Crítica | Love, Death & Robots – 1ª Temporada

Um novo (ou terceiro) Heavy Metal – antologia de animações baseadas e inspiradas na clássica revista homônima – vinha sendo planejado desde 2008, sempre com David Fincher conectado ao projeto. Por diversas razões, porém, a produção foi sendo atrasada e modificada, com a entrada e saída de estúdios, produtores e diretores em um daqueles pesadelos criativos que Hollywood volta e meia produz. Mas Fincher não desistiu e, juntamente com Joshua Donen, Jennifer Miller e Tim Miller, além de distribuição garantida pelo onipresente Netflix, cada vez mais mostrando-se como um caminho viável para produções que de outra forma poderiam não ver a luz do dia, ele conseguiu trazer o conceito de Heavy Metal para o seu rebatizado Love, Death & Robots, uma compilação em formato de antologia de 18 curtas animados feitos por equipes criativas e estúdios de animação diferentes e espalhados pelo mundo.

Ainda que a conexão temática entre eles seja praticamente inexistente, em linhas gerais as três palavras usadas no título – “amor”, “morte” e “robôs” – estão, juntas ou separadamente, presentes em quase todos os curtas, ainda que isso seja uma preocupação menor ou, melhor ainda, irrelevante. O que importa é que, nessa 1ª temporada (que, espero, seja apenas a primeira de muitas, pois as possibilidades são infinitas), o trabalho de curadoria de Fincher, um produtor e diretor de olhar único, mostra-se impressionante do começo ao fim, com episódios normalmente de pegada mais adulta, mas muito diferentes entre si em termos de temática e de técnicas de animação, mas que formam um conjunto harmônico de cair o queixo. Claro que, como toda antologia, há altos e baixos, mas, aqui, os altos são muito altos e os baixos não tão baixos assim.

Não será o objetivo da presente crítica abordar cada um dos 18 exemplares compilados sob o título em questão, pois essa seria uma tarefa hercúlea e, às vezes, redundante. Quem quiser saber o que eu achei de cada episódio em termos de avaliação em estrelas e um brevíssimo comentário, sintam-se livres para clicar no menu logo abaixo, que expandirá a crítica de acordo.

Avaliações relâmpago de cada curta

Aqui vão minhas notas individuais e brevíssimas justificativas para cada curta, na ordem em que eles foram disponibilizados pelo Netflix.

A Vantagem de Sonnie

Animação muito bem renderizada, narrativa pesada e cheia de reviravoltas, mas cheia de clichês e faz esforço demais para criar uma personagem durona.

Os Três Robôs

Simples, mas com animação belíssima e três personagens robóticos muito diferentes entre si, mas extremamente cativantes.

A Testemunha

Frenético, com um mistério muito interessante e um final aberto excelente, mas que exagera artificialmente na nudez para chamar atenção. E não, não sou pudico, mas vocês entenderam meu ponto…

Proteção contra Alienígenas

Fazendeiros com armaduras mecha lutando contra alienígenas em uma versão turbinada e caipira de Aliens? Não tem como não gostar!

Sugador de Almas

Por vezes lembra Castlevania, mas sem a enrolação e sem os diálogos expositivos. Só pancadaria vampiresca com hectalitros de sangue.

Quando o Iogurte Assumiu o Controle

Seis minutos de insanidade láctea com lactobacilos. Ajoelhem-se perante os Iogurtes!

Para Além da Fenda de Áquila

Mistérios no espaço-tempo em uma cutscene de um potencialmente interessante videogame. Sexo, drogas, mas pouco rock ‘n roll, porém.

Boa Caçada

Universo místico steampunk único que começa simples e vai ganhando uma bem-vinda e encantadora complexidade. E uma arte absolutamente incrível.

O Lixão

Divertido curta cômico com um velho nojento e um monstro-lixo surreal. E uma computação gráfica de cair o queixo.

