Crítica | The Plot Against America

Presente na literatura desde pelo menos o século IV a.C., a criação de cenários de História Alternativa ou de “o que aconteceria se…” em um contexto realista atiça a imaginação e, por muitas vezes, antecipa eventos. A indústria audiovisual televisiva recente tem se refestelado nesse nicho, criando obras esperançosas como For All Mankind e, na maioria das vezes, assustadoras como The Man in the High Castle, The Handmaid’s Tale, Years and Years e outras. The Plot Against America, minissérie da HBO capitaneada por ninguém menos do que David SimonEd Burns, a mesma dupla de nada menos do que The Wire e baseada no romance homônimo de Philip Roth de 2004 publicado no Brasil com o título Complô contra a América, finca-se na segunda categoria e como uma das melhores já oferecidas.

O cenário alternativo proposto é o da derrota do democrata Franklin Delano Roosevelt em 1940, em sua terceira corrida presidencial, para o candidato republicano Charles Lindbergh que afasta os EUA da Segunda Guerra Mundial, aproxima-o da Alemanha Nazista e começa a levar o país na direção da completa xenofobia e do preconceito institucionalizado de toda sorte. Na vida real, Lindbergh nunca foi candidato à presidência, ainda que tenha havido conversas nessa linha o que, aliado ao fato de ele ter sido um herói nacional por ter feito o primeiro voo transatlântico solo (entre Nova York e Paris) e, depois, ter passado por uma tragédia pessoal com o sequestro e assassinato de seu filho no chamado Crime do Século, torna essa ideia bastante real.

E assustadora, claro. Afinal, mesmo que sua persona heroica seja a que mais se firmou ao longo da história e do imaginário popular americano, Lindbergh não só era abertamente anti-intervencionista, sendo contra inclusive a ajuda dos EUA ao Reino Unido antes da entrada do país na guerra, como, muito pior, também era xenófobo e antissemita, com declarações bastante claras nessa linha. No romance, aproveitado muito de perto pelos roteiros de Burns e Simons, Roth usa esse fio narrativo da xenofobia e do antissemitismo para pintar Lindbergh como simpatizante aberto do nazismo que começa a criar políticas segregadoras.

Mas essa é a premissa apenas. Os aspectos macro, apesar de sempre presentes e por vezes até entremeando a narrativa, ficam em segundo plano em The Plot Against America, que é focada em uma família judaica que vive em Newark, New Jersey, com o ponto de vista sendo mantido como o da “pessoa comum” sendo tragada por políticas públicas que inflamam a população contra determinados grupos e minorias, demonstrando muito claramente que pronunciamentos de líderes – sejam eles presidentes, ministros, líderes religiosos e até mesmo celebridades – tem sim o poder de abrir portas para comportamentos preconceituosos que porventura estejam enterrados lá no fundo (e muitas vezes nem tão no fundo assim) da mente de pessoas. É como uma carta branca ou uma chancela na linha de que posturas preconceituosas, agora, são a regra. Qualquer semelhança com a vida real é mera coincidência, ok?

O núcleo da família Levin é composta pelo pai, Herman (Morgan Spector), um vendedor de seguros, a mãe, Elizabeth ou Bess (Zoe Kazan), o filho adolescente Sandy (Caleb Malis) e o filho de 10 anos Philip (Azhy Robertson). São eles que foram o coração da série, com Herman sendo um trabalhador de visão socialista, orgulhoso, brigão e extremamente turrão que desde o primeiro segundo revela-se como opositor ferrenho de Lindbergh e sua esposa Bess tentando ser a contemporizadora, mas com a mesma posição anti-Lindbergh do marido, mas cuja primeira reação é recolher-se e fugir para o bem de todos que precisa proteger, ou seja, a antítese de Herman. No lado das crianças, Sandy, que se mostra um talentoso desenhista amador, é um admirador do aviador candidato a presidente para desgosto dos pais, enquanto que o pequeno Philip tenta entender exatamente o que está se passando, ficando dividido e traumatizado pelas constantes brigas internas.

A visão intimista, de dentro da para fora, é essencial para a minissérie funcionar de verdade, assim como o passo vagaroso da narrativa. Começando em junho de 1940, com o início da campanha de Lindbergh e terminando em setembro de 1942, o período coberto exige pulos temporais de meses que acontecem por episódio e que vão trazendo alterações à vida dos Levin como um pequeno recorte do que acontece na nação como um todo. É, mal comparando, como se as paredes ao redor dos Levin fossem se fechando vagarosamente, deixando-os entristecidos, enraivecidos, ansiosos e, finalmente, desesperados. O que a série tenta passar é uma sensação de impotência de “não ter o que fazer” que cria uma atmosfera claustrofóbica e tensa, em uma tentativa de mimetizar o nascimento de um regime totalitarista a partir de pontos de vista profundamente humanos, longe dos meandros políticos do próprio governo.

