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Crítica | Magnatas do Crime

por Luiz Santiago
1975 views (a partir de agosto de 2020)

Ah, mas contém os mesmos ingredientes do diretor desde Jogos, Trapaças e Dois Canos Fumegantes!“, clama choramingando o cinéfilo que está descobrindo agora como é que funciona uma assinatura autoral e recorrente no cinema. Acontece. Um dia, todos nós temos que aprender. Entretanto a afirmação é, no melhor dos sentidos, plenamente verdadeira. Posso até dizer, na mesma linha, que Guy Ritchie faz uma inteligente reciclagem de si mesmo em Magnatas do Crime, e com isso consegue entregar uma comédia ambientada no mundo do crime onde ele está perfeitamente à vontade com todos os aspectos da produção e, por isso mesmo, consegue manipulá-los na medida certa para nos impressionar e divertir.

Produto da Miramax após o desligamento com os Weinstein e compra parcial pelo conglomerado ViacomCBS, Magnatas do Crime não sofre pelos problemas de bastidores e também não é o tipo de filme pretensioso que se apaixona de tal forma pela ideia que se esquece de dar suporte a todos os mistérios, a fim de trabalhá-los no desenvolvimento, chegando ao fim com as deixas aceitáveis e bem contextualizadas para o público pensar no que vem depois. Isso e piscadelas referenciais que tornam a experiência ainda mais gostosa, coisas que vão do poster de O Agente da U.N.C.L.E. (2015) numa cena onde faz todo sentido que ele esteja lá, até o uso de filmes como complemento visual ou narrativo do que está acontecendo no momento, como A Conversação (1974) e A Noite do Terror (John Mackenzie, 1980).

Michael Pearson (Matthew McConaughey) está tentando vender o seu império de produção de maconha no Reino Unido, mas percebe que a tarefa não será fácil, porque o preço que ele pede pelo império é altíssimo e porque existem alguns candidatos a futuros chefões nesta mesma seara. Este é o plot central do roteiro escrito pelo próprio diretor, mas isso não é apresentado de maneira simples e nem necessariamente de forma linear para o público, que talvez precise de um pouquinho de boa vontade para entrar completamente na história quando o flashback inicial surge. A partir daí, porém, estará vidrado, atento e constantemente surpreendido pelas reviravoltas que a trama nos traz.

A linha narrativa é concebida de maneira metalinguística via um roteiro que Fletcher (Hugh Grant) tenta vender para Ray (Charlie Hunnam, que traz a minha atuação favorita do filme), braço direito de Michael Pearson. O roteiro narra as últimas operações da quadrilha para manter os negócios funcionando e o preço do império em alta. É com base nessa ideia bem elaborada de suborno que a realidade e a ficção se unem, inicialmente como um jogo — cabendo aí brincadeiras do próprio diretor com mudança de lente, intensidade de cor, tipo de filme simulado e razão de aspecto — e progressivamente como uma série de eventos do passado que vão se aproximando do momento presente e trazendo as suas consequências e respostas, inclusive para algo que temos logo na cena de abertura e que nos deixa curiosos para saber “como” e “quem” está envolvido naquela situação.

O elenco dá um show de ótimas atuações aqui, mas o trio Matthew McConaughey, Hugh Grant e Charlie Hunnam é imbatível. A personalidade, as ligações deles com outros personagens e a forma como reagem a situações de crise são o combustível perfeito para segurar a história com diversos mistérios, alguns deles se resolvendo para abrir a porta a um outro mistério, que traz consigo uma grande surpresa no final. Vê-se que o filme não perde o passo e que temos uma interessante jornada do início ao fim, embora seja prudente destacar que a agilidade da montagem e o encadeamento dos diversos dramas paralelos (trazendo muitos e ótimos personagens coadjuvantes, acompanhados de uma aplaudível trilha sonora) se deem melhor a partir do momento que o espectador entende a concepção do diretor para o personagem de Hugh Grant — e já imagino que por conta dessa costura narrativa alguns terão maior dificuldade de gostar ou de se conectar com o filme.

Reclamações puristas a respeito da autoindulgência de Guy Ritchie (voltar ao início do primeiro parágrafo) entram naquele tipo de lista que entendemos trabalhar com fatos, mas que por trazerem à tona uma prática cinematográfica encontrada em todo cineasta com uma assinatura reconhecível e recorrente, acaba tornando o argumento contraditório ou hipócrita. O olhar do diretor para a sua própria obra serve ao argumento de Magnatas do Crime como elemento central do jogo, expondo peças de diversão que tornam a comédia de máfia distinta do que vemos frequentemente no mercado, e algumas escolhas que mostram o diretor procurando renovar sua maneira de contar (e especialmente de revelar) um grande mistério.

