Plano Histórico #23 | Femme Fatale: Um Arquétipo Noir

Ao longo da história do cinema, diversos arquétipos femininos foram estabelecidos no bojo do sistema industrial de produção ficcional. Alguns ganham projeção ampla, mas depois desaparecem. Outros surgem com variações dramáticas, mas estrutura narrativa similar. É o caso da femme fatale, rentável personagem que acompanha o cinema há décadas. A sua padronização se assemelha ao perfil da Maniac Pixie Dream Girl, garotas irritantemente extrovertidas e apaixonadas pelos protagonistas de suas narrativas, mesmo aqueles caras sem nenhum atrativo intelectual ou estilo que permita uma atração verossimilhante. Utilizada em larga escala, são garotas que estão para as comédias românticas e dramáticas da mesma maneira que as femme fatales estão para o suspense/drama/horror.

Há, entretanto, uma diferença gritante entre tais perfis comparados. Mesmo que “a fatal” tenha adentrado numa zona de padronização, ela é transgressora e sai do lugar comum, diferente das mocinhas exageradas e “namoradinhas da América” provenientes das comédias românticas. Não conformadas com os papeis estabelecidos pela sociedade, tais personagens enfrentam o sistema, algumas vezes se mantendo firmes, noutras sendo derrotadas, mas sem ao menos deixar de lutar. Referência para as mulheres atraentes, perigosas e obsessivas de muitos filmes originados entre a década de 1970 e o cinema atual.

Catalogá-las não é uma tarefa das mais fáceis, pois cada vez que você imagina ter contemplado a maioria dos filmes sobre o tema, surge algo para lhe oferecer mais trabalho. Perversa Paixão, Instinto Selvagem, Atração Fatal, Corpo em Evidência, Malícia, Fixação, Mulher Solteira Procura, Assédio Sexual, Colega de Quarto, Obsessiva, Paixão Obsessiva, Paixão Sem Limite, O Preço da Traição, Diabólica, Diabolique, etc. Elas permitem a fixação de um modelo que veicula um complexo estereótipo, algo que ao passo que cria um processo de estandardização, também permite a realização de produções esteticamente valiosas para a história do cinema. É uma via de mão dupla. Por isso, a crítica de cinema é necessária. Avaliar, refletir e permitir o debate.

As mulheres que representam essa “fatalidade” são reminiscências do Filme Noir, categoria de estilo conhecida por características específicas: iluminação low-key, uso consciente do plongèe e contra-plongèe, design de produção com figurinos e maquiagem lascivos e atraentes, juntamente com uma direção de arte meticulosa, principalmente na presença de espelhos. São filmes que trazem à tona problemas da “vida real” no pós-guerra da década de 1940, isto é, as inseguranças masculinas diante da presença da mulher em postos anteriormente destinado aos homens.

Observadas como “criaturas” que ameaçavam a sua virilidade, as mulheres fatais anteriores aos filmes do estilo noir nos levam aos tempos bíblicos. Desde Jezebel, a astúcia feminina promoveu a derrocada de homens. Dalila, por exemplo, traiu Sansão após seduzi-lo em troca de dinheiro. Movida por sua fúria sexual, Salomé também outro grande nome das passagens bíblicas, Herodes, levando-o a cometer um assassinato. E o que dizer do mito de Eva, uma das reiterações mais enraizadas em nossa sociedade no que concerne a mulher como representação do perigo, do proibido e do fatal, seguido de consequências desastrosas? São trajetórias milenares que encontram ressonâncias na história da humanidade ao longo de tantas eras, períodos, evoluções. Há mudanças aqui e acolá, mas a estrutura permanece quase a mesma: uma figura masculina é atraída por uma mulher que utiliza de seus atributos, sexuais ou não, para conseguiu o que organizar os seus planos.

Duplamente fatal: Rita Hayworth em Gilda e A Dama de Shangai (acima) | Pola Negri e Theda Bara (abaixo), duas vamps do cinema não-sonoro.

Nos primeiros anos do século XX, cineastas do que se convencionou chamar de Primeiro Cinema nos apresentaram as suas vamps, mulheres de postura cruel, sangrenta e sedutora. Interpretadas por atrizes do cinema não sonoro, as vamps encontraram representação eficiente nos trabalhos de Pola Negri, Louise Glaum, Theda Bara, etc. Consta em registros históricos que no cinema alemão, realizadores expressaram em seus filmes a new woman, perfis femininos que retratava alegoricamente os medos sociais. Como esquecer das inseguranças do progresso social no robô feminino de Metropolis, de Fritz Lang. Marlene Dietrich enfeitiçou uma fileira de homens em seus filmes com aspectos noir. A lista de produções prévias e contemporâneas ao fenômeno noir é extensa e sem um consenso geral. Bastante material para assistir, observar, anotar, refletir, debater e criticar.

