Crítica | Um Vampiro no Brooklyn

Quando Um Vampiro no Brooklyn foi lançado, Wes Craven vinha de certo conforto na indústria cinematográfica. Os filmes extremamente ruins tinham ficado no desfecho da década de 1980, sendo As Criaturas Atrás das Paredes e O Novo Pesadelo – O Retorno de Freddy Krueger dois bons resultados, em especial, a oxigenação que o diretor trouxe ao monstro dos pesadelos, cheio de garras afiadas para adentrar na década de 1990, diferente do parceiro de assassinatos Jason, literalmente no inferno depois do fracassado Jason Vai Para o Inferno – A Última Sexta-Feira 13.

Assim, Wes Craven, um ano antes de retomar o centro do cânone do terror com Pânico, arriscou-se na direção desta comédia sobre um vampiro caribenho que está focado em não deixar a sua linhagem se perder com o tempo. O leitor deve se perguntar por qual motivo, já que os vampiros são imortais, mas estamos diante de uma reversão do mito. Depois de tantas investidas na história dos monstros sedentos por sangue, criaturas que dormem em caixões e adoram os ataques durante a lua cheia, os realizadores mais contemporâneos perceberam a necessidade de mixar algumas doses de reinvenção na receita.

Com isso, temos um vampiro diferente, prévia para John Carpenter desenvolver o seu misógino filme de vampiros com toques de western, além do infame A Rainha dos Condenados, continuação de Entrevista Com Um Vampiro, dentre outras versões mais suaves, como o pueril e sexualmente ofegante Vampiros do Deserto, etc. Até vampiros que brilham como diamantes na presença da luz solar nós passamos a conhecer, mas isso é conversa para a análise de uma outra década nefasta para estas criaturas no circuito ficcional.

Na versão de 1995, temos um elenco majoritariamente negro, interpretando diálogos questionáveis e hoje talvez tratados como racistas, numa narrativa que mescla um extenso rastro de sangue com piadas bem humoradas sobre os plano do vampiro playboy sedutor interpretado por Eddie Murphy, preocupado com a extinção de sua linhagem e, desta forma, precisa adentrar a região escolhida, isto é, Nova Iorque, tendo em vista encontrar a sua amada imortal que atualmente encontra-se renascida no corpo de uma bela detetive chamada Rita (Angela Bassett), mulher firme e durona que sequer imagina ser a atual investigadora de uma série de crimes que estão sob a responsabilidade deu misterioso galanteador que começa a cortejá-la cotidianamente.

Como parceiro, Maximiliam, nome atual para o personagem de Murphy, adota o seu ghoul, o jovem Julius Jones (Kadeem Hardison), malandro em apuros que escapa de levar uma sova dos homens que lhe emprestaram dinheiro, mas deve tudo isso ao vampirão que agora o quer como “funcionário”, numa troca de favores amaldiçoada. Outro conflito da história é que a detetive começa a ser envolvida na teia de sedução do vampiro, o que coloca a vida de Justice (Allen Payne) em perigo, seu parceiro de função na investigação, pois ele se apresenta como interesse amoroso e tal iniciativa coloca os planos de Maximiliam a perder.

Preocupada, ela procura um ocultista chamado Dr. Zeko (Zakes Moake), homem que a alerta sobre a presença de uma figura sobrenatural a pairar por sua vida. Ela sequer imagina que em seu passado, há marcas de uma linhagem de vampiros, algo que será mantido em sigilo durante todo o desenvolvimento dos conflitos narrativos. Assim, seguimos adiante com a história que passeia livremente entre o horror e o humor, sem se decidir onde de fato pretende se estabelecer enquanto gênero cinematográfico. Wes Craven faz o esforço que pode, Eddie Murphy investe em seu carisma, mas a história não alcança o potencial que poderia se não fosse um roteiro tão frágil e a versão atualizada de um mito já muito recorrido pelo cinema.

Tecnicamente, Um Vampiro no Brooklyn não é um filme que apresenta problemas estruturais. Ao longo dos 100 minutos, a produção traz uma edição ágil, assinada por Patrick Lussier, responsável por montar outros filmes da franquia Pânico e assinar Drácula 2000, sob a produção executiva de Wes Craven. Mark Irwin assumiu a direção de fotografia e fez um trabalho sem grandes momentos inspirados, o que não denota falta de qualidade, apenas a “reafirmação do trivial”. J. Peter Robinson conduz a música do filme, interessante e versátil com seus arranjos e textura percussiva, mas também sem grandes momentos inesquecíveis. A direção de arte de Cynthia Kay Charette e a cenografia de Bob Kensiger cumpre bem seus requisitos, além dos figurinos de Ha Nguyen, corretos nos ajustes das dimensões físicas, psicológicas e sociais dos personagens.

Há de se observar a indecisão. Pânico mostrou que há como ser um filme de terror, tendo revestimento forte de humor e crítica ácida ao que se veicula enquanto narrativa. Infelizmente, por mais que Um Vampiro no Brooklyn tente, o filme não ofende ninguém, diverte de maneira passageira, apenas como entretenimento ligeiro, sem manter-se vivo como parte da memória quando paramos para traçar as principais obras de Wes Craven. É um filme menor, daqueles que não envelheceram bem, visto pouco mais de vinte anos depois.

Um Vampiro no Brooklyn (Vampire in Brooklyn/Estados Unidos, 1995)
Direção: Wes Craven
Roteiro: Eddie Murphy, Charles Q. Murphy, Vernon Lynch
Elenco: Allen Payne, Angela Bassett, Eddie Murphy, John Witherspoon, Kadeem Hardison, Zakes Mokae
Duração: 100 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.