Crítica | Scooby-Doo! O Mistério Começa

Apesar do sucesso de bilheteria do primeiro filme live-action do Scooby-Doo, a Warner considerou a continuação de 2004 um relativo fracasso e não procedeu com a franquia nos cinemas. Com isso, a gangue da Mistério S.A. só ganharia nova versão com atores reais – e um cão em CGI, claro – em um telefilme de origem encomendado pela Cartoon Network que foi ao ar em 2009 e que funciona, pelo menos em tese, também como um prelúdio ao filme de 2002.

Claro que o elenco dos filmes cinematográficos não retornou, até porque seria estranho ver os atores fazendo as versões de seus personagens ainda em idade escolar, na Coolsville High, e, com isso, Robbie Amell foi escalado como Fred, Hayley Kiyoko como Velma, Kate Melton como Daphne, Nick Palatas como Salsicha e o veterano Frank Welker, que fez a voz original de Fred na série animada de 1969, como Scooby-Doo. Também pela janela foi o orçamento mais polpudo, assim como qualquer sombra de uma pegada minimamente mais adulta, mas, mesmo assim, talvez como atestado da força da franquia e dos personagens, o resultado tenha sido uma comédia adolescente simpática que consegue dar conta de seu recado, ainda que sem grandes arroubos imaginativos ou pretensões para além de ser um produto descartável para consumo rápido, mas que não desagrada seja o espectador uma criança, o público-alvo, ou um adulto nostálgico.

A história é simples como não poderia deixar de ser e faz com que a turma toda se conheça depois que uma confusão que começa com bullying no próprio ônibus escolar leva-os à detenção na biblioteca exatamente no momento em que uma dupla de fantasmas surge por ali. Scooby, por seu turno, reúne-se a Salsicha quando o caminhão que o transporta de volta de uma feira de adoção em que ele permaneceu como o único cachorro sem dono deixa sua gaiola cair e ele acaba no porão que faz as vezes de quarto do magrelo, mas comilão personagem.

O elenco funciona razoavelmente bem, com apenas Nick Palatas tentando ir além de sua caracterização física e fazendo “voz” de Salsicha, algo que o diferencia dos demais que, provavelmente pela escolha da produção para distanciar seus personagens dos filmes do cinema, mantiveram o histrionismo no nível mínimo, quase passando por adolescentes normais em uma aventura escolar. Diria, aliás, que essa foi uma decisão acertada do diretor Brian Levant (Os Flintstones: O Filme, Um Herói de Brinquedo), que, com isso, suaviza os personagens, tornando-os mais relacionáveis, mas sem esquecer de suas características e frases mais marcantes que aparecem aqui e ali, de maneira ponderada. Até mesmo os figurinos tentam emprestar um ar de normalidade à gangue, apenas discretamente mantendo as cores e os modelos padrão de cada um.

No quesito computação gráfica, o telefilme oferece exatamente o que se espera, ou seja, qualidade no máximo duvidosa, mais parecida com animações inseridas no celuloide do que CGI realmente integrado ao live-action. Scooby parece artificial, bem mais do que nos filmes cinematográficos, mas a voz de Frank Welker dá um show, de certa forma compensando o eventual problema. Mas a questão está mesmo no restante. Os fantasmas invocados pelo “misterioso” vilão para recuperar uma cápsula do tempo enterrada debaixo da escola conseguem ser inferiores aos que vemos no Caça-Fantasmas original e até mesmo os efeitos práticos ficam ali com esforço apenas na linha mediana. Novamente, é o que se pode esperar de uma obra dessa natureza, mas talvez um pouco mais de cuidado tivesse resultado em algo menos genérico e largado. O que realmente mantém a narrativa em pé é a direção de Levant, que mostra que sabe o que faz mesmo quando não tem um roteiro particularmente bom ou fundos infinitos para colocar na telinha algo que poderia se beneficiar de mais do que apenas o básico.

Scooby-Doo! O Mistério Começa tinha uma tarefa que, convenhamos, não era lá muito complexa e ele a cumpre sem em momento algum tentar fazer um pouco mais. Funciona como uma versão da origem da simpática gangue da Mistério S.A. e como prelúdio descompromissado dos já descompromissados filmes de Raja Gosnell e James Gunn, além de alguns minutos minimamente divertidos especialmente para os pequenos. Mas talvez Scooby-Doo seja material restrito mesmo às animações.

Scooby-Doo! O Mistério Começa (Scooby Doo! The Mystery Begins, EUA/Canadá – 2009)
Direção: Brian Levant
Roteiro: Daniel Altiere, Steven Altiere (baseado em personagens criados por Joe Ruby e Ken Spears)
Elenco: Frank Welker, Kate Melton, Hayley Kiyoko, Robbie Amell, Nick Palatas, Shawn Macdonald, Garry Chalk, Leah James, Brian Sutton, C. Ernst Harth, Lorena Gale, Daniel Riordan
Duração: 82 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.