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Crítica | Negócios de Família (1989)

por Luiz Santiago
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Podemos dizer que o conflito geracional sempre esteve presente na carreira de Sidney Lumet. Nós o vemos pela primeira vez já em sua estreia nos cinemas, com 12 Homens e uma Sentença, e tal abordagem para complicadas e intensas relações familiares permaneceria até o seu último filme, Antes que o Diabo Saiba que Você Está Morto. Ao retratar esse tipo de relação, o diretor sempre optou por contrastes de emoções, muitas vezes ligados a diferentes formas de ver o mundo. O curioso é que os personagens mais durões em seus filmes tendem a passar por algum tipo de grande provação para que, ao fim de tudo, enxerguem com alguma clareza todo o contexto em que estava envolvido ou assuma seus erros. Aqui em Negócios de Família, por exemplo, lidamos com três núcleos onde isso acontece.

SPOILERS!

Três homens de diferentes gerações planejam um roubo. A ideia vem do mais jovem do grupo, Adam (Matthew Broderick), que tem um excelente relacionamento com o avô Jessie (Sean Connery), o único que recebe muitíssimo bem a ideia de um golpe aparentemente muito fácil e que promete uma grande soma em dinheiro para os participantes. Já o pai de Adam, Vito (Dustin Hoffman), não vê isso com bons olhos e fala o tempo inteiro em manter o jovem fora de qualquer esquema ilegal que ele próprio e seu pai Jessie tiveram no passado.

O roteiro de Vincent Patrick, baseado em seu próprio livro, fundamenta de modo muito interessante as características de cada personagem, com suas lutas de vida e demônios pessoais em evidência, dando brechas para que se colha, no último ato, o destino de cada um deles. E é essa escolha que torna o final do filme uma verdadeira elegia. Lumet, por sua vez, faz do encontro entre esses indivíduos uma reunião de estranhezas, com cada um dos pais sendo consideravelmente distantes de seus filhos, algo que o diretor torna muito evidente pelo modo como filma os olhares, a distância entre os corpos e o direcionamento das conversas. E é ainda mais curioso que o plano de roubo ao mesmo tempo aproxime, mas também afaste (cada vez mais) essas três gerações.

Se em O Golpe de John Anderson (1971) vimos o diretor investir bastante na preparação do crime e lidar de maneira mais rápida com as consequências deste, aqui em Negócios de Famílias ele toma o caminho oposto, principalmente porque o drama familiar acaba sendo a parte enraizada às atividades criminosas de cada homem. Desse modo, temos um primeiro momento onde diferentes núcleos familiares se apresentam, assim como diferentes problemas pessoais e de relacionamento se tornam evidentes. Logo em seguida, a ideia de Adam se alça como o problema da fita, e os dois principais lados da briga se exaltam para fazer o que acham melhor para o jovem: Jessie crê que respeitar o neto é seguir com o roubo, enquanto Vito crê que o filho não deve seguir esse rumo, não deve repetir os erros das duas gerações anteriores.

O jogo psicológico ganha maior peso do meio para o final do longa, até porque o cineasta também nos prepara para enxergar as relações numa outra esfera, para além dos “parceiros no crime”. O velório de um velho conhecido de Jessie e Vito é o principal exemplo disso, sendo a âncora narrativa e simbólica que ajuda a fechar o filme com uma nota melancólica mas também de homenagem e reconhecimento do ciclo da vida, muito embora o próprio enredo ateste que existem muitas formas de se atravessar esse ciclo e que algumas pessoas escolhem o caminho mais perigoso, com as piores consequências.

O conflito de gerações aqui em Negócios de Família é construído a partir de uma visão quase hierárquica, com o mais velho querendo que sua forma de ver as coisas e as suas ordens sejam imediatamente acatadas. Mesmo quando a tensão toma conta da história, na interessante cena em que o roubo de fato acontece (e nota positiva para o uso da trilha sonora aqui, elevando o suspense), temos essa variação de “poder da palavra final“, justamente o poder que empurra os personagens para caminhos distintos, um julgando duramente as ações do outro, sendo que todos estavam errados. Essa mesma dinâmica se enraíza na esfera social, com a presença da justiça, e o pêndulo volta para o mesmo tipo de conflito familiar íntimo que tivemos no começo do filme. Aqui, Lumet fortalece a ideia de ciclo, mas quebra algumas “maldições” e, apesar da tristeza vinda pela perda, exibe um caloroso tom de esperança e também de beleza no encerramento da trama.

Negócios de Família (Family Business) — EUA, 1989
Direção: Sidney Lumet
Roteiro: Vincent Patrick (baseado em seu próprio livro)
Elenco: Sean Connery, Dustin Hoffman, Matthew Broderick, Rosanna DeSoto, Janet Carroll, Victoria Jackson, Bill McCutcheon, Deborah Rush, Marilyn Cooper, Salem Ludwig, Rex Everhart, James Tolkan, Marilyn Sokol, Thomas A. Carlin, Tony DiBenedetto
Duração: 110 min.

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