Metamorfos

Outra cutscene de videogame, mas com mais substância e ação – além de gore, muito gore – do que Para Além da Fenda de Áquila.

Ajudinha

Se Gravidade fosse um curta feito para maiores de idade com estômago para ver o que essa astronauta é capaz de fazer para sobreviver no espaço. Dez minutos desesperadores.

Noite de Pescaria

Um respiro lírico muito bonito, mas bastante óbvio e anti-climático.

13, Número da Sorte

Até poderia ser mais uma cutscene de videogame, mas, aqui, a história é 100% auto-contida e consistente, além de sensacionalmente bem contada, sem perder a oportunidade de apresentar um CGI magnífico, com captura de performance de se tirar o chapéu.

Zima Blue

É assim que se faz lirismo, com fortes pitadas asimovianas e um quê de 2001. Perfeito do começo ao fim.

Ponto Cego

Talvez o mais genérico curta da coleção. Ainda muito bonito, mas não me disse nada.

Era do Gelo

Uma premissa muito inovadora e bizarra executada via animação e live-action, mas que não ganha a abordagem e a profundidade que merecia.

Histórias Alternativas

Divertidíssima lição de história alternativa e multiverso que faria inveja a muita história da Marvel e da DC Comics. E, claro, tem Hitler sendo morto sete vezes em sete minutos das maneiras mais bizarras possíveis. Uma hilária e original surpresa.

A Guerra Secreta

Belíssima animação shoot and kill ‘em all que é outra cutscene de videogame. É um pouco apressada e vazia, mas sem dúvida um grande feito.

O que realmente importa, porém, é o feito impossível que a tenacidade de Fincher e que as contribuições de Donen, Jennifer Miller e Tim Miller (que notabilizou-se pela direção do primeiro Deadpool, mas que já havia trabalhado com Fincher na excelente abertura de Millenium – Os Homens que não Amavam as Mulheres, que produziu com seu Blur Studio) alcançaram aqui, com exemplares vibrantes – por vezes até demais – de curtas animados que, em sua grande maioria, poderiam muito bem servir como pontos de partida ou para longas animados ou, em alguns casos, para uma série animada própria. Basta imaginar como seria interessante ver mais da interação entre os sensacionais três robôs de Os Três Robôs, aprender mais sobre a mitologia vampiresca de Sugador de Almas, mergulhar mais a fundo no mundo mitológico-steampunk de Boa Caçada ou acompanhar mais aventuras sanguinolentas do soldado lobisomem em Metamorfos. E olha que esses aí são alguns dos episódios mais, digamos, comuns, por mais fascinantes que possam ser.

Afinal, apesar de muitos dos curtas terem uma estética narrativa e visual de cutscene de videogame, como A Vantagem de Sonnie, Para Além da Fenda de Áquila, A Guerra Secreta, o próprio Metamorfos Proteção contra Alienígenas, e, portanto, propostas mais diretas e lineares do tipo shoot ‘em up, o que não é um demérito, que fique claro, mas sim apenas uma constatação, outros trazem verdadeiro frescor encapsulado ali, apenas no curta em si, inexigindo expansões, como nos casos de 13, Número da Sorte (com Samira Wiley não só fazendo a voz da protagonista, como também servindo de modelo físico para ela), Zima Blue (que coisa linda esse trabalho), Ajudinha (uma versão de 10 minutos e barra pesada de Gravidade, como ficou bem claro para mim).

E, no meio disso tudo, há a “categoria” WTF? com os expoentes certamente sendo A Testemunha, Quando o Iogurte Assumiu o Controle e, claro, Histórias Alternativas. Este último, aliás, levanta tantas possibilidades que ficaria surpreso se ele deixasse de ganhar novos exemplares muito em breve. A questão é que há curtas para todos os gostos. Quer gore? Tem, e muito. Quer sexo? Tem bastante também. Quer lirismo? Tem até em quantidade surpreendente. Quer comédia? Não precisa nem pedir. Quer Hitler morto sete vezes em sete minutos? Pronto, pedido atendido!

