Crítica | It: Capítulo Dois (Com Spoilers)

“Você é um palhaço.”

  • O texto é longo, como o filme também, então se prepare. Caso se interessa, leia a crítica sem spoilers clicando aqui.

Há um anseio pela grandiosidade permeando a sequência do “arrasa-quarteirões” It – A Coisa, a segunda adaptação cinematográfica do clássico oitentista escrito por Stephen King. Uma das cenas que encerram o longa referencia justo uma grande franquia de terror do passado, pois apresenta A Hora do Pesadelo 5: O Maior Horror de Freddy como uma das obras exibidas em um cinema de Derry, Maine. Entretanto, se em 1989 o gênero, mesmo em um quinto exemplar de uma marca, continuava com um orçamento pequeno em comparação a demais lançamentos, o retorno do palhaço Pennywise (Bill Skarsgård) contradiz a regra do mercado. Para se ter uma noção, It: Capítulo Dois possui o dobro dos gastos de um outro importante nome do terror desta década, Annabelle: De Volta Para Casa. Claro que o custo, em vista das produções de ação de Hollywood, permanece sendo pequeno, contudo, a quantia, por outro lado, é igualmente representativa de um gênero que, aqui, se enxerga com marcas de épico. E não apenas por conta dos efeitos visuais, presentes em larga escala, mas também em questão de duração, propósitos dramáticos e afins. Ora, soa como se o cineasta Andy Muschietti estivesse concluindo a saga de uma geração – como um Harry Potter com mais sustos, sangue e menos bruxaria infanto-juvenil -, que agora adentra no cenário adulto e vê os paralelos entre suas contrapartes, as moleques e as maduras, despertarem.

Tais relações do presente com o passado são, em um primeiro lugar, viabilizadas por conta de um uso constante de flashbacks. Depois de 27 anos que o Clube dos Otários, composto por crianças excluídas de uma forma ou de outra, venceu a terrível ameaça da Coisa, o grupo é obrigado a se reencontrar por conta do ressurgimento da criatura. No entanto, ninguém parece se lembrar dos eventos traumáticos daquele ano, com exceção de Mike Hanlon (Isaiah Mustafa, como adulto, e Chosen Jacobs, como criança), o único membro da antiga gangue que não saiu de Derry. O roteiro adaptado de Gary Dauberman, porém, inicia, com esse contraponto compreendido pela estrutura narrativa e a premissa de resgate de memórias, uma enorme contradição, e Muschietti não parece estar muito atento a isso. É complicado, na verdade, o espectador acreditar na referida amnésia dos protagonistas, pois o longa se esforça em recordar as memórias do primeiro filme de uma maneira expositiva, sem precisar retrabalhar os traumas passados por meio de uma perspectiva amadurecida. Logo antes do elenco adulto, no caso, ser enfim apresentado, as crianças debutam e introduzem as visões que Beverly (Jessica Chastain, como adulta, e Sophia Lillis, como criança) teve quando em estado catatônico, na obra anterior. E os paralelismos continuam, ao passo que as vidas atuais de cada um dos Otários é – numa diferença aos livros – ignorada quase por completo.

“Uma pirueta…”

O que se pode concretizar do longa-metragem no que tange o envolvimento entre tempos distintos é um apego nostálgico a si mesmo problemático. Assim sendo, Dauberman prova que seu texto tem muitas pontas sem nó, rejeitadas pelo seu olhar, mas não realmente eliminadas. Existe, portanto, um potencial de estudo de personagens que, pelo tamanho da obra, não teria problemas de ser alcançado junto à complexidade pedida. Porém, novamente o passado ganha mais força que o presente, ao passo que relações atuais, como casamentos, são ignoradas para que antigas sejam realçadas. Por exemplo, Beverly é casada com um homem que a violenta domesticamente, contudo, esse não é um ponto que o roteiro se importa em trabalhar. Do contrário, o seu pai repete o papel como uma figura violenta da sua infância, mas isso já estava no filme original. Decerto que o contraponto entre passado e passado é um item importante para a obra – Eddie (James Ransone, como adulto, e Jack Dylan Grazer, como criança) se casa com uma mulher que é interpretada pela atriz que viveu, antes, sua mãe -, porém, o apelo nostálgico é mais relevante que uma conversa de fato verdadeira. Quando, na metade da obra, os amigos se separam para reunir artefatos de seu passado – necessários para o Ritual de Chud, elemento mitológico da franquia explicado por Mike -, várias das incursões aos anos 80 são bem inúteis, redundantes e demoradas.

