Crítica | Scream – 2ª Temporada

Diante da genialidade dos criadores da franquia Pânico, a série derivada do universo cinematográfico é uma abominação sem precedentes. Para a segunda temporada, os criadores Jill E. Blotevogel, Jay Beattie e Dan Dworkin fizeram o possível para agradar: trouxeram referências aos filmes de terror Psicose, Eu Sei o Que Vocês Fizeram no Verão Passado, dentre outros, além de uma cena antológica com uma das personagens banhada de sangue, tal como Carrie, a “estranha” de Stephen King levada ao cinema pelo mestre Brian De Palma.

Referenciar e nos deliciar com homenagens aos temas de horror que marcaram a história cinéfila de muita gente não é suficiente, principalmente quando a série recorre ao mesmo problema do ano anterior: pouco carisma de seus personagens, adiamento de mortes que chocariam o público e estabeleceriam a catarse, diálogos ruins, incapacidade dos dramaturgos em transformar os protagonistas planos em esféricos e a pífia final girl que consegue ser mais inexpressiva que a sobrevivente em Sexta-Feira 13 – Parte 5: Um Novo Começo, a pior loira protagonista da franquia do antagonista Jason.

Sem adotar o padrão antológico que fez, ao meu ver, Scream – 3ª Temporada funcionar dentro de suas limitações, a história da segunda temporada continua diante dos pontos em aberto que surgiram anteriormente. Audrey (Bex Taylor-Klaus), como sabemos, correspondeu-se com a repórter investigativa que na verdade estava em Lakewood para dar cabo de seus planos vingativos. A garota, amiga da protagonista Emma (Willa Fitzgerald), de certa forma, ajudou na travessia da maléfica psicopata para o local anteriormente tranquilo. Troca de cartas denunciam que há algo de errado com Audrey. Mas o que será?

Assim, logo nos primeiros episódios, a série ganha um ritmo atrativo, nos deixando esperançosos diante das possibilidades de avanço. As desordens narrativas, no entanto, não demoram para surgir. A atração não decola, mais personagens são inseridos, numa aparente resistência dos realizadores em ceifar vidas que eles consideram valiosas, escolha que demonstra a falta de compreensão dos efeitos dramáticos que funcionam dentro de uma narrativa slasher. Diante do exposto, mais uma vez, o mistério capaz de ser resolvido em apenas 90 minutos se alastra por doze longos episódios, um verdadeiro horror para os espectadores saturados de tantos diálogos sem expressão e história mais elástica demais.

Por qual motivo alguém continuaria a matança?  A sangria já não tinha sido suficiente? No quesito sangue, os produtores decidiram atender aos pedidos de muitos admiradores do material, ao disponibilizar mais imagens avermelhadas na narrativa. O assassino, os assassinos ou a assassina, por sinal, parece um ser sobrenatural, pois as suas manobras e solicitações de afrouxamento do pacto de verossimilhança são absurdas demais. Como diz o ditado popular, tudo tem limite, não é mesmo? Scream – 2ª Temporada parece não conhecer a expressão.

Os assassinatos elaborados demais e a violência artificializada pelo excesso não convencem. Onde estão os telefonemas com os abjetos “Hello, Emma?”. Brooke (Carlson Young), tal como a personagem de Keke Palmer na terceira temporada, parece segurar a série durante todos os episódios, um problema quando os coadjuvantes sublimam a protagonista. As cenas de perseguição, as coreografias entre os personagens em luta corporal com Ghostface desaparecem, deixando tudo muito insípido, como se já não bastasse a ausência da máscara icônica, um dos melhores trajes no bojo dos filmes de terror contemporâneos.

Entende-se algumas partes, tal como a exploração da relação de Emma com a mãe, uma mulher repleta de segredos que não ajudam em nada no cotidiano com a filha, principalmente diante dos traumas decorrentes da trilha de corpos do ano anterior. O drama ao menos funcionaria como suplente do suspense e do terror, caso a história tivesse um desenvolvimento minimamente descente. Ghostface versão MTV seja louvado, todo o meu respeito depois que a sua transmissão foi cancelada e a série ganhou formato antológico, com novo elenco, novas regras e outras abordagens para o seu turbulento terceiro ano. Será que funcionou?

Scream – 2ª Temporada (Scream – Season Two)
Criadores: Jill E. Blotevogel, Jay Beattie, Dan Dworkin
Direção: Vários
Roteiro: Vários
Elenco: Willa Fitzgerald, Bex Taylor-Klaus, John Karna, Amadeus Serafini, Kiana Ledé, Santiago Segura,  Tracy Middendorf, Bryan Batt, Sean Grandillo, Austin Highsmith, Karina Logue, Anthony Ruivivar
Duração: 12 episódios de aprox. 43 min cada.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.