Crítica | Verão de 84

“Até mesmo os assassinos em série moram na casa ao lado de alguém.”

Nostalgia às produções norte-americanas oitentistas é certamente uma marca dos nossos tempos. Com Stranger Things sendo o material mais proeminente da época atual a retomar, no presente, um passado muito único, demais também encaminharam essa mesma fórmula. Mais que qualquer outra coisa, a premissa de crianças ordinárias tendo que enfrentar ameaças bem maiores que elas interessava bastante ao cinema arrasa-quarteirões da década. Ora, todos queriam ser um Indiana Jones para as suas próprias narrativas, contudo, naturalmente, também queriam sair impunes de grandes conspirações nazistas. De, portanto, um mapa do tesouro a um alienígena procurado por entidades governamentais, o desejo por se recriar estas perspectivas alavancou força ultimamente. No caso, uma grande evidência disso é a refilmagem de It – A Coisa, trazendo para os cinemas, outra vez, uma história de mais de 30 anos atrás. Ao mesmo tempo, esse horror com o palhaço assassino corrobora a visão menos idealista de certas obras a tais tempos antigos, contrapondo as queridas desventuras da Sessão da Tarde. Na verdade, o autor de terror Stephen King, que criou o livro, optava por se distanciar de uma ingenuidade revisionista, para tratar do coming-of-age de modo desilusório. Em um mundo que não é de faz de contas, por isso, Verão de 84 aproxima-se de um saudosismo às avessas, e prefere recorrer às noções mais sombrias do passado que ao afeto.

O longa-metragem dirigido por François Simard, Anouk Whissell e Yoann-Karl Whissell rejeita uma nostalgia conformada para questionar de fato a realidade deste passado, talvez mais sombrio que o imaginado por nós. O protagonista do enredo em questão, contudo, é como qualquer jovem da época, esperando ansiosamente a sua hora de brilhar, ganhar os holofotes, tornar-se manchete de jornais e conquistar as garotas por conta disso. Então, Davey Armstrong (Graham Verchere), que sempre se interessou por grandes controvérsias, começa a achar que um assassino em série misterioso, conhecido por raptar e matar crianças e adolescentes, é justamente o seu vizinho, o policial Wayne Mackey (Rich Sommer). Assim sendo, ao invés das ameaças virem até os jovens, o contrário é que acontece, porque o protagonista une-se, nessa missão perigosa, a três de seus amigos. Pois questiona-se, em paralelo, tanto a sanidade dos meninos quanto se vale a pena arriscar-se apenas para virar assunto da escola. Os perigos de fato realistas que são propostas – não monstros, mas seres humanos – são a base argumentativa do roteiro para expor uma desconstrução identitária: para quem assistiu a tantas obras da espécie, questionar a tranquilidade com que crianças andam sozinhas até de noite sempre foi uma constante. O terceiro ato, por sinal, é competente pela quebra que possibilita – apesar de existir um quê de previsível no que acontece.

Para crianças que podem acreditar que Ewoks derrotariam o Império – como uma passagem muito boa revela -, a realidade torna-se um filme de terror, e Verão de 84 troca o gênero de aventura pelo mais assustador deles. Dessa maneira, a direção procura mesclar, em vários segmentos, tanto um ar mais instigante, que procura por pistas, quanto um ar mais aterrorizante, que antecipa possíveis resoluções macabras. Deste modo, o trio de cineastas fomenta um tom próprio e coerente, que não assume nenhum dos pontos por completo, mas os une em harmonia – apesar das consequências serem inevitáveis. A atmosfera de subúrbio, ademais, alimenta uma aura similar, pois existe tanto um aspecto convidativo na vizinhança quanto tenebroso, em vista de uma ambientação que a desertifica em momentos-chave. “Até mesmo os assassinos em série moram na casa ao lado de alguém”, comenta Davey no início da obra. Uma paranoia, por isso, é evidente, contudo, não sobre quem que é o assassino: os garotos se prendem a Mackey e continuam assim até chegarem a uma conclusão, sem digressões nesse sentido. Entretanto, a ignorância dos demais moradores do bairro, tão confortáveis  é o que incomoda, principalmente a dos pais. De certa maneira, portanto, os personagens apresentados pelo longa-metragem são inocentes perante a verdade das coisas, existente por detrás de máscaras que os vizinhos simpáticos e filmes espirituosos costumam criar. 

No entanto, tudo que é externo ao mistério da premissa comprova um roteiro aquém da coesão. Quanto mais elementos extras surgem, mais se sustenta a gratuidade deles, na maior parte das vezes desperdiçados. O mais problemático dos equívocos por parte do roteiro, entretanto, logo se revela quando a obra expande a sua visão para além da casa do policial Mackey, através dumas cenas que tratam da efervescência sexual dos meninos. Os roteiristas, no caso, não têm a menor noção de como trabalhar a personagem Nikki Kaszuba (Tiera Skovbye), interesse romântico dos garotos. Ao passo que, por uma instância, a jovem serve como a concretização de sonhos juvenis – o que comunica-se adequadamente aos paralelos entre a imaginação e a realidade -, por outro não existe motivações substanciais para a sua presença na vida do protagonista se dar. Pois Matt Leslie e Stephen J. Smith não manejam a participação de Nikki na trama organicamente. A menina, porém, caminha por meio de personalidades contrastantes – ora questiona a missão dos garotos, ora se une a eles. Assim, exemplifica-se que a sua contribuição à narrativa é errática – e não ajuda muito a timidez do protagonista, que impede uma química de rolar. Já Woody (Caleb Emery), ainda que seu intérprete seja carismático e margeie uma sincera amizade mais inocente, traz consigo um conhecimento a mais acerca de sua vida, o qual é relacionado a sua mãe, bastante desnecessário.

Tais informações adicionais acerca dos coadjuvantes, entretanto, não contribuem no sustento de um peso dramático uniforme. Por exemplo, o personagem interpretado por Judah Lewis seria um caso muito promissor de se desenvolver mediante a tese pensada pelos diretores. Por possuir uma rotina de violências – o seu irmão brutamontes o norteia -, o garoto seria, para os olhos descrentes nesses anos 80 e na violência urbana da época, o típico protótipo de marginal. Mas o roteiro não se preocupa em levar o menino para além dos estereótipos, realçando que a visão dos cineastas está alocada muito mais em um elemento central que no todo enquanto unidade. Dessa maneira, o longa aponta uma desconstrução que não denota ser intrínseca ao seu sentimento pessimista, porém, bem vaga a uma concisão temática. Nisso, até a crise envolvendo uma casa na árvore – possivelmente um dos grandes sonhos de consumo de adolescentes que assistiam a Conta Comigo e outros filmes dos anos 80 – é concluída sem grandes preparativos dramáticos. Claro que os eventos principais ainda conseguem construir uma noção medonha de que os cinematográficos saudosismos, caso concretos, não seriam tão puros quanto os destas obras de aventura. Contudo, tenta se consolidar o sentimento pelo mesmo voice-over que abre e encerra o filme, ao invés de o amarrar a minúcias desiludidas, que apenas Spielberg e outros, pelo cinema, puderam tornar reais.

Verão de 84 (Summer of 84) – EUA, 2018
Direção: François Simard, Anouk Whissell, Yoann-Karl Whissell
Roteiro: Matt Leslie, Stephen J. Smith
Elenco: Graham Verchere, Judah Lewis, Caleb Emery, Cory Gruter-Andrew, Tiera Skovbye, Rich Sommer, Jason Gray-Stanford, J. Alex Brinson, William MacDonald, Harrison Houde
Duração: 105 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.