Os exemplos continuam a comprovar a ineficácia desse segundo capítulo. Richie (Bill Hader, como adulto, e Finn Wolfhard, como criança) confronta um segredo que guarda por toda a vida, ao passo que o seu relacionamento com Eddie ganha uma complexidade a mais inesperada. Mas o roteiro só percebe o potencial nisso quando o amigo de Richie morre, já que o seu flashback revelador envolve um ninguém, e as cenas no presente não sugerem a força dessa amizade. Caminhando por fora: o medo de Bill (James McAvoy, como adulto, e Jaeden Martell, como criança) em repetir o seu passado, quando permitiu que outros morressem, traz consigo um drama já resolvido – a perda de seu irmão -, mas que se renova com a comunicação que Dauberman estabelece entre tempos. O problema na sua participação, porém, reside em um triângulo amoroso pobre. Ben (Jay Ryan, como adulto, e Jeremy Ray Taylor), no caso, até teria um arco competente como o de Bill. O menino gordinho emagreceu, apesar de ainda possuir os mesmos sentimentos não-correspondidos por Bev. Contudo, o ator não convence no papel, e a química entre o seu personagem e Bervely é calcada unicamente na graça do intérprete-mirim de Ben e na ternura inerente à Lillis. Já Chastain, por sua vez, nunca se aproxima de resgatar os sorrisos graciosas da sua contraparte criança. Ou seja, de novo camadas dramáticas são minimizadas por uma exploração inconsistente do passado.

“…duas piruetas”

O que acontece, no final das contas, não é uma conversa entre passado e presente, mas uma dependência dramática que os responsáveis geram por não saberem usufruir de verdade as tantas pontes emocionais possíveis. Pela repetição, o roteiro até mesmo se esquece de uma das boas possibilidades que apresenta, mas, de modo abrupto, corta de vista: relembrar o passado depois de Pennywise e que nós, como espectadores, também não nos recordamos. Quando Mike aponta que o Clube dos Otários teria se distanciado – quiçá por causa da influência negativa da Coisa -, abre-se uma oportunidade que não é aproveitada. Portanto, os flashbacks poderiam apresentar pontos de fato novos, caso acontecessem inteiramente em um futuro não visto na obra anterior. Ora, por que as memórias atuais são válidas de serem recordadas e as antigas não? A cronologia destes segmentos, no entanto, é uma loucura sem coesão, com certos momentos se passando previamente a acontecimentos passados e outros se passando depois. Contudo, não pense que os equívocos começam a surgir apenas no meio da trajetória. Do ponto de partida do enredo, porém, é que essa bagunça já começa, em uma das muitas questões aleatórias do longa que se esvaem. Lá, um prelúdio desnecessário para o que a obra quer realmente discutir em tema e que contém coadjuvantes que não retornam – como o vivido pelo diretor Xavier Dolan -, o antagonista desperta.

Do contrário de uma necessidade dessa cena para a reapresentação de Pennywise, o momento apenas reitera a confusão da obra em decidir a função dos seus elementos. Em It: Capítulo Dois, a noção da cidade como sendo um lugar consumido pela maldade da Coisa não é explorada – até porque o longa se preocupa, como citado, por um âmbito menor, vide a ausência da destruição de Derry no fim, como nos livros. Essa cena, portanto, teria função em meio à exploração de que a retomada da intolerância, para a região, acontece por causa do ressurgimento do antagonista. O que resta, contudo, é uma similaridade ao material-fonte que não serve a propósitos. Ora, por que não usar tais coadjuvantes juntamente ao retorno de Henry Bowers (Teach Grant, como adulto, e Nicholas Hamilton, como criança)? Muschietti, entretanto, não se importa muito com coerência, preferindo a reiteração de cameos que somente engrandecem a obra sem necessariamente a justificar. É interessante que Stephen King esteja presente aqui, mas a sua participação é apenas um aceno ao espectador, redundando a cansada piada de que Bill não escreve bons finais, em alusão ao escritor. Peter Bogdanovich também encontra-se presente, noutra piadinha. Esses traços cômicos da obra, aliás, estão muito presentes, o que diminui um tanto o ar de terror da obra, como na cena em que Beverly retorna a sua casa. O diretor anseia sustos, choros e risos, mesmo vazios.

