Crítica | See – 1X04: The River

  • spoilers. Leiam, aqui, as críticas dos demais episódios. 

Depois de apresentar um futuro distópico em que os humanos foram dizimados por uma praga que deixou os poucos sobreviventes cegos e que, ao longo dos anos, involuíram para um estado tribal, a nova série de Steven Knight, criador de Peaky Blinders, e que faz parte do pacote inicial de produções próprias do Apple TV+, investe na continuidade das aventuras de Baba Voss, vivido por Jason Momoa, fazendo de tudo para salvar seu filhos adotivos – que nasceram com o dom da visão – das garras de uma rainha enlouquecida. No entanto, o que The River entrega é relativamente muito pouco para uma temporada que promete ter apenas oito episódios e que é um dos principais cavalos de corrida do novo serviço de streaming.

Começando praticamente do ponto em que Fresh Blood acabou, vemos o vilarejo dos Alkenny ser invadido brutalmente por Tamacti Jun (Christian Camargo) e seu fiel exército depois de quase 20 anos de busca incessante pelos gêmeos que enxergam. No lugar de uma batalha ou de um massacre explícito diante das câmeras, o roteiro que Knight co-escreveu com Hadi Nicholas Deeb mantém tudo em segundo plano e usa de um artifício para mais uma vez demonstrar como os humanos se adaptaram à cegueira. Se no primeiro episódio o destaque foi a guerra contra os invasores do vilarejo original, no segundo a luta contra o urso e a apresentação da Sombra, e, no terceiro, a explosão de violência de Baba Voss enfrentando sozinho os escravagistas, agora foi a vez do rio do título, fazendo-me relembrar ainda mais do tenebroso Caixa de Pássaros.

Não demora e descobrimos que o líder dos Alkenny construiu uma versão em tamanho real do barquinho que os pais das crianças havia colocado em sua caixa de tesouros, o que imediatamente estabelece o desafio: como navegar o rio sem enxergar nada e, mais ainda, como fazer isso sem que os perseguidores descubram onde os fugitivos estão. Mais uma vez, o roteiro trabalha de maneira perfeitamente crível as estratégias dos dois lados, com o silêncio profundo por parte dos Alkenny sobreviventes que, claro, têm a vantagem da visão de Kofun (Archie Madekwe) e Haniwa (Nesta Cooper) e todo o tipo de provocações por parte de Tamacti Jun. São vários minutos de tensão silenciosa que faz uso magistral de uma fotografia que, ironicamente, enche os olhos. Quando a violência entra em erupção, as sequências são muito bem trabalhadas sem permitir que a narrativa esfrie e terminando de estabelecer o grupo base da temporada que, fora do círculo familiar, inclui Paris (Alfre Woodard) e Bow Lion (Yadira Guevara-Prip), que é a Sombra.

Quando a ação principal se esgota, porém, o episódio fica morno, apenas retrabalhando a dinâmica do grupo, que se divide entre aqueles que querem seguir caminho próprio e outros que preferem continuar atrás de Jerlamarel. Seria impossível imaginar que o primeiro grupo prevalecesse, claro, mas o tempo é usado também para marcar mais fortemente as personalidades opostas dos gêmeos. Haniwa é fria, sem papas na língua e convicta do quer, enquanto seu irmão Kofun é sensível, cuidadoso com o que fala e hesitante, o que não é nenhuma novidade para quem estava prestando atenção na série e que, claro, tende a ser um pouco simplista e maniqueísta demais para o meu gosto. Aliás, a temporada toda não esconde uma certa unidimensionalidade para todos os personagens, algo que não é diferente aqui em The River e que definitivamente precisa melhorar se Knight quiser fazer com que sua série vingue de verdade.

Do lado da obsessiva rainha Kane (Sylvia Hoeks), a estrutura não é muito mais sofisticada. Praticamente vemos o desfecho lógico para mais uma bola fora de Tamacti Jun, que faz com que o conselho reitere com veemência o pedido para que as tropas retornem. A diferença é que, diante da negativa feroz da rainha, os conselheiros arregaçam as mangas para eliminá-la, levando-a a tomar medidas tão extremas que parecem estabelecer o fim não só de seu reinado, como também dela mesma. Mas duvido que essa tenha sido a última vez que tenhamos Kane na série, até porque seria um grande desperdício de personagem bizarro.

The River diverte em razão da longa sequência no rio, mas não oferece muito mais do que isso em termos de desenvolvimento. See precisa acelerar o passo e trabalhar mais seus personagens para evitar que a série se torne apenas mais do mesmo, só que com quase todo mundo cego.

See – 1X04: The River (EUA – 08 de novembro de 2019)
Criação: Steven Knight
Direção: Anders Engström
Roteiro: Steven Knight, Hadi Nicholas Deeb
Elenco: Jason Momoa, Sylvia Hoeks, Alfre Woodard, Hera Hilmar, Christian Camargo, Archie Madekwe, Nesta Cooper, Yadira Guevara-Prip, Mojean Aria
Duração: 52 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.