Crítica | Pato Donald: A Galinha Esperta e Outros Curtas (1934 e 1935)

Pato Donald Fauntleroy, o melhor personagem da Disney depois do Tio Patinhas (não adianta discutir, é fato científico…), tem como data de “nascimento” oficial o dia 09 de junho de 1934, quando o curta A Galinha Esperta (The Wise Little Hen), da sensacional série musical Silly Symphonies, foi lançado nos EUA. No entanto, apesar disso, o personagem apareceu antes, mais precisamente em 1931, na capa do livro ilustrado infantil As Aventuras de Mickey Mouse como um pato quase comum, só que vestido de calça e chapéu verdes, bem diferente de sua versão de 1934.

Para dar voz ao personagem, a Disney contratou o hoje lendário Clarence Nash, que fez uma audição para a empresa quando ela anunciou estar procurando novas vozes para amigos animais para Mickey Mouse. Sua imitação de um pato (diz a lenda que Nash estava imitando era um bode bebê) garantiu que ele se tornaria a voz –  ou o grasnar, melhor dizendo – definitivo (e até hoje o melhor) do Pato Donald ao redor do mundo (sim, ele fazia a voz em todas as línguas), trabalho que continuaria por mais de 50 anos, ainda que não exclusivamente, literalmente até o ano de seu falecimento, em 1985.

A criação do personagem em si deveu-se a uma coleção de artistas, com os primeiros a desenhar Donald tendo sido Art Babbitt, Dick Huemer, Dick Lundy e Ward Kimball em A Galinha Esperta, mas Dick Lundy é normalmente creditado como o artista que efetivamente desenvolveu e estabeleceu a personalidade brigona do pato marinheiro. Claro que estamos falando dos primórdios do personagem que um dia ganharia um universo ao seu redor, mas isso fica para outra história. Por enquanto, que tal conhecermos todos os curtas com participação do Pato Donald em seus dois primeiros anos de vida?

Vamos lá:

A Galinha Esperta
(The Wise Little Hen)

Entre 1929 e 1939, a Walt Disney Productions lançou 75 curtas debaixo do “selo” Silly Symphonies, uma espécie de linha de animações feita com fins experimentais e sem personagens em continuidade, como, claro, Mickey Mouse, que sempre teve seus próprios curtas desde sua criação em 1928, no curta Steamboat Willie. Dentre as várias inovações técnicas dessa excelente série de curtas, Silly Symphonies notabilizou-se por introduzir efetivamente o Pato Donald como personagem fixo do universo Disney.

No entanto, Donald, aqui, assim como seu colega Porco Peter, é um coadjuvante na história da Galinha Esperta (ou Galinha Ruiva em algumas traduções) que deseja ajuda para plantar, colher e cozinhar milho. Trata-se de uma divertida releitura da fábula A Cigarra e a Formiga, de La Fontaine, com a galinha e seus pintinhos trabalhadores pedindo ajuda para seus vizinhos que, ato contínuo, fingem estar com dor de barriga para não ter que trabalhar. Quando, então, a galinha pede ajuda para comer o milho plantado e colhido a duras penas, os dois partem imediatamente para a casa dela, somente para colher a vingança da personagem.

Quase que integralmente cantado, com a galinha recebendo a voz cantada de Florence Gill e do lendário Clarence Nash tanto para Donald quanto para Peter, o conjunto sonoro é semi-ininteligível, mas estranhamente harmônico e muito claro em todas as ações mesmo para quem não compreender uma palavra sequer. Em Technicolor, as cores são fortes e a animação fluida, com apenas o pano de fundo permanecendo imutável, mas bem costurado dentro da estrutura narrativa.

Apesar de ser comum a confusão, é importante lembrar que a galinha que vemos no curta não é, ainda, Clara de Ovos, que só apareceria, também com a voz de Florence Gill, no curta Orphans’ Benefit de agosto do mesmo ano, como uma espécie de “evolução” da simpática galinha ruiva que pede ajuda a seus vizinhos. Donald, apesar de já aparecer em sua forma antropomórfica quase final (mais alongado que a versão definitiva, mas muito mais próxima dela do que da versão com roupa verde que apareceu na capa do livro infantil As Aventuras de Mickey Mouse, de 1931), com roupa de marinheiro, é completamente unidimensional, sem qualquer tipo de personalidade estabelecida, algo que  só viria mesmo no curta seguinte. Porco Peter, de todos, é o único personagem que ficou completamente esquecido, aparecendo apenas mais uma vez, em The Band Concert, de 1935 (sem contar com sua ponta em Uma Cilada para Roger Rabbit).