“Bravo! Bravo!”

Isso, em paralelo, também é sintomático a uma outra coisa, a construção do terror, que Muschietti se esquece para se ater a uma exploração momentânea de seus elementos assustadores, sempre no mesmo esquema de alavancar a tensão visando um simples jumpscare. Os sustos repentinos são usufruídos à torto, perdendo qualquer relevância à narrativa para serem apenas chamativos e cansativos. O roteiro em si, por sinal, já antecipa o andar da carruagem, incluindo sequências sem qualquer necessidade – como o assassinato da menininha embaixo da arquibancada, ou o próprio prelúdio – apenas para os sustos não cessarem. Então, entra em cena um outro ponto do longa, que é a sua aproximação ao gênero de ação, visto que o terror é anestesiado em prol de um choque que vai de encontro aos grandes espetáculos cinematográficos. Um ser gigante tem muito mais espaço. No que se refere à fidelidade, ademais, caberia, dentre as transformações da Coisa, referências a monstros da cultura popular, em contrapartida ao uso e reuso dos mesmos zumbis esqueléticos de sempre. O visual, assim sendo, é tão desgastado quanto o CGI, sem muitas novidades a serem imaginadas pela equipe de criação. O que Muschietti busca, em contrapartida, é o oposto de uma renovação, mas uma exponenciação gratuita de tudo que já tinha sido resolvido anteriormente. Nisso, o clímax se prolonga em demasia, ao passo que a Coisa cresce mais e mais.

Essa ganância da obra por ser o maior nome do gênero em uma década, no entanto, não é por si criminosa. Ao passo que ambições existem, o longa, porém, não passa por um crivo em termos de igualar estas pretensões, ousadas, às reais execuções, bastante atropeladas e, por consequência, vazias. E isso surge logo em um longa com quase três horas, que consegue a proeza de tornar-se, para alguns de modo paradoxal, tão modorrento quanto acelerado. Há, por isso, um investimento nos dramas íntimos dos personagens, ao menos na superfície, que não tem um respaldo no seu coração – como se o grupo estourasse, no auge do confronto derradeiro, não o órgão da criatura, mas o do próprio conjunto. No mais, nem a trilha-sonora, grandiloquente, propõe uma variedade de sentimentos, expressivos e melodramáticos, que morem intrinsecamente a uma construção, mas a momentos oportunistas. É tudo tão exagerado que desmancha-se o poder de virtudes pontuais, em meio a um projeto extenso e perdido em sua magnitude. Por isso que, para tentar alcançar essa vertente dramática elevada ao cubo, a obra termina tendo que se propor a recursos exploratórios desonestos, como a reinserção de cenas no passado que não são parte de um desenvolvimento, mas de um escape emocional seguro. Assim, em vista da quantidade de anormalidades presentes, que criam um circo de horrores, esta sequência não chega perto de ser uma “obra-prima do medo“.

It: Capítulo Dois (It: Chapter Two) – EUA, 2019
Direção: Andy Muschietti
Roteiro: Gary Dauberman (baseado em romance de Stephen King)
Elenco: James McAvoy, Jessica Chastain, Jay Ryan, Bill Hader, Isaiah Mustafa, James Ransone, Andy Bean, Jaeden Martell, Sophia Lillis, Jeremy Ray Taylor, Finn Wolfhard, Chosen Jacobs, Jack Dylan Grazer, Wyatt Oleff, Bill Skarsgård, Jackson Robert Scott, Joan Gregson, Javier Botet, Teach Grant, Nicholas Hamilton, Jess Weixler, Will Beinbrink, Xavier Dolan, Taylor Frey, Jake Weary, Erik Junnola, Connor Smith, Stephen Bogaert, Molly Atkinson, Martha Girvin, Peter Bogdanovich, Stephen King
Duração: 169 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.