Crítica | Parque do Inferno

Historicamente, a premissa de um assassino envolvido em múltiplos crimes nos remete ao romance O Caso dos Dez Negrinhos, de Agatha Christie, levado para o cinema por meio da tradução intersemiótica E Não Sobrou Nenhum. O filme narra um grupo de estranhos que aceita o convite para um final de semana numa misteriosa mansão em uma ilha. Diante de alguns problemas, os convidados decidem partir, mas o barco do pequeno cais só retornará em três dias. Ao passo que a trama se desenrola, os convidados são mortos e a identidade do assassino é revelada apenas no desfecho. Quase todos os filmes do subgênero slasher se desenvolvem assim. Parque do Inferno, dirigido por Gregory Plotkin, vai mudar alguns detalhes, mas a estrutura é quase a mesma.

Há também a concepção de locus horrendus, conceito da teoria literária para o gótico que também pode se adequar ao slasher. Em Psicose, a mansão no topo de uma pequena colina, com traços dos castelos assombrados, é o espaço para os terríveis segredos obscuros da família Bates. Crystal Lake é o ambiente para organização da pilha de corpos, tal como Handonfield em Halloween – A Noite do Terror e a Elm Street de A Hora do Pesadelo, cada um a sua forma. Parque do Inferno, como traz seu título, tem a sua história situada num parque de diversões adornado para flertar com o medo das pessoas. Um locus horrendus perfeito para o tipo de narrativa, não acha?

Ambientado no dia 31 de outubro, a tradicional festa de Halloween, o roteiro e a execução por parte do diretor trazem uma premissa e um desenvolvimento simples. O que importa mais é a possibilidade de debate após desfecho narrativo, problematização sediada nos parágrafos finais desta reflexão. Natalie (Amy Forsyth), Brooke (Reign Edwards), Gavin (Roby Attal), Asher (Matt Mercurio) são as vítimas deste horrendo passeio diabólico. Ao ganhar os convites para o passaporte VIP no parque, o grupo sequer imaginou se tornar alvo de um assassino, não nomeado na narrativa, “aqui” tratado como Ele (Stephen Conroy), uma figura aparentemente sem motivações para os crimes, algo realizado apenas para satisfação dos seus desejos mais obscuros e mórbidos. Num jogo de gato e rato, os jovens precisarão salvar as suas vidas, ameaçadas por uma figura com vestuário semelhante aos funcionários do parque.

Ao longo de seus 89 minutos, Parque do Inferno é visualmente interessante. Com direção de fotografia assinada por José David Montero, o departamento trabalha bem em algumas cenas, tais como o embate na sala de máscaras e o bom uso da iluminação neon, mas no geral o resultado é médio. Como o roteiro também é razoável, o que se espera de narrativas assim é o desempenho do departamento visual. O design de produção cumpre bem o seu papel. Gerenciado por Michael Perry, o setor capricha na construção e adorno dos espaços, em especial, na cuidadosa direção de arte de Mark Dillon. O departamento de som, conduzido por Bear McCreary, investe pesado no jumpscare, o que torna alguns sustos previsíveis, algo muito “enlatado”, em suma, pouco genuíno, mas já esperado em filmes de terror direcionados para o cada vez menos exigente público juvenil.

Curioso observar que Parque do Inferno deveria ser mais profundo dramaturgicamente, haja vista ter sido escrito por um enorme grupo de pessoas. Inspirados por um argumento de William Penick e Christopher Sey, o roteiro escrito por Seth M. Sherwood, Blair Butler e Akila Cooper deveria ousar mais. Os diálogos são ruins, os personagens são muito rasos, iscas perfeitas e estúpidas para o assassino, em suma, a cartilha slasher em sua estrutura mais básica. Destaque para o desempenho irritante da atriz Bex Taylor-Klaus, exageradamente kitsch, definição que por si só já é pleonástica, tal como o seu tom “adolescente”, com línguas de fora e gritinhos de expressões como “irado” e “yeah”. No geral, o que temos é a tímida e recatada, a descolada e divertida, os rebeldes e insanos, o “gatinho” paquerador e sexy, arquétipos comuns ao subgênero em questão.