País de origem: EUA
Data de lançamento: 09 de junho de 1934
Direção:
 Wilfred Jackson
Roteiro (música): Leigh Harline
Elenco: Florence Gill, Clarence Nash
Duração: 7’42”

Show para os Órfãos
ou
Em Benefício dos Órfãos
(Orphan’s Benefit)

Com o sucesso imediato alcançado pelo Pato Donald em A Galinha Esperta, Walt Disney tratou de reaproveitá-lo como coadjuvante nos curtas mais “nobres” da Casa do Camundongo, estrelando, claro Mickey Mouse. Show para os Órfãos ou Benefício para os Órfãos é a primeira vez que Donald faz parceria com Mickey e, mais importante do que isso, é aqui que ele ganha sua personalidade de estourado e briguento, com seu ataque histérico hilário e ininteligível e sua pose de “briga” clássica que até hoje é utilizada em animações e nos quadrinhos. Esse é, sem dúvida alguma, o Pato Donald que conhecemos e amamos.

No curta, ele é uma das atrações de um show beneficente organizado pelo Mickey para órfãos que são todos aparentemente gêmeos de seus sobrinhos Chiquinho e Francisquinho, que apareceram pela primeira vez dois anos antes em uma tirinha de jornal. Com um teatro repleto de “pestinhas”, Donald tem que recitar poemas – não por coincidência ele recita Mary Had a Little Lamb, o mesmo que Clarence Nash recitou na audição que o fez ser contratado para o lendário papel) e os órfãos não perdoam sua voz de taquara rachada, logo tornando um inferno a vida do pato enfezado. É o primeiro curta da Walt Disney Productions a mergulhar de cabeça na comédia física (slapstick), com as emoções sendo representadas pelos movimentos corporais, notadamente os de Donald em suas demonstrações de raiva (suas pernas e pés são pretos por razões técnicas, já que o branco “desaparecia” na animação). O curta é até hoje considerado como um “ponto de virada” para a produtora, que reagiu muito bem à aclamação que recebeu nos cinemas, com as crianças adorando e ao mesmo tempo odiando o Pato Donald.

Curiosamente, o que me faz retirar meio ponto da nota é tudo aquilo que não é Donald interagindo com os órfãos, já que o curta muito claramente era para ser exclusivamente dele, talvez com Mickey ali onde fica, nos bastidores, apenas servindo de mestre de cerimônias. Clara de Ovos, Pateta e Clarabela não funcionam bem diante do show de um pato só que é Donald e só fazem “atrapalhar” a gostosa relação antitética entre o personagem novato e a platéia de inclementes mini-Mickeys.

País de origem: EUA
Data de lançamento: 11 de agosto de 1934
Direção:
Burt Gillett
Elenco: Walt Disney, Florence Gill, Clarence Nash, Pinto Colvig
Duração: 9’11”

The Dognapper

Em The Dognapper, Mickey e Donald são policiais que têm que ir ao encalço do sequestrador de cachorros Bafo de Onça (criado em 1925!) em um curta do estilo polícia e ladrão que abusa da fisicalidade e da pancadaria entre os personagens, inclusive – vejam só que horror (he, he, he)! – com o uso de armas e muitas balas. Depois de uma perseguição, os dois heróis atrapalhados enfrentam o bandido em um celeiro.

Apesar de sempre divertida, a animação é, de certa forma, um pequeno retrocesso em sua qualidade se comparada com as imediatamente anteriores, com um Donald estranhamente desenhado. Mas o estilo slapstick funciona bem e a interação entre Mickey e seu amigo pato cativa facilmente o espectador, ainda que a grande estrela aqui seja mesmo Bafo de Onça e seu jeito largado, bonachão e bem violento, quase no nível Tom & Jerry, o que é, veja bem, um elogio, não uma crítica.

Esse curta tem uma curiosidade: trata-se da primeira e única vez que Mickey Mouse ganhou a voz de Clarence Nash, já que Walt Disney estava na Europa. A grande verdade, porém, é que Disney não faz falta, já que o talento vocal de Nash é mais do que suficiente para imitá-lo à perfeição.

País de origem: EUA
Data de lançamento: 17 de novembro de 1934
Direção:
David Hand
Elenco: Clarence Nash, Billy Bletcher
Duração: 7’51”

Mickey, o Maestro
(The Band Concert)

Primeiro curta do Mickey Mouse a ser produzido em cores, Mickey, o Maestro é um desbunde criativo que coloca o personagem do título tentando reger uma orquestra tocando Guilherme Tell, de Rossini, somente para ser atrapalhado primeiro pela voz de taquara rachada do Pato Donald vendendo sorvete para a plateia e, depois, com o pato propositalmente torrando sua paciência ao insistir em tocar Turkey in the Straw em sua flauta.

A ação não para, assim como as risadas. Donald está particularmente insuportável e sacana aqui, com Clarence Nash divertindo-se no único papel falado do curta. A animação é rica, variada, repleta de ritmo musical e coloca Donald e Mickey pela primeira vez em oposição, algo que seria repetido muitas vezes depois.

Apesar de Donald não ser a única distração para a performance de Mickey e sua banda, diferente de Orphan’s Benefit, o que acaba “preenchendo os espaços” e que inclui um tornado, combina muito bem com toda a narrativa disruptiva e não afasta Donald do centro do palco, desta vez como “vilão”. É o perfeito exemplo de equilíbrio entre personagens icônicos e de fluidez narrativa.

