Crítica | O Feitiço de Áquila

Gaston: Você é carne ou espírito?
Isabeau: Sou pesar.

É muito raro um diretor lançar mais de um filme por ano e é mais raro ainda quando eles, em seu próprio ano e mais ainda ao longo do tempo, tornam-se clássicos imortais de sua própria maneira. Pois Richard Donner conseguiu esse feito quase impossível em 1985 ao colocar nas telonas O Feitiço de Áquila e Os Goonies no espaço de poucos meses.

Se Os Goonies é um marco na aventura infanto-juvenil que até hoje é lembrado com saudosismo e que encanta mesmo aqueles que têm contato com a fita hoje em dia, O Feitiço de Áquila é uma fantasia medieval de amor que, por diversos fatores, dentre eles sua premissa simples, mas eficiente, seu elenco carismático e, claro, a inesquecível trilha sonora anacrônica, fica de mãos dadas com A Princesa Prometida dentro desse gênero. Diferente da obra de Rob Reiner de dois anos depois, porém, O Feitiço de Áquila tem um tom mais sério, ainda que não perca o enfoque fabulesco.

Valendo-se do ponto de vista narrativo de Phillipe Gaston, um jovem ladrão conhecido como O Camundongo, vivido por Matthew Broderick um ano antes de consagrar-se como Ferris Bueller, o filme conta a história do retorno de Etiènne de Navarra (o saudoso Rutger Hauer em seu primeiro papel de relevo desde Blade Runner), ex-capitão da guarda da cidade de Áquila, que, juntamente com sua amada Isabeau de Anjou (a belíssima Michelle Pfeiffer), deseja vingança contra o Bispo da cidade vivido por John Wood, que os amaldiçoara anos antes, impedindo-os de se verem simultaneamente na forma humana.

O primeiro terço da produção é uma joia de ritmo e de composição de personagens, além da revelação gradativa de mistérios. Donner faz de tudo para estabelecer Etiènne como um homem nobre, justo, mas reservado e Isabeau como um anjo encantador, algo que o cineasta consegue privilegiando o porte, os close-ups e a valorização do pouco diálogo que a fita tem nesse início. Ajuda muito a fotografia do experiente italiano Vittorio Storaro, responsável por Apocalypse Now, que extrai o máximo das filmagens em locação em diversas regiões da Itália, além da muitas vezes polêmica trilha sonora de Andrew Powell, com produção de Alan Parsons, que faz muito uso de sintetizadores misturados com canto gregoriano e música orquestral com um resultado inesquecível exatamente por criar um choque entre o antigo e o moderno.

No entanto, quando a obra avança e Gaston acaba na abadia em ruínas onde mora o excêntrico monge Imperius (Leo McKern), a narrativa se sabota. O roteiro escrito por uma comissão formada por Edward KhmaraMichael ThomasTom Mankiewicz e David Webb Peoples, este último criminosamente não-creditado, não sabe muito bem equilibrar a aventura medieval e as doses de fantasia e magia com desenvolvimento narrativo que não dependa de conversinhas para um lado e para o outro, além de soluções tiradas da cartola sem nenhuma preparação dentro da estrutura proposta. Além disso, a geografia da história simplesmente não funciona, já que tudo começa muito próximo de Áquila, somente para, do nada, os protagonistas estarem dias distante da cidade, quase que deixando claro que Donner mudou de ideia sobre a ordem dos acontecimentos e largou tudo na mão de Stuart Baird na montagem, que fez o melhor com o que não tinha.

A grande verdade, porém, é que toda a atmosfera de conto de fadas medieval encanta o espectador que consegue muito facilmente apropriar-se dos olhos deslumbrados do inicialmente hesitante e covarde, mas depois impulsivo e heroico ladrão de Broderick, para observar o belo drama do casal apaixonado, mas separado pelo dia e pela noite. A costura narrativa que depende de Gaston para funcionar se segura bem, com a simpatia do Imperius de McKern funcionando como mais um elemento que ajuda em nossa conexão com o que vemos acontecer. Por seu turno, a vilania do impassível Bispo de Áquila de John Wood é, em muitos aspectos, semelhante à do Palpatine de Ian McDiarmid na Trilogia Original de Star Wars. Em ambos há um certo prazer decadente e nojento que seus respectivos atores fazem transparecem sutilmente e sem parecer que estão se esforçando em seus papeis, destacando-os facilmente sempre que eles estão em tela, mesmo que isso só aconteça de maneira muito econômica.

O Feitiço de Áquila, pode sim ter seus defeitos, mas a magia que Richard Donner extrai de seu mais do que bem escolhido elenco encabeçado por Matthew Broderick, Rutger Hauer e Michelle Pfeiffer no contexto de uma história de amor atemporal embalada por uma trilha sonora memorável e enquadrada por uma fotografia hipnotizante mais do que compensa qualquer problema de ritmo narrativo. O cineasta cria uma fábula cinematográfica para todas as idades que captura a imaginação desde os primeiros segundos e que, mesmo depois de todo esse tempo, continua poderosa.

O Feitiço de Áquila (Ladyhawke, EUA/Itália – 1985)
Direção: Richard Donner
Roteiro: Edward Khmara, Michael Thomas, Tom Mankiewicz, David Webb Peoples (não creditado)
Elenco: Matthew Broderick, Rutger Hauer, Michelle Pfeiffer, Leo McKern, John Wood, Ken Hutchison, Alfred Molina, Giancarlo Prete, Loris Loddi
Duração: 121 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.