameaça monstruosa vinda do espaço sideral entra em cena.

Se a Marvel voltou para os cinemas da pior forma possível e a Lucasfilm provou que tinha mesmo que viver de suas duas grandes propriedades, chega a surpreender que uma nova conjunção astral tenha reunido as duas empresas sob um mesmo teto, facilitando a criação de um universo que acabaria trazendo o pato dos quadrinhos de volta às telonas, ainda que muito discretamente. Quem sabe um dia não teremos Howard protagonizando um novo longa cinematográfico, desta vez beneficiando-se da tecnologia atual e de um roteiro que pelo menos entregue uma bobagem mais afiada? Afinal, patos falantes nunca são demais, especialmente os que lutam quack-fu!

Howard, o Super-Herói (Howard the Duck, EUA – 1986)
Direção: Willard Huyck
Roteiro: Willard Huyck, Gloria Katz (baseado em personagem criado por Steve Gerber e Val Mayerik)
Elenco: Ed Gale e Jordan Prentice (performers da roupa), Chip Zien (voz de Howard), Lea Thompson, Tim Robbins, Jeffrey Jones, David Paymer, Paul Guilfoyle, Liz Sagal, Dominique Davalos, Holly Robinson, Tommy Swerdlow, Richard Edson, Miles Chapin, Paul Comi, Richard McGonagle, Virginia Capers, Miguel Sandoval, William Hall, Richard Kiley (voz), Brian Steele
Elenco (marionetistas): Tim Rose, Steve Sleap, Peter Baird, Mary Wells, Lisa Sturz
Duração: 110 min.

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42 comentários

Luís Gabriel 12 de junho de 2020 - 17:57

Quando eu li há muitos anos sobre esse filme, eu vi dessa relação do pato com a Lea Thompson e foi oq me trouxe a certeza absoluta de nunca assistir isso😂😂perturbador

Responder
planocritico 12 de junho de 2020 - 18:52

Mas essa é a principal razão PARA SE VER O FILME e não o contrário!!!

HHAHHAAHAAHAHAHAHHHAHAHA

Abs,
Ritter.

Responder
Fabio Gomes 4 de junho de 2020 - 09:25

Ritter, no segundo parágrafo: o orçamento era razoavelmente polpudo. “Poupudo” não existe.

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planocritico 4 de junho de 2020 - 13:54

Nossa! Obrigado! É cada erro que passa que vou te contar…

Já corrigi!

Abs,
Ritter.

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Beatriz Lynch 26 de maio de 2020 - 18:29

E o Ritter ataca novamente com suas porcarias kkkkkk queria saber se realmente achavam que era uma boa ideia fazer um filme desse… pato. Longas do titio do Donald que é bom…

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planocritico 26 de maio de 2020 - 18:54

O que eu posso fazer se eu decidi fazer críticas de todos os longas live-action da Marvel que não tínhamos no site? Aí eu passo por esses sofrimentos todos!

Abs,
Ritter.

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SUPRAMATY 26 de maio de 2020 - 11:10

Piores lembranças que tenho da Sessão da Tarde, Howard: O pato, e Super Mario Bros. Não é só por assistir, é sentir raiva por serem filmes escrotos.
Do Howard destaca a cena do caminhão onde sai aquela língua bizarra e em sentido figurado tenta beijar ou estuprar a protagonista.

Já Super Mario Bros, é praticamente enfiarem easter eggs nos cantos para enfatizar que sabiam o que estavam adaptando, optaram pelo caminho contrário para irritar -dá mais nojo saber que tinha storyboard pronto da seqüência (deviam ter cheirado muita cocaína para acharem que fariam)

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planocritico 26 de maio de 2020 - 15:13

A língua do sujeito não tenta beijar ou estuprar a protagonista não! Foi só impressão sua. Ela sai para o bicho se recarregar de energia, usando a entrada do acendedor de cigarros do carro.

Abs,
Ritter.

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JC 25 de maio de 2020 - 18:53

Que blasfêmiaaaa, obviamente 5 estrelas.
Quack!

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planocritico 25 de maio de 2020 - 20:28

Em DuckWorld seriam 5 estrelas!

Abs,
Ritter.

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Beatriz Lynch 26 de maio de 2020 - 18:39

Como eu queria viver em uma “DuckWorld” (ou ao menos em Patopolis).

Responder
planocritico 26 de maio de 2020 - 18:54

Só se eu fosse o Tio Patinhas!

HAHAHAHAHHAHAAHHAHA

Abs,
Ritter.

Responder
Wies e thal 25 de maio de 2020 - 13:10

Vi quando criança e já era ruim. Me lembro de brincar de quack-fu depois do filme. Lixo radioativo

Responder
planocritico 25 de maio de 2020 - 13:10

@Daniludens:disqus , sinto dizer, mas, se você brincou de quack-fu depois do filme, a obra atingiu seu objetivo!

HAHAHAHAHHAHAHAAHHAHAHAHAHA

Abs,
Ritter.

Responder
Lavínia F. Santana 25 de maio de 2020 - 11:13

Q falta faz um cinema aberto ne Ritter? 😂

Responder
planocritico 25 de maio de 2020 - 13:10

Ô se faz!!!

Abs,
Ritter.

Responder
Johnny White 25 de maio de 2020 - 00:09

Uma verdadeira desonra à todos os patos, filme horrível.

