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Crítica | O Fim da Infância, de Arthur C. Clarke

por Ritter Fan
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A possibilidade de vida fora da Terra é, talvez, o tema principal da bibliografia de Arthur C. Clarke e é fascinante ver como ele aborda essa questão das mais variadas maneiras, sempre demonstrando sobriedade, um excelente rigor científico que consegue equilibrar a extrapolação da realidade com elementos filosóficos e religiosos, além de uma qualidade de escrita que torna as leituras fáceis e agradáveis. O que é plenamente perceptível, como traço geral de seu enfoque, é uma incrível reverência do autor aos alienígenas que trata em suas obras, algo muito diferente da pegada mais beligerante de outros escritores contemporâneos seus ou da forma como os extraterrestres passaram a ser normalmente retratados no cinema como forças invasoras imparáveis como metáforas da Guerra Fria.

O Fim da Infância é um de seus primeiros e mais importantes romances a partir do ponto em sua vida – mais precisamente 1951 – em que decidiu dedicar-se integralmente a escrever. Foi, para todos os efeitos, seu primeiro bestseller e o livro que Stanley Kubrick tentou adaptar antes de produzir 2001: Uma Odisseia no Espaço em uma interessantíssima e rara história de polinização cruzada entre Cinema e Literatura que abordarei em minha crítica do respectivo romance. Segundo o próprio Clarke, a primeira semente da obra talvez tenha vindo de sua lembrança do céu de Londres tomado por balões barragem durante a Segunda Guerra Mundial que ele transformou em naves alienígenas chegando à Terra em seu conto Anjo da Guarda, escrito em 1946, e que se transformaria, com ampliações e modificações, na Parte I de seu livro, que, então, ganhou o título A Terra e os Senhores Supremos.

Aliás, é importante que quem pretenda ler O Fim da Infância dispa-se completamente do que se espera de uma estrutura narrativa clássica. O romance é uma combinação de três histórias, marcando as três partes do livro, a primeira já citada, a segunda batizada de A Era de Ouro e, finalmente, A Última Geração. Também não há exatamente um protagonista, ainda que exista sim algo aproximado a isso, mas que só é introduzido em momento bem adiantado da obra, algo incomum e inesperado. No entanto, não há razão para temer a leitura, muito ao contrário, pois a história que Clarke desvela ao longo do que considero sua obra-prima é absolutamente cativante e uma das que mais sensacionalmente lida com o tema “invasão alienígena”.

Apesar da idade da obra, manterei a presente crítica sem spoilers, pelo que minha descrição dos acontecimentos será muito econômica e às vezes até críptica. Em linhas gerais, os autodenominados Senhores Supremos, seres alienígenas que sequer revelam sua forma aos humanos imediatamente, chegam em nosso planeta com naves estrategicamente sobrevoando as mais importantes localidades e, pela absoluta superioridade em todos os aspectos, passam a dominar a Terra. Mas essa dominação não tem o condão que se espera, mas sim o de colocar o planeta “nos trilhos”, suprimindo quase que naturalmente a Guerra Fria e a ameaça nuclear e jamais interferindo diretamente nos afazeres dos seres humanos, com apenas duas curiosas exceções, uma relacionada com as touradas na Espanha e outra com o “Apartheid ao contrário” que acaba acontecendo na África do Sul, em que os homens brancos, ao fim do regime opressor, passam a ser exterminados pelos oprimidos.

Tudo o que mencionei é estabelecido e abordado na Parte I, com as duas seguintes evoluindo o conceito muito na linha do monólito de 2001 (apesar de ter sido influenciado por diversos contos de Clarke, 2001 tem muito de O Fim da Infância também) em que a raça humana passa a progredir sob essa “nova gerência” que se comunica conosco por intermédio do Secretário-Geral das Nações Unidas. Mas Clarke é cínico e afrontador e não se satisfaz com o conceito do “alienígena que evolui os humanos”, logo colocando nossa natureza na frente de tudo e que eu posso resumir da seguinte forma simplificada: se temos tudo de mão beijada, para que fazer alguma coisa útil, não é mesmo? E não, não adianta dizer que você jamais seria assim, que jamais descansaria em seus louros (ou, melhor ainda, em louros de terceiros), pois isso simplesmente não é verdade, não na gigantesca maioria dos casos. Clarke sabem bem disso e cutuca o leitor fortemente ao lidar com esse aspecto de nossa natureza em meio à criação de uma comunidade quase-hippie que quer se dedicar à ciência e à arte em uma ilha paradisíaca na segunda parte da história.

É também na segunda parte que o leitor é apresentado ao personagem que mais se assemelha a um protagonista, mas que, por circunstâncias da narrativa, pouco aparece de verdade. Mais uma vez, ressalto a importância de livrar-se do preconceito literário, pois, diferente do que “queremos”, o desenvolvimento de personagens é quase nulo. O alienígena Karellen, supervisor da Terra, é, talvez, o personagem que mais ganhe construção, mas ela quase sempre vem de terceiros, na base do narrador onisciente (ou quase) olhando para ele que, vale dizer, demora a aparecer na forma física que é mantida a sete chaves por razões muito boas.

Mas tudo – absolutamente tudo – faz sentido na história, com um belíssimo e circular fechamento na Parte III. O segredo da aparência dos Senhores Supremos não é gratuita, não estando lá apenas para criar suspense. Até mesmo o porquê exato do segredo é uma espécie de segredo em seu próprio direito, já que ele nada contra o que o imaginário popular estabelece ou que estabeleceria nos anos seguintes ao lançamento do livro. Da mesma maneira, aquela “satisfação” que porventura podemos sentir primeiro por não estarmos sozinhos no universo e, depois, por sabermos que a companhia é civilizada e benigna é colocada em uma balança. Que balança é essa não posso abordar aqui, mas basta dizer que, lógico, há um objetivo maior por trás das ações dos Senhores Supremos e esse objetivo nos coloca em nosso lugar, revela o que significamos no cosmos, o que nossas vidas representam. Se a conclusão de Clarke é positiva ou negativa, fica para cada um julgar ao final da leitura, mas uma coisa é absolutamente certa: o autor não entrega de bandeja o que queremos ler. Ao contrário, o que ele entrega é o que precisamos ler como aquelas bem colocadas palavras ríspidas quando achamos que estamos fazendo a coisa certa e queremos aplausos por isso ou mesmo a bofetada em um momento de euforia.

O Fim da Infância pode ser uma leitura que já vale por seus méritos diretos, como a premissa, a inusitada construção da narrativa e a forma como cada peça é encaixada, mas seu real valor está na contemplação de nossa importância como espécie dominante – e destruidora – de um planeta ainda jovem e nosso papel no universo, universo esse que é tão vasto que sequer conseguimos compreender seu tamanho. O romance de Arthur C. Clarke nos dá algumas respostas possíveis e nem todas são agradáveis de se ler, de certa forma dando mesmo fim à nossa própria infância, pelo menos à infância literária no que se refere ao gênero da ficção científica, deixando-nos em contemplação silenciosa por muito tempo depois que viramos a última página.

O Fim da Infância (Childhood’s End, Reino Unido – 1953)
Autor: Arthur C. Clarke
Editora original: Ballantine Books
Data original de publicação: 1953
Editora no Brasil: Editora Aleph
Data de publicação no Brasil: 16 de setembro de 2015
Tradução: Carlos Angelo
Páginas: 320

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