No meio disso tudo, há a imensa qualidade dos trabalhos de voz do gigantesco elenco, com apenas Topher Grace e Mary Elizabeth Winstead, no divertido, mas aquém de seu potencial, Era do Gelo, vivendo papeis em carne e osso. São poucos minutos para que o espectador seja capturado e as vozes dos personagens animados, talvez mais do que os personagens em si, precisam nos convencer e nos imergir em cada um daqueles mundos e diria, sem muito medo de errar, que em cada um dos 18 curtas o resultado é o mesmo nesse quesito, ou seja, sucesso absoluto. As técnicas de animação, apesar de variarem muito, também dão conta do recado na maioria das vezes. Particularmente não gosto muito do estilo pseudo-realista de alguns deles, mas essa é uma questão pessoal apenas, pois a qualidade de A Guerra Secreta ou A Vantagem de Sonnie, por exemplo, é inegável e surpreendente, demonstrando o extremo cuidado de cada equipe criativa e, novamente, a condução exemplar do projeto por Fincher e demais produtores.

No final das contas, o saldo de Love, Death & Robots é incrivelmente positivo, com efeito possivelmente viciante para os espectadores. No mínimo, a antologia nos deixará sofrendo pela 2ª temporada (cadê???) e pelas várias séries spin-off que gostaríamos de ver surgir a partir dessa experiência.

P.s.: Só para animar a seção de comentários: se você tivesse que escolher APENAS UM curta para ser transformado em série animada, qual seria?

Love, Death & Robots – 1ª Temporada (Idem, EUA – 15 de março de 2019)
Produção: Joshua Donen, David Fincher, Jennifer Miller, Tim Miller
Direção: Dave Wilson, Victor Maldonado, Alfredo Torres, Alberto Mielgo, Franck Balson, Owen Sullivan, Léon Bérelle, Dominique Boidin, Rémi Kozyra, Maxime Luère, Oliver Thomas, Javier Recio Gracia, Gabriele Pennacchioli, Jon Yeo, Damian Nenow, Jerome Chen, Robert Valley, Vitaliy Shushko, Tim Miller, István Zorkóczy
Roteiro: Philip Gelatt, Alberto Mielgo, Janis Robertson, Vitaliy Shushko
Elenco: Michael Benyaer, Josh Brener, Elly Condron, Henry Douthwaite, Graham Hamilton, Aaron Himelstein, Stefan Kapicic, Neil Kaplan, Maurice LaMarche, Emily O’Brien, Kevin Michael Richardson, Rebecca Riedy, Helen Sadler Helen Sadler, Elaine Tan, Kirk Thornton, Samira Wiley, Mary Elizabeth Winstead, Carlos Alazraqui, Adam Bartley, G.K. Bowes, Alexia Dox, Topher Grace, Dieter Jansen, Madeleine Knight, Yuri Lowenthal, Hayley McLaughlin, Christopher L. Parson, André Sogliuzzo, Ben Sullivan, Fred Tatasciore, Bruce Thomas, Emma Thornett, Daisuke Tsuji, Gary Anthony Williams, Rebecca Banatvala, Jeff Berg, Gary Cole, John DiMaggio, Chris Parnell, Jim Pirri, Nestor Serrano, Jill Talley, Laura Waddell, Time Winters, Gwendoline Yeo, Omid Abtahi, Antonio Alvarez, Brian Bloom, Delroy Brown, Jonathan Cahill, Maddox Henry, James Horan, Stanton Lee, Roger Craig Smith, Courtenay Taylor, Christine Adams, Ike Amadi, Victor Brandt, Chris Cox, Noshir Dalal, Anastasia Foster, Grahame Fox, Sumalee Montano, Tudi Roche, JB Blanc, Hakeem Kae-Kazim, Jeffrey Pierce, Braden Lynch, David Paladino, Jeff Schine, Melissa Sturm
Duração: 6-17 min. (18 episódios no total)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.