Responder
planocritico 25 de maio de 2020 - 00:21

Que patetice!

HAHAHHAAHAHAHHAHAHAHAHAHAAH

Abs,
Ritter.

Responder
Wies e thal 25 de maio de 2020 - 13:10

Uma verdadeira patacoada

Responder
uiu 24 de maio de 2020 - 19:53

Resolvi ir atrás dessa “pérola” depois da cena pós créditos de Guardiões da Galáxia e me arrependi amargamente. Fiquei ainda mais abismado quando minha mãe me contou que foi assistir isso no cinema quando era jovem

Responder
planocritico 25 de maio de 2020 - 00:27

HAHAAHAHAHHHAHAHAHHAAHAHHAHAHHA

Mas vou te contar um segredo: eu e sua mãe temos então em comum a experiência de Howard no cinema!!!

Abs,
Ritter.

Responder
Michael 24 de maio de 2020 - 14:20

Não conheço muito do Howard, admito, mas acho que teria sido melhor um filme estilo cilada para roger rabbit com um Howard 2D. E acho engraçado que de tantos personagens da Marvel comics e com os recursos da lucasfilm e universal, eles escolheram logo esse personagem pra um live action.

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planocritico 24 de maio de 2020 - 14:40

Eu particularmente gosto de personagens animatrônicos ou em fantasias como essa (e dos Ewoks, por exemplo), pelo que não tenho problema com isso. Mas o filme em si é infelizmente bem fraco. Sobre como escolheram logo essa propriedade da Marvel, isso foi coisa dos roteiristas, um projeto de amor deles…

Abs,
Ritter.

Responder
Michael 24 de maio de 2020 - 15:07

Interessante, uma pena que o roteiro não deu certo 😕

Responder
Beatriz Lynch 26 de maio de 2020 - 18:39

Vc gosta dos Ewoks Ritter? Mas Ewok bom é Ewok morto, e tenho dito xD

Responder
planocritico 26 de maio de 2020 - 18:54

Dentro do contexto de O Retorno de Jedi, sim, gosto.

Abs,
Ritter.

Responder
Bernardo Barroso Neto 24 de maio de 2020 - 09:39

Um clássico da sessão da tarde. Via quando era criança, mas é muito tosco. kkkkk

Responder
planocritico 24 de maio de 2020 - 16:18

Uma patacoada!

Abs,
Ritter.

Responder
Diário de Rorschach 24 de maio de 2020 - 09:33

Vou procurar assistir esse filme, tem tempos que tenho vontade de ver se é essa tranqueira mesmo. Vi que tem no Prime Video, quem sabe eu consiga me divertir com algo completamente imbecil.

Responder
planocritico 24 de maio de 2020 - 16:18

Nesse espírito, você vai se divertir sim!

Abs,
Ritter.

Responder
AncientKnight 9 de junho de 2020 - 16:46

Cara, eu vi esse filme no cinema quando criança. Consegui me divertir… mas talvez eu não fosse muito exigente. 🙁

Responder
planocritico 9 de junho de 2020 - 18:25

Diversão não tem muita relação com qualidade!

Abs,
Ritter.

Responder
AncientKnight 9 de junho de 2020 - 23:46

Kkkk Ok, mas quando se passa a ser mais exigente, ou mais chato (meu caso os dois), tem relação sim. 🙂

Responder
planocritico 9 de junho de 2020 - 23:59

Depende. Diversão tem ligação mais direta com estado de espírito no momento em que se assiste algo. Claro que amadurecer e tornar-se mais exigente vai reduzindo o que é divertido, mas a troca é bacana!

Abs,
Ritter.

Robson A. 24 de maio de 2020 - 04:38

Meus sentimentos pelo filme são exatamente os mesmo. Estava gostando do começo até a parte que o pato começa a SE pegar c a roqueira. Depois ficou muito Chato. Único destaque after seriam os efeitos especiais

Responder
planocritico 24 de maio de 2020 - 16:18

Pois é. Dava para ter ficado bacana até!

Abs,
Ritter.

Responder
Jean Clemente 24 de maio de 2020 - 01:58

Depois de ler essa crítica do Howard, o Pato (também me recuso a usar o subtítulo nacional), fiquei pensando que seria legal ver uma lista como a que fizeram ranqueando todos os filmes da DC. Sei que isso leva tempo e dá trabalho, mas acho que seria algo interessante.

Responder
planocritico 24 de maio de 2020 - 02:31

Esse é o projeto. Mas, antes, eu farei como fiz no caso da DC e publicarei as críticas de todos os longas live-action da Marvel que não temos (uma por semana como venho fazendo há sete semanas, sempre no domingo). Faltam algumas ainda.

Abs,
Ritter.

Responder
Jean Clemente 24 de maio de 2020 - 20:17

Ansioso por isso. Seguirá os mesmos critérios da outra lista: filmes lançados só pra cinema, versões estendidas/do diretor separadas, etc?

Responder
planocritico 25 de maio de 2020 - 00:27

Provavelmente farei nos mesmos moldes da lista da DC para, depois, fazer a MEGA-LISTA ranqueando DC e Marvel, que tal?

Abs,
Ritter.

Responder
Fabio Gomes 4 de junho de 2020 - 09:30

MEGA-LISTA:
polêmica
à vista

planocritico 4 de junho de 2020 - 13:54

Exato! He, he, he…

Abs,
Ritter.

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