Crítica | O Que Foi Que a Senhora Esqueceu?

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O casamento em luta sempre foi uma representação que Yasujiro Ozu procurou visitar. Ele já havia direcionado o seu olhar, em longas anteriores, para casais atravessando problemas financeiros e também enfrentando um momento de doença dos filhos. Aqui em O Que Foi Que a Senhora Esqueceu? (1937) o diretor, que concebeu o roteiro ao lado de Akira Fushimi, formaliza um tipo de trama familiar cheia de implicações, como fizera em Uma História de Ervas Flutuantes (1934). Neste filme de 1937, porém, o cenário principal é mais calmo e o texto nos faz acompanhar o dia-a-dia de Komiya (Tatsuo Saitô) professor da Universidade de Medicina e de sua esposa Tokiko (Sumiko Kurishima).

Estamos no segundo filme sonoro de Ozu, realizado um ano depois de Filho Único, e é curioso que nos parece ter bem mais problemas aqui, agora não só na sincronização dos diálogos, mas também na mixagem de som. Essa questão acaba atrapalhando um pouco a experiência, mas não de maneira grave, ou pelo menos não tanto quando o roteiro o faz, entregando-nos uma história que, apesar da boa proposta para pensar relações conjugais em algum momento de crise ou exagero de comportamento, parece não definir muito onde quer chegar.

A dinâmica do casal protagonista é claramente modificada com a chegada da sobrinha de Komiya, jovem menor de idade e de comportamento bastante liberal, permitindo-se beber, fumar, vestir-se de maneira diferente do tradicional japonês e dada ao questionamento da autoridade familiar, isso em plenos anos 30. É nessa linha comportamental que o roteiro, pouco a pouco, se perde, talvez por não conseguir dar a força necessária para a personagem ou para a sua influência moderna em um mundo bastante afeito à observação das tradições.

Em alguns pontos, vemos cenas dela com o seu pretendente, depois saindo com o tio ou respondendo de maneira mal educada à tia. Em outro bloco, temos as constantes visitas das amigas de Tokiko, que vão fofocar um pouco e falar de amores, roupas e outras amenidades. No meio de tudo isso, o texto mostra uma certa dominação de Tokiko em relação ao esposo, assumindo uma postura de mulher brava e controladora, enquanto ele, a de um homem calado, pacífico e obediente… mas nem tanto. Um pouco de Megera Domada ao contrário é posto em prática aqui.

A questão ligada à intriga entre marido e mulher poderia funcionar muito bem sem a presença da sobrinha, que às vezes aparece como um motivo capaz de fazer o tio pensar sobre costumes, mas é só aparência mesmo. E no que toca à essa personagem de Michiko Kuwano, a coisa se torna ainda pior no final, pelo incentivo horrendo que dá ao tio e pela maneira como pensa que deve ser a ação do marido sobre a mulher. A despeito da contextualização (o que não significa assentimento para o ato de violência, mas a devida colocação dele em seu tempo histórico e cultura), essa forma de Setsuko olhar o mundo simplesmente não combina com sua personalidade livre e moderna. É como se o roteiro tivesse entregue uma personagem e finalizado o seu arco com pensamentos emprestados de terceiros.

O Que Foi Que a Senhora Esqueceu? funciona como uma crônica de divergências na vida de um casal, com desencontros, pequenas brigas, pedidos de explicação e uma ação problemática por parte do marido, no final. Até mesmo a direção de Ozu aqui parece mais solta, especialmente na maneira como pensa a dinâmica de exibição dos diálogos. Sua beleza nas tomadas de contexto para o ambiente permanece intacta. Mas o restante está aqui em um status que conseguimos definir como “apenas bom“. O que é pouco, em se tratando de Ozu.

O Que Foi Que a Senhora Esqueceu? (Shukujo wa nani o wasureta ka) — Japão, 1937
Direção: Yasujiro Ozu
Roteiro: Yasujiro Ozu, Akira Fushimi
Elenco: Sumiko Kurishima, Tatsuo Saitô, Michiko Kuwano, Shûji Sano, Takeshi Sakamoto, Chôko Iida, Ken Uehara, Mitsuko Yoshikawa, Masao Hayama, Tomio Aoki, Mitsuko Higashiyama, Yaeko Izumo, Yoshiko Kuhara, Mitsuyo Mizushima
Duração: 71 min.

LUIZ SANTIAGO (Membro da OFCS) . . . . Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.