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Crítica | O Destemido Senhor da Guerra

por Ritter Fan
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James Carabatsos, veterano da Guerra do Vietnã que ingressou em Hollywood em 1977 com o roteiro de Heróis Sem Causa, construiu O Destemido Senhor da Guerra (esse título em português é tão ruim que é bom) ao redor de um único fato que aconteceu durante a Invasão de Granada pelos EUA, em 1983: o inusitado uso de telefone e cartão de crédito por uma particularmente safa unidade americana para pedir apoio aéreo. O que saiu dessa ideia foi uma comédia tendo Clint Eastwood não só na direção, mas também como um sargento dos Marines próximo da aposentadoria compulsória que, ao voltar para seu batalhão anterior, precisa dar um jeito em um grupo absurdamente indisciplinado de soldados.

Em linhas gerais, o filme parece a mistura da primeira metade de Nascido para Matar (do ano posterior) com a estrutura narrativa de Top Gun (do mesmo ano), com dois terços do filme dedicado ao treinamento e o restante à já mencionada Invasão de Granada. Mas, diferente dos dois exemplos utilizados, o longa de Eastwood é, essencialmente, uma comédia, ainda que não do tipo besteirol ou que almeje arrancar gargalhadas, mas mesmo assim uma comédia de tom satírico que se aproveita muito bem da imagem de duração que o diretor e ator cultivou ao longo das décadas anteriores, algo que o exército americano parece não ter entendido, por ter se recusado a ajudar a produção com locações e os Marines, que acabaram ajudando (e que levou à alteração do roteiro para transformar o protagonista em um Marine), depois rechaçaram o resultado final em razão do uso de profanidades e da retração estereotipada dos personagens.

Além disso, O Destemido Senhor da Guerra é um dos vários filmes de Eastwood em que ele olha para si mesmo e para sua idade, algo que já havia acontecido em Bronco Billy e ganha um elemento de choque de gerações aqui, com seu condecorado e experiente Sargento Artilheiro Thomas Highway tendo que lidar com superiores bem mais jovens e sem nenhuma experiência de combate. O roteiro logo estabelece esse conflito ao apresentar Highway encarcerado, contando histórias de guerra para jovens impressionados e que ficam mais impressionados ainda quando ele, com facilidade, derruba o valentão da cela que o provoca. E essa abordagem continua com a conexão de Highway, voltando para seu antigo posto, dividindo a tela com Mario Van Peebles como Stitch Jones, roqueiro falastrão e golpista que, logo em seguida, é revelado como sendo um recruta da unidade que Highway teria a missão de treinar.

O lado durão de Highway é abordado por Eastwood de maneira deliberadamente cômica, com a postura rígida e completamente by the book de seu personagem sendo o veículo para momentos descontraídos em que ele basicamente tortura psicológica e fisicamente seus recrutas primeiro revirando suas vidas de cabeça para baixo com um mínimo de disciplina, o que significa sair para correr às cinco da manhã e obrigar que todos usem a mesma camiseta que ele ou nenhuma e assim por diante, algo que, claro, não demora muito e descamba para aquele respeito entre subordinados e sargento. Do lado romântico, a comicidade vem da tentativa atrapalhada de Highway de “entender as mulheres” pela leitura de revistas femininas de forma que ele consiga reconectar-se com sua ex-esposa Aggie (Marsha Mason).

Toda a mecânica de treinamento é clichê até a raiz do cabelo, mas certamente divertida e bem comandada pela direção de Eastwood que sabe tirar proveito de sua “fama de mal” e do desfile de estereótipos ambulantes que é o grupo de soldados indisciplinados, ainda que o único deles que efetivamente tenha alguma construção maior do que ter um nome seja mesmo o esculhambado Stitch Jones. Sem dúvida, porém, o diretor poderia ter economizado nas repetições e na minutagem das cenas, entregando um filme mais curto e acelerado.

Por outro lado, talvez o problema esteja concentrado em seu terço final. É durante a Invasão de Granada que o longa perde muito de seu vigor, com essa meia hora final descambando perigosamente para uma versão militar da Loucademia de Polícia, com sequências de ação constrangedoras de ruins e que simplesmente não combinam mesmo com o tom satírico e humorístico leve da obra como um todo. E olha que o evento que inspirou o roteiro de Carabatsos – e outro fato real envolvendo uma escavadeira – acontece justamente nessa parte da fita, mas sem que Eastwood extraia o efeito desejado.

O Destemido Senhor da Guerra, porém, acaba funcionando em seu conjunto ajudado pela ótima atuação arquetípica de Clint Eastwood vivendo a versão militar de seus pistoleiros e policiais com uma bem-vinda pegada cômica. Trata-se de um filme pelo menos meia hora mais longo do que precisava ser, mas a estrutura é agradável, com diversos momentos realmente muito divertidos.

O Destemido Senhor da Guerra (Heartbreak Ridge, EUA – 1986)
Direção: Clint Eastwood
Roteiro: James Carabatsos
Elenco: Clint Eastwood, Marsha Mason, Everett McGill, Moses Gunn, Eileen Heckart, Mark Mattingly, Bo Svenson, Boyd Gaines, Mario Van Peebles, Arlen Dean Snyder, Vincent Irizarry, Ramón Franco, Tom Villard, Mike Gomez, Rodney Hill
Duração: 130 min.

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