Crítica | Nick Fury: Agente da S.H.I.E.L.D.

Revendo o telefilme Nick Fury: Agente da S.H.I.E.L.D., que foi concebido para ser o piloto de uma série de TV que, ainda bem, nunca foi adiante, a primeira coisa que me passou pela cabeça é como teria sido interessante que o personagem tivesse ganhado seu próprio filme solo no Universo Cinematográfico Marvel, com Samuel L. Jackson no protagonismo, claro. Há um bom material de espionagem que merecia um tratamento um pouco melhor do que esse que a Fox e a Marvel tentaram emplacar na televisão ao final dos anos 90, com David Hasselhoff como o personagem-título.

Não que o longa seja uma desgraça total como foi Geração X ou, antes disso, os filmes do Capitão América de 1979, mas a trama boba somada a atuações que são hilárias de ruins, além de uma duração avantajada demais que poderia muito facilmente ter sido cortada pela metade, resultam em uma produção descartável e cansativa que não chega nem perto de usar o potencial de Nick Fury na telinha para além de um canastrão caolho e mascador de charutos que atira antes de fazer perguntas enquanto solta frases de efeito. Pois é isso que o personagem de Hasselhoff é, ou seja, tudo o que o ator pode oferecer considerando-se seu currículo dramatúrgico “inesquecível” como Mitch Buchannon em Baywatch e, antes ainda, Michael Knight em A Super Máquina.

Mas o mais triste é que Hasselhoff nem mesmo consegue ser o pior ator do elenco do longa de Rod Hardy, pois esse troféu indubitavelmente vai para Sandra Hess como Andrea von Strucker, líder da Hidra que rouba o corpo congelado de seu pai, o Barão Wolfgang von Strucker (Campbell Lane), para extrair um vírus mortal que ela usa para extorquir dinheiro do governo americano. A atriz suíça está pavorosa no papel da vilã histriônica que só sabe rir como uma louca varrida, algo que nem deve ser culpa só dela, justiça seja feita, já que o roteiro de David S. Goyer não cria nada que não seja uma sucessão de clichês mal feitos do gênero.

O bom é que nem tudo se perde no lado do elenco, já que Garry ChalkRon Canada se seguram bem em seus respectivos papeis de Timothy Aloysius “Dum-Dum” Dugan e Gabriel “Gabe” Jones, personagens retirados diretamente dos quadrinhos clássicos do Sargento Fury e seu Comando Selvagem. Mas os dois são a “ilha de excelência” em um mar de atuações que não conseguem passar de suportáveis, como a própria super-canastrice de Hasselhoff (que aceitamos porque ele é o The Hoff, claro!) e os olhares de “mulher durona” que Lisa Rinna faz para viver sua Condessa Valentina “Val” Allegra de Fontaine, personagem também profundamente conectada com o Fury dos quadrinhos, criada na ótima fase de Jim Steranko à frente do herói.

Com efeitos especiais básicos, mas que dão conta do recado e uma narrativa típica de televisão que passa a exata impressão que o longa é, na verdade, um episódio longo demais de série de TV – e isso não é um elogio, que fique claro – a estreia de Nick Fury no audiovisual é até marginalmente divertida pelo amontoado de clichês e personagens recortados em cartolina que desfilam à nossa frente, mas o personagem definitivamente merecia mais do que apenas isso. A versão afro-americana badass que Jackson encarnaria a partir de 2008 é infinitamente superior mesmo com tempo de tela limitadíssimo.

Nick Fury: Agente da S.H.I.E.L.D. (Nick Fury: Agent of S.H.I.E.L.D., EUA – 1998)
Direção: Rod Hardy
Roteiro: David S. Goyer (como David Goyer)
Elenco: David Hasselhoff, Lisa Rinna, Sandra Hess, Neil Roberts, Garry Chalk, Tracy Waterhouse, Tom McBeath, Ron Canada, Adrian G. Griffiths, Peter Haworth, Campbell Lane
Duração: 120 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.