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Crítica | Seara Vermelha, de Dashiell Hammett

por Luiz Santiago
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Seara Vermelha foi originalmente publicado em quatro partes (The Cleansing of Poisonville, Crime Wanted – Male or Female, Dynamite e The 19th Murder) na revista pulp Black Mask, entre novembro de 1927 a fevereiro de 1928. Sua primeira edição completa saiu pela Alfred A. Knopf em fevereiro de 1929 e com ela veio o grande sucesso de um tipo de ficção policial que começara a ser publicada após a 1ª Guerra Mundial. Em um curto, mas ótimo artigo intitulado Ética e estética do crime: ficção de detetive, hard-boiled e noir, o professor Julio Jeha faz uma precisa definição desse tipo de personagem que vemos nos livros – e posteriormente nos cinemas do gênero –, sempre colocado em situações difíceis e saindo delas com muitas cicatrizes (físicas e/ou psicológicas) sem conseguir um resultado permanente para a “vitória contra o crime”, mesmo que o caso em questão seja resolvido. Diz o professor Jeha:

O investigador hard-boiled trabalha na cidade, o centro do mal onde todo tipo de perversão parece florescer. A selva urbana substitui a natureza selvagem, que fora desbravada e colonizada nos séculos anteriores. Nesse novo cenário, o detetive luta contra o mal social e termina cínico e desiludido, mantendo a sua força apenas por causa do seu código moral, seu senso de certo e errado. Ele não pode jamais esperar a solução completa do crime nem a restauração da ordem ao seu estado prévio, porque o mal permeia o seu mundo, revelando-se entre os farrapos das máscaras sociais.

O que Dashiell Hammett faz aqui em Seara Vermelha (ou Colheita Sangrenta, pela editora Livros do Brasil, título que eu acho mais interessante, por sinal) é pegar um personagem durão, com características de anti-herói – mesmo sendo o mocinho do livro – e colocá-lo em um lugar onde a podridão social impera. Se considerarmos o momento em que este livro foi escrito, ou seja, durante a Lei Seca/Proibição nos Estados Unidos (1920 – 1933), veremos que há um forte reflexo social aqui, especialmente na organização dos grupos mafiosos querendo controlar a cidade.

Quem assume a investigação é o Continental Op, um detetive da Continental Detective Agency em São Francisco, que nunca fornece o seu nome verdadeiro e que durante toda a narrativa não nos dá informações relevantes sobre sua vida. O autor nos permite ter acesso a alguns pensamentos desse detetive, mas é sempre algo muito focado em um personagem (quando ele pensa sobre ou fala com Elihu Willsson ou Dinah Brand, por exemplo) e em algum local onde uma ação acontecerá, de modo que o Continental Op permanece um enigma para o leitor e, mesmo assim, conseguimos nos aproximar bastante dele, dada a maneira humana com que cerca o caso que está investigando e trata a ralé que o cerca.

Logo no início do livro um personagem que aparentemente seria importante para a trama é retirado de cena e o Continental Op assume uma missão B, uma derivação daquele contrato que inicialmente o levou para Personville (ou Poisonville/Venenópolis, como é apelidada). E com a resolução relativamente rápida desse caso, o protagonista fica na cidade por um misto de intuição e birra. Ele sabe que há uma grande teia de corrupção que alcança muitas personalidades locais, e então firma um segundo acordo com o todo-poderoso de ‘Poisonville’, o Sr. Elihu Willsson, que no passado contratou gangues e mafiosos para ajudá-lo a se firmar como força na cidade, além de massacrar uma greve dos mineradores, mas agora se vê acossado por esses mesmos bandidos.

Para qualquer lugar que se vire, o Continental Op encontra um obstáculo, às vezes gerado pelo seu próprio cliente, que muda de ideia no meio do caminho e faz de tudo para dificultar a investigação. No decorrer desse trabalho, o autor cria uma larga trilha de mortes (com diversas armas de crime) e chega a construir uma atmosfera que beira ao horror urbano misturado com cinismo, na segunda parte do volume, levando-nos de modo cuidadoso para o final, mas soltando abruptamente o freio e fazendo com que o encerramento do drama seja literalmente explosivo e estranhamente acavalado.

O status social dessa cidade após a interferência do Continental Op é inicialmente definido pelo espanto, mas tudo indica que outra máfia está a poucos passos de assumir o controle da cidade e novos papéis sociais mergulhados na corrupção também deverão aparecer. Como diz o professor Jeha no já referido artigo, “ao contrário da história de detetive tradicional, que deposita uma enorme confiança nos mecanismos da justiça, na ficção hard-boiled essa confiança desaparece quando esses mecanismos da lei e da ordem mostram que não merecem a confiança pública. Faz-se necessário, então, um novo realinhamento da matriz de criminoso, detetive, juiz e júri”. Seara Vermelha é um livro intenso, parcialmente baseado em fatos (a luta trabalhista da obra espelha o massacre da Anaconda Road, no Montana, em abril de 1921) e tal como um bom número de obras do gênero, termina numa mistura de amargor, cômica ironia e sensação de dever cumprido.

Seara Vermelha (Red Harvest) — EUA, 1º de fevereiro de 1929
Autor: Dashiell Hammett
Publicação original: Black Mask (novembro de 1927 a fevereiro de 1928)
Edição original completa: Alfred A. Knopf
Edição lida para esta crítica: Companhia das Letras, 2002
Tradução: Alexandre Hubner
264 páginas

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