Crítica | It: A Coisa – Trilha Sonora Original

It: A Coisa é um filme visualmente marcante. A história do palhaço em si já é, ainda mais quando temos como referência realizada nos anos 1990, filme razoável enquanto “cinema”, mas com um personagem relativamente assustador. Na versão contemporânea, dividida em duas partes, o responsável pela trilha sonora é Benjamin Wallfisch, músico com a responsabilidade de tornar a condução sonora da produção uma experiência minimamente memorável. Os resultados são bons, mesmo que na zona do horror, nunca mais tenha surgido um “John Carpenter da vida”.

Logo depois do trabalho em Annabelle 2 : A Criação do Mal, o britânico Wallfisch mergulhou em outro universo de horror, dessa vez na história do grupo de jovens aterrorizados por Pennywise, figura que nomeia o filme e o livro, oriundos do universo de Stephen King. Entidade que aparece a cada 27 anos, o palhaço está presente na costura dos tempos intercalados pelo escritor na versão literária, formato que em sua tradução intersemiótica, foi transformado em dois filmes.

Por meio de suas 27 faixas, versão padrão, Wallfisch entrega um trabalho inspirado e repleto de momentos de intensidade. Compõem o álbum: Every 27 Years, Paper Boat, Georgie, Meet Pennywise, Derry, River Chase, Egg Boy, Beverly, Come Join The Clown, Eds, You’ll Float Too, Shape Shifter, Hockstetter Attack, Haircut, Derry History, January Embers, Saving Mike, This Is Not A Dream, Slideshow, Georgie’s Theme, He Didn’t Stutter Once, Neibolt Street, Time To Float, It’s What It Wants, You’ll Die If You Try, Return To Neibolt, Into The Well, Pennywise’s Tower e Deadlights.

A trilha começa com Every 27 Years, uma introdução o tema de Pennywise, personagem interpretado por Leonardo Campos. Uma das escolhas mais acertadas é a inclusão de uma espécie de coro infantil, mesclado com o arranjo ferrenho da composição, numa mescla de inocência e horror que nos faz mergulhar num universo de sustos e horror. O que dizer de George Meet Pennywise? O seu final é icônico, com a presença da voz de uma criança a pedir ajuda. Por meio da mixagem do material, ficamos entre gritos e mensagens mais amenas, mas trabalhadas com distorções que nos impede de entender exatamente o que é dito.

É a proposta da trilha, inquietar e transmitir algo que não seja codificado de maneira tão óbvia. Com a sonoridade a explanar mensagem em forma de subtexto, tal como Harry Manfredini fez em Sexta-Feira 13, com a frase “kill her”, It também segue o mesmo estilo, salvaguardadas as suas devidas proporções comparativas, afinal, são trabalhos extremamente diferentes. Acompanhadas de efeitos de sintetizadores, buzinas berrantes e inesperadas, Benjamin Wallfisch mescla as vozes inquietantes de seu coro, com o tema de Pennywise indo e voltando constantemente ao longo das demais composições, mesmo que de maneira sutil em algumas passagens, tal como o tema de George, também constante, haja vista o impacto do seu desaparecimento.

Há alguns trechos com toques que lembram uma valsa tranquila, noutros uma harpa vibrante. Gaita de vidro, guitarra elétrica e flauta complementam os instrumentos que tornam a trilha um trabalho bem conduzido na seara das trilhas de filmes de terror contemporâneos. Da gaita de vidro, percebemos a potencialidade do som de taças semiesféricas friccionadas, o que promove a criação de uma escala diatônica. O som dos arcos da harpa, uma das manifestações sonoras mais antigas da história da humanidade, promove por meio da sua caixa de ressonância os sons dúbios que trazem doçura para uma composição vinculada ao medo e pavor.

Ademais, It: A Coisa – Trilha Sonora Original é um trabalho bem conduzido. O compositor Benjamin Wallfisch, responsável por assinar mais de 60 trabalhos, trouxe a sua formação clássica (piano e regente) para o campo de um filme de terror muito popular, material que pedia uma criação cuidadosa e fora de um lugar tão comum. E assim ele fez. Ostinatos pontuam bem a temática psicológica e física do terror, o que torna a experiência auditiva da trajetória de Pennywise e dos jovens aterrorizados por sua presença um conjunto de faixas memoráveis.

It, A Coisa (Music from the Motion Picture)
Compositor:
Benjamin Wallfisch
Gravadora: Water Tower Music
Ano: 2017
Estilo: textura percussiva

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.