Desta maneira, Parque do Inferno é parte de um modelo de narrativa considerada um fenômeno da indústria cultural: o slasher, subgênero sobrevivente, mesmo nos períodos de muita crise criativa. Na mesma linhagem das narrativas góticas, os filmes deste segmento trazem um estilo narrativo que delineia a presença de trevas alegóricas, metafóricas e visuais de suas respectivas histórias. Algumas apresentam o “isolamento”: Acampamento Sinistro e Sexta-Feira 13. Condições climáticas atrozes: Esquiando Para a Morte e a segunda temporada de Slasher – Guilty Party. Há também a violência inexplicável, o ponto de vista do serial killer, geralmente favorável ao seu desenvolvimento enquanto “ceifador de vidas” e a nudez feminina: aqui se encaixam quase todos os filmes da “pegada” slasher.

Parque do Inferno traz uma relativização destes elementos, além de retratar o retorno de questões do passado e a personagem monstruosa. O monstro, como veremos, é bem humano. No que tange ao passado, algumas mudanças: os personagens aparentemente não devem nada ao assassino, tampouco cometeram algum ato inadequado no passado. O que temos aqui é um local conhecido por suas atrações horripilantes, feitas para brincar com o medo das pessoas, ambiente que foi palco de mortes sanguinolentas num passado recente. Resumo da ópera: “não vá se divertir num local com um histórico assim”.

Nas narrativas de caráter slasher há quase sempre uma indeterminação do rosto do assassino. Assim, mascarado, deformado ou transformado, o antagonista retalha os jovens incautos com seu figurino específico, dando caráter de “teatral” aos atos criminosos. Em Parque do Inferno, a “fantasia” não chega a ser inspiradora ou muito assustadora, mas também não atrapalha o desenvolvimento da história. Tonny Todd aparece para ilustrar o caráter “horripilante” da produção. Eternizado no desempenho do antagonista Candyman, também conhecido por suas participações na franquia Premonição, o ator tem pouquíssimo tempo “em tela”. Não chega a trazer nenhuma contribuição substancial, mas Parque do Inferno em si não é substancial, o que nos leva a crer que a aparição seja favorável ao filme, dando um toque a mais na metalinguagem estabelecida constantemente pelas cenas.

Por falar em metalinguagem, alguns pormenores que permeiam o filme precisam ser destacados. Há uma diferença gritante entre plágio e referência. Algumas produções oportunistas não sabem definir muito bem estas fronteiras. Não é possível afirmar, mas a “cena do banheiro” é muito parecida com um dos ataques de Michael Myers no recente Halloween. Ademais, as outras referências estão devidamente “citadas”. Há um clima de Pague Para Entrar, Reze Para Sair, de Tobe Hooper, bem como os filmes de monstros e psicopatas dos anos 1970. No entanto, Parque do Inferno também emula a metalinguagem pós-moderna de Pânico, numa mescla de gerações slasher que torna o filme mediano em algo aceitável e divertido.

Entre jovens bobos e irritantes retalhados, interessante a dualidade do que “é” ou “não é” ameaçador, afinal, os jovens estão num parque de atrações macabras, o que torna complicado saber quando alguém de fato é vítima de um assassinato real e quando a brincadeira pretende tirar sarro dos mais “impressionados”. As cenas labirínticas e um assassino que pode ser “qualquer pessoa comum”, desde um desconhecido ao seu vizinho, figura aparentemente exemplar, patriarca de uma família tradicional “coesa e feliz”, faz o filme ter uma abominável conexão com a nossa realidade. O aumento da violência e os atos de “expurgo” coerentemente explicados apenas por leituras psicanalíticas crescem vertiginosamente em nossa sociedade, o que torna Parque do Inferno uma possível interpretação das celeumas que nos acometem cotidianamente

Parque do Inferno (Hell Fest/Estados Unidos – 2018)
Direção: Gregory Plotkin
Roteiro: Blair Butler, Chris Sey, Seth M. Sherwood, William Penick
Elenco: Aaron Gillespie, Alicia Rosato, Amy Forsyth, Ashley Brasel, Ashley Uecker, Athena Akers, Benjamin Weaver, Bex Taylor-Klaus, Brooke Jaye Taylor, Christian James, Courtney Dietz, Elle Graham, George Howard Adams, John James Laws, Leon Croom, Mason Pike, Matt Mercurio, Michael Tourek, Reign Edwards, Roby Attal, Shaun McMillan, Tony Todd
Duração: 89 min

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.