País de origem: EUA
Data de lançamento: 23 de fevereiro de 1935
Direção:
Wilfred Jackson, Walt Disney
Elenco: Clarence Nash
Duração: 9’19”

A Oficina Mecânica do Mickey
(Mickey’s Service Station)

Mickey, Pateta e Donald trabalham em uma oficina mecânica alegremente quando um novo e exigente cliente chega: Bafo de Onça. Ele quer que os três localizem e eliminem um barulho em seu carrão em 10 minutos, como de praxe sob grave ameaça. Os amigos, então, desesperados, correm contra o tempo para literalmente desmontar o carro atrás do problema.

O resultado dessa premissa simples, no penúltimo curta em preto e branco da Walt Disney Productions, é um divertidíssimo trabalho que extrai o que de melhor os personagens têm. Bafo de Onça é desenhado como uma espécie de magnata, com direito a polaina até mesmo em sua perna de pau e Mickey, Donald e Pateta apresentam todas as suas características clássicas de maneira muito clara e fluida, com Mickey em um tipo de liderança, Pateta completamente atrapalhado e Donald sofrendo fisicamente o tempo todo, o que só faz sua raiva explodir.

Os detalhes da animação, assim como os subterfúgios musicais trabalhados por intermédio de uma edição e mixagem de som exemplares, que extraem notas de todos os pedaços do carro, merecem a mais alta comenda. O mesmo vale para os trabalhos de voz e para a direção precisa de Ben Sharpsteen, que, dentre outros feitos, viria a supervisionar a direção de Pinóquio e co-dirigir Dumbo em 1940 e 1941 respectivamente.

País de origem: EUA
Data de lançamento: 16 de março de 1935
Direção:
Ben Sharpsteen
Elenco: Walt Disney, Clarence Nash, Pinto Colvig, Billy Bletcher
Duração: 9’19”

A Brigada do Mickey
(Mickey’s Fire Brigade)

Esse é uma daquelas obras que cinco estrelas não fazem jus. A Brigada do Mickey é uma joia em forma de animação que coloca Mickey, Donald e Pateta como bombeiros tentando apagar o fogo em um hotel. Se a essa altura já nos acostumamos com os excepcionais trabalhos de voz da trinca principal – adicionados aqui de Elvia Allman como Clarabela – e da qualidade usual das animações da produtora, é uma surpresa ver o que Sharpsteen consegue aqui.

No curta de menos de oito minutos, o diretor quase que cria uma obra experimental que tenta fazer o máximo possível com a perspectiva. Somos levados de baixo para cima em uma demonstração de controle absoluto de profundidade de campo e de ritmo narrativo, com voos dos personagens por sobre a casa sendo acompanhados de perto pela câmera, além de uma enorme criatividade na forma como o fogo é combatido, nunca com água.

Além disso, os detalhes que a equipe de animação imprimem ao hotel – uma mansão no estilo sulista – e aos “foguinhos” são impressionantes mesmo considerando todo o bom trabalho deles em dezenas de obras anteriores. A Brigada do Mickey merece uma categoria própria entre as centenas de obras da Walt Disney Productions.

País de origem: EUA
Data de lançamento: 03 de agosto de 1935
Direção:
Ben Sharpsteen
Elenco: Walt Disney, Clarence Nash, Pinto Colvig, Elvia Allman
Duração: 7’43”

No Gelo
(On Ice)

No Gelo lida com três narrativas paralelas em cima de um tema em comum: patinação no gelo. Mickey ensina Minnie a patinar, Pateta pesca peixes em um buraco no gelo com tabaco(!!!) e um porrete(!!!) e Donald usa de toda sua maldade para espezinhar Pluto que dorme pacificamente em seu canto. Há, claro, convergência ao final, mas ela é leve, sem retirar o prazer de cada uma das historietas.

A menos inspirada é, como de se esperar, a do casal de pombinhos. Há muita técnica de animação ali, claro, com Mickey esbanjando perícia com os patins, mas a narrativa é simplezinha demais, sem qualquer chamariz. Já no caso do Pateta, a mera descrição acima do como ele faz para pescar já levanta sobrancelhas e traz um sorriso de surrealidade para o rosto de qualquer um. É, sem dúvida alguma, a pescaria mais inusitada já colocada no audiovisual. Finalmente, Donald fazendo maldades com Pluto dá raiva do pato marinheiro, mas daquele jeito gostoso de ver e que, obviamente, reverte contra o penoso.

No Gelo não é o melhor trabalho de Ben Sharpsteen na direção, mas sua qualidade usual transparece muito facilmente ao longo dos pouco mais de oito minutos de projeção. Diversão garantida.

País de origem: EUA
Data de lançamento: 28 de setembro de 1935
Direção:
Ben Sharpsteen
Elenco: Walt Disney, Clarence Nash, Pinto Colvig, Marcellite Garner
Duração: 8’07”

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.