Magnatas do Crime (The Gentlemen) — EUA, 2019
Direção: Guy Ritchie
Roteiro: Guy Ritchie (baseado em história co-escrita por Ivan Atkinson e Marn Davies)
Elenco: Matthew McConaughey, Charlie Hunnam, Michelle Dockery, Jeremy Strong, Lyne Renee, Colin Farrell, Henry Golding, Tom Wu, Chidi Ajufo, Hugh Grant, Simon R. Barker, Eddie Marsan, Jason Wong, John Dagleish, Jordan Long
Duração: 113 min.

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35 comentários

WILLIAN ARRUDA VIEIRA 3 de janeiro de 2021 - 16:57

Uma pergunta , como os meninos do treinador sabia que ele seria pego pelos russos ?

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Thiago Savassi 28 de abril de 2020 - 10:58

Difícil não gostar para quem acha que Jogos e Trapaças e Snatch estão entre os melhores. A fórmula Guy Ritchie de ação + humor negro britânico é muito consistente e permite uma série de variações. Elenco impecável com destaque para o Charlie Hunnan, muito bem aqui.
As referências realmente foram muito boas. Fiquei pensando o tanto que seria divertido se o Jason Statham aparecesse em uma ponta qualquer do filme.

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Luiz Santiago 🌮😈🐂½ 28 de abril de 2020 - 11:28

Seria realmente divertido ter uma ponta dele aqui.

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André Mangussi 19 de abril de 2020 - 23:47

Que filmaço!! E qual seria o problema do cara continuar fazendo filmes “no estilo Guy ritchie”? Ele domina essa arte com maestria!! Confesso que estava sentindo falta do GR oldschool, desde os antigos snatch, jogos e trapaças, rocknrolland e até revólver (rss).

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Luiz Santiago 🌮😈🐂½ 20 de abril de 2020 - 05:04

Se a pergunta da primeira linha não foi retórica, releia o primeiro parágrafo da crítica. Se foi, é nóis.

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Here's Johnny 16 de abril de 2020 - 15:12

Seria Guy Ritchie o melhor diretor de filmes do Guy Ritchie que existe?

Fica a dúvida.

Mas falando sério, eu fui ver o filme exatamente depois que li essa crítica e não me arrependi nem um pouco, excelente filme, obrigado.

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Luiz Santiago 🌮😈🐂½ 16 de abril de 2020 - 15:41

É nóis! 😀

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Junito Hartley 4 de abril de 2020 - 13:08

No começo tava meio chato o filme, mas quando começa o flashback como vc disse o filme prende e vai ate o final em alto nivel, filme de mafia muito top e diferente do normal, gostei bastante das atuações dos personagens do Hugh Grant e do Charlie Hunnam, o mesmo nao posso dizer da personagem da Coco Sumner, mesmo tendo so um ponta no filme parece que so tem uma expressão facial seja no filme ou na vida real.

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Luiz Santiago 🌮😈🐂½ 4 de abril de 2020 - 15:28

Coco Sumner combina totalmente com aquele meme das várias expressões emocionais representadas por uma única face. Kristen Stewart que se cuide! HAUAHUAHAUHAUAHUAHAUAHUAHAUHAUHA

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Cleison Miguel 2 de abril de 2020 - 18:54

Depois de ver a crítica, assisti o filme ontem, acho que os primeiros 30 minutos são mais difíceis (muitos personagens, conversa confusa), mas depois que o contexto fica claro é um excelente filme. Há muitos anos vi Jogos, Trapaças e dois canos fumegantes, a estrutura lembra bastante, mas nada que desabone. Snatch também era na mesma linha e um ótimo filme. Não fui achei Rock’n’Rolla aquelas coisas (só bonzinhizho) e não assiti UNCLE ou Rei Arthur (que pelo trailer já sabia ser roubada de ruim), mas no geral a filmografia do Guy Ritchie é muito acima da média.

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Luiz Santiago 🌮😈🐂½ 2 de abril de 2020 - 19:12

O cara é bom. O tipo de abordagem sacana e constantemente ousada que ele faz desse ambiente gera histórias incríveis. E aqui ele está muitíssimo bem em seu próprio elemento.

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Felipe Augusto 31 de março de 2020 - 14:45

Putz como nos dias de hj isso passou despercebido pela minha pessoa? Não ouvi nem falar, nem sabia da existência kkkkk q loucura. Já tô louco pra ver, ainda mais Guy Ritchie voltando à velha forma de JT2CF filme sensacional q eu adoro.

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Luiz Santiago 🌮😈🐂½ 31 de março de 2020 - 14:45

Vá na fé! Saiu em streaming, então é de fácil acesso agora em tempos de quarentena.

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JC 1 de abril de 2020 - 12:28

Eu também não sabia…em qual Streaming é?
Eu gosto pacaralho de Jogos Trapaças, depois ele deu uma caída…fiquei curioso com esse, realmente nem tinha ouvido falar.

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Luiz Santiago 🌮😈🐂½ 1 de abril de 2020 - 14:22

Ixe, agora já tá em vários. Dá uma caçada!