Com as suas bases iniciais concebidas no cinema francês, o noir foi importado para os Estados Unidos e ganhou projeção ainda maior, principalmente por conta do contexto histórico bélico que devastou os europeus. Na “América”, o estilo multiplicou-se. E, com esse processo de ascensão, permitiu a emergência da mulher noir, a femme fatale manipuladora, subversiva e gananciosa, personagem que faz sexo sem remorso algum. O mundo surge como um local repleto de perigos, sendo a mulher fatal um dos mais centrais. Ela toma de assalto os personagens masculinos dos filmes no estilo noir e promovem a sua derrocada de maneira predatória. O clima de “perigo” e “pavor” se estabelece num contexto histórico marcado anseios e medos sociais coletivos.

O mundo em guerra. O cenário era desolador para todos. O patriarcado entrou numa zona de desconforto ao ver que muitas mulheres saíram de seus lugares regidos pela fixidez. Com o contingente masculino a servir durante os conflitos bélicos da Segunda Guerra Mundial, houve falta de mão de obra para manutenção da sociedade. Inicialmente, o recrutamento se dedicou ao agrupamento de mulheres solteiras para a realização das demandas do sistema capitalista de produção. A coisa ganhou outro rumo quando a presença das solteiras não era suficiente, tamanha a “baixa” dos homens que voltavam da guerra improdutivos e pouco capazes de desenvolver as suas tarefas de antes.

Lana Turner, Jane Greer, Marlene Dietrich, Gene Tierner, Barbara Stanwyck e Ava Gardner: ilustrações exemplares do arquétipo da femme fatale

Há então a intensificação das mulheres no mercado. As casadas também assumem novos papéis. O que continua a ferir o ego masculino é a liberdade alcançadas por estas mulheres. Cientes de sua capacidade e mais engajadas, as ocupantes do cargo de dona de casa não desejam mais a vida de antes, algo que serviu como novo ponto de partida para enxergá-las como perigosas e fatais, características que alegorizam o medo do homem em relação ao processo de emancipação feminino. É deste espaço que surgem as personagens de Ava Gardner, Lana Turner, Rita Hayworth, Jane Greer, Veronica Lake, Marlene Dietrich, Joan Crawford, Barbara Stanwyck, Gene Tierney e Kim Novak, dentre outras, responsáveis por transformar a vida dos detetives interpretados por Humphrey Bogart, Robert Mitchum, Fred MacMurray, James Garner, Dick Powell, Darren Mcgavin, Stacy Keach, dentre outros, num inferno psicológico sem precedentes. Homens acompanhados por seus conflitos do passado, tais personagens enfrentam os dilemas da profissão, beiram constantemente ao alcoolismo como fuga para as suas respectivas realidades transtornadas, todos acometidos pelos desejos destas mulheres que manipulam cotidianamente as suas vidas.

Com a pressão dos códigos dos órgãos de censura, a violência destes filmes geralmente era abordada por meio da alegoria. Inesquecível a maneira como Billy Wilder orquestra o assassinato do marido da personagem de Barbara Stanwyck em Pacto de Sangue. O foco da direção de fotografia é na captação do rosto da esposa que mata o esposo para se juntar ao amante e ficar com a herança. Traidora e perigosa, ela põe em cena um olhar equivalente ao orgasmo sexual. O prazer não está apenas no dinheiro que lhe permitirá gozar de privilégios no futuro, mas na satisfação em eliminar um obstáculo que a impede de realizar as suas maiores fantasias da vida.

Reflexos da  femme fatale noir: Instinto Selvagem, Atração Fatal, Corpo em Evidência, Fixação, Assédio Sexual e Paixão Obsessiva, 

Diante do exposto, percebemos que a mulher noir, então, ganhou projeção na era da reprodutibilidade técnica e com o amplo aspecto de representação, tornou-se um padrão que encontrou ressonâncias em personagens belas, sensuais, atraentes, perigosas e fatais em filmes dos anos 1970, era posterior aos conflitos do Vietnã, momento conhecido por mais mudanças de paradigmas sociais, oriundos das pressões realizadas em movimentos dos anos 1960; mexeu com os padrões familiares e “trincou” estruturas aparentemente fixas da família tradicional nos anos 1980, era da representação do sexo como algo perigoso, haja vista a epidemia e o estigma diante do HIV.

Nos anos 1990, prévia do estabelecimento doméstico da cibercultura, firmou-se como personagem potencialmente dramático na estrutura ficcional hollywoodiana, adentrando em desgaste no final da década, tamanha a quantidade de abordagens embasadas em argumentos desgastados, o que culmina nos filmes contemporâneos focados nestes personagens que mesmo apresentadas exaustivamente, ainda atraem muitos realizadores. Se atraem produtores e investimento, tenha certeza que é porque há retorno da audiência. Amadas ou odiadas, as mulheres fatais correspondem a um segmento forte da indústria. E, se há movimento, é preciso a presença da crítica para observação dos movimentos engendrados dentro deste subgênero que representa o que chamo de “persistência da memória”.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.