No entanto, os quatro Levins citados acima forma, como mencionei, o núcleo da minissérie, mas há outros personagens da família que ampliam a narrativa e criam o tentáculos que se esgueiram pelos aspectos macro da história, em uma perfeita e prática fusão de visões. Há o jovem rebelde Alvin Levin (Anthony Boyle), sobrinho órfão de Herman, que mais estourado ainda que o tio, resolver arregaçar as mangas e alistar-se para guerra via Canadá, o que leva a história muito rapidamente para o outro lado do conflito, além de o assunto voltar com força no episódio final.

Além disso, há Evelyn Finkel (Winona Ryder), irmã mais velha e solteirona de Bess que envolve-se romanticamente com o rabino Lionel Bengelsdorf (John Turturro), por sua vez não só o simpatizante de Lindbergh, mas também um líder que ativamente endossa os atos do candidato e, depois, do presidente. Esse casal representa o inocente útil sob dois ângulos. Evelyn é uma mulher já mais velha desesperada para casar e ignorante e inocente o suficiente para aceitar qualquer coisa em “troca”, o que a leva a abraçar a crescente segregação como ela é “vendida”, ou seja, como uma forma de fazer a comunidade judaica conhecer melhor a América. Lionel, por seu turno, não pode se esconder atrás da ignorância e nem mesmo da inocência, pois, como líder espiritual de toda uma comunidade que sabe o que está acontecendo na Europa, inclusive o literal arrebanhamento dos judeus, ele simplesmente não tem desculpa para fazer o que faz, com Turturro criando um daqueles personagens estranhamente memoráveis que temos vontade de pular na tela para socar.

Com uma ambientação de época cuidadosa, mas econômica, que mantém os cenários no menor número possível focando particularmente no interior da casa da família Levin e com uma fotografia de tons amarelados e pasteis que só se perdem na opulência das poucas vezes em que eventos do governo são retratados, a minissérie consegue estabelecer visualmente o medo e a sensação de um mundo cada vez menor. A vida pacata que vemos os Levins e seus vizinhos levando, com crianças despreocupadamente brincando nas ruas, conversas nas varandas entre os adultos e uma camaradagem geral vai, pouco a pouco, desaparecendo, até que, lá mais para o final, a fotografia é consistentemente mais escura e normalmente sem ninguém na rua a não ser quando estritamente necessário. O crescendo de medo a cada episódio é brilhantemente palpável, como se uma tempestade terrível estivesse se aproximando.

O elenco é outro destaque aqui. Os quatro membros da família Levin passam a sensação exata da típica família americana com suas brigas e desentendimentos, mas com uma confiança enorme de que “tudo ficará bem”. Kazan merece destaque por seu papel de Bess que oscila entre a calma e controle e a paranoia e inquietude com uma facilidade muito grande. Spector faz um Herman expansivo e irritadiço, do tipo que não leva desaforo para casa e sequer admite uma palavra que não seja de completo nojo sobre Lindbergh, de certa forma representando a polarização política radical que tanto vemos manifestada por aí. O pequeno Azhy Robertson é uma revelação como Philip, ao ponto de ser angustiante ver em seu rosto as dúvidas de uma criança que ainda não tem maturidade para entender exatamente o que está acontecendo de forma meteórica ao seu redor. Boyle e Ryder, por seu turno, parecem caricaturas na maior parte do tempo, com trejeitos e expressões faciais exageradas e que destoam da naturalidade dos demais membros do elenco ao seu redor.

Percebo também problemas com o fechamento da minissérie. O passo lento dos cinco primeiros episódios é substituído por uma sucessão de eventos um tanto atropelada no último que é, então, seguido de um epílogo que é propositalmente dúbio e talvez mais interessante do que o do próprio livro, mas que é mal trabalhado e corrido, mesmo considerando sua duração. Faltou mais cadenciamento narrativo para equilibrar a história macro com a micro, já que há também investimento em uma viagem de Herman para o interior americano que consegue extrair ótimos momentos de tensão, mas que detraem do outro lado do episódio, lidando com as grandes pinceladas.

David Simon acerta mais uma vez com The Plot Against America (ele errou alguma vez?), uma minissérie atual e urgente que, por partir da visão do homem comum sobre eventos fora de seu controle, mimetizam com muita verossimilhança diversos eventos históricos da história recente. Fica o aviso. O difícil é reconhecer os sinais e, mais ainda, fazer alguma coisa para evitar que os cenários de História Alternativa tornem-se cenários de História.

The Plot Against America (EUA, 16 de março a 20 de abril de 2020)
Criação: David Simon, Ed Burns (baseado em romance de Philip Roth)
Direção: Minkie Spiro, Thomas Schlamme
Roteiro: Ed Burns, David Simon
Elenco: Morgan Spector, Zoe Kazan, Winona Ryder, John Turturro, Anthony Boyle, Michael Kostroff, David Krumholtz, Azhy Robertson, Caleb Malis, Jacob Laval, Ben Cole, Caroline Kaplan, Billy Carter, Ed Moran, Daniel O’Shea, Orest Ludwig, Kristen Sieh, Lee Tergesen
Duração: 360 min. aprox. (seis episódios)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.