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Thiago Jadão Pous 4 de maio de 2020 - 16:47

Vou assistir esses dias. Tem no cinema HD.

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Luiz Santiago 🌮😈🐂½ 4 de maio de 2020 - 16:48

Depois diga o que achou!

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Pedro Hennrique 31 de março de 2020 - 07:55

Genial, Guy Ritchie de volta a boa forma, me fez relembrar tanto o “Jogos, Trapaças e Dois Canos Fumegantes!“ como “Snatch” ( o melhor dele na minha opinião). Que venham mais filmes dele nessa pegada. Charlie Hunnam (Jax Teller pra sempre, não tem jeito kkkk) está muito bem mesmo, assim como os outros atores.
Uma boa surpresa pro cinema em 2020.

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Luiz Santiago 🌮😈🐂½ 31 de março de 2020 - 14:36

Filme divertido demais, com um roteiro intenso e elenco fantástico. É mesmo muito bem ver Guy Ritchie de volta ao que ele faz de melhor.

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FabioRT 28 de março de 2020 - 19:44

Que bom que se recuperou. Ele andou dirigindo filmes fracos.

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Luiz Santiago 🌮😈🐂½ 28 de março de 2020 - 22:50

Espero que goste desse!

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JGPRIME25 28 de março de 2020 - 15:48

Já é uma das minhas maiores surpresas do ano.

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Luiz Santiago 🌮😈🐂½ 28 de março de 2020 - 16:03

Foi uma surpresa pra mim também. Eu não esperava que iria gostar tanto.

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Matheus Luis 28 de março de 2020 - 13:24

Como é bom ver Guy Ritchie retornar às origens. Ainda mais depois de Aladdin, que não se parecia em nada com um filme dele, além de ser ruim. Espero que ele siga fazendo esses filmes de crime com assinatura pois dá gosto de ver.

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Luiz Santiago 🌮😈🐂½ 28 de março de 2020 - 14:39

É onde ele se sai melhor, né? Essa comédia mafiosa com cara e abordagem dos anos 90. Sensacional!

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Matheus Felipe 28 de março de 2020 - 11:23

Vontade de ver esse filme… Uma pergunta, como vcs fazem críticas de cinema com o cinema fechado em tudo que é canto do brasil e no mundo?

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Luiz Santiago 🌮😈🐂½ 28 de março de 2020 - 14:39

Streaming.

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planocritico 28 de março de 2020 - 14:59

Alguns filmes foram retirados da lista de estreias do cinema em razão justamente do fechamento de tudo e só estrearão em vídeo sob demanda ou streaming. Esse é um dos casos. A estreia virtual dele se deu dia 24/03/2020. É assim que estamos assistindo.

Abs,
Ritter.

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Pedro Enzo 29 de março de 2020 - 15:45

Vocês sabem se mesmo após sair em streaming o filme ainda vai passar no cinema ?

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Luiz Santiago 🌮😈🐂½ 29 de março de 2020 - 16:24

Não sei dizer.

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planocritico 29 de março de 2020 - 18:47

Meu chute: nos EUA não, a não ser em circuito limitadíssimo.

No Brasil: possível, mas improvável, mas só se a pandemia não se estender. Mais fácil soltarem direto na Net/Claro ou algum outro serviço de VOD.

Abs,
Ritter.

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Pedro Enzo 29 de março de 2020 - 19:52

Mas o prejuízo para os estúdios não seria muito grande ? Pois, dificilmente o filme se pagaria, não ?

planocritico 29 de março de 2020 - 21:21

Em princípio, a resposta simples é sim. A complexa é que existem diversos mecanismos que garantem pelo menos uma redução drástica do prejuízo, especialmente de filmes baratos como esse (custou 22 milhões de dólares “apenas”). Um desses mecanismos é a pré-venda dos direitos de transmissão pelas TV e canais de VOD, outro é o uso de merchandising dentro do filme e assim por diante.

Mas esse filme ainda chegou a ter lançamento no cinema nos EUA e na Inglaterra com uma boa bilheteria até. O problema mesmo são filmes como O Caminho de Volta, Emma e The Hunt que realmente foram direto para VOD (por um preço bem mais alto que o normal – 20 dólares), sem sequer passar nos cinemas de qualquer país do mundo.

A industria do entretenimento mundial vai tomar um baque GIGANTE com a pandemia. Vai ter estúdio e empresas quebrando, filmes e séries sendo largados na metade, empresas maiores comprando outras que perderão valor na bolsa e o cenário mundial mudará bastante… Quem viver, verá!

Abs,
Ritter.

O Homem do QI200 28 de março de 2020 - 08:05

Aí sim, tava ansioso pra assistir esse filme, vou com confiança agora.

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Luiz Santiago 🌮😈🐂½ 28 de março de 2020 - 14:28

Divirta-se!

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