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Entenda Melhor | Catherine Trammell: Personagens Icônicos do Cinema

Para além de famosa cruzada de pernas, uma personagem forte, representativa do pós-feminismo.

por Leonardo Campos
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Antes de versar sobre as peculiaridades de Catherine Trammell, icônica personagem de Sharon Stone em Instinto Selvagem, gostaria de introduzir na reflexão uma panorâmica abordagem sobre a importância das figuras ficcionais no âmbito de qualquer realização ficcional. Na dramaturgia, os personagens são fundamentais para o desenvolvimento da narrativa e para a conexão emocional com o público. Eles podem ser classificados de diversas maneiras, sendo uma das mais reconhecidas a distinção entre personagens planos e personagens esféricos, conforme a maioria dos manuais de roteiro, tanto de autores clássicos quanto dos mais contemporâneos. Esta é uma classificação se baseia na profundidade e complexidade psicológica que cada tipo de personagem apresenta, refletindo diferentes estratégias narrativas e estilos de construção de narrativa. Comecemos, então, com os personagens planos, aqueles que possuem características bem definidas, mas limitadas. Eles geralmente são concebidos em termos de um ou dois traços principais que não se desenvolvem ou mudam ao longo da trama. Muitas vezes, esses personagens servem a propósitos específicos dentro da história, como representar estereótipos ou desempenhar papéis secundários que ajudam a desenvolver a narrativa principal.

Uma das características mais marcantes dos personagens planos é a sua previsibilidade. O público pode facilmente antecipar suas ações e reações, uma vez que suas motivações e comportamentos são consistentes e não se desviarem do que já foi estabelecido. Exemplos clássicos de personagens planos podem ser encontrados em comédias românticas ou em histórias de aventura, onde heróis e vilões frequentemente são retratados com traços bem marcados e sem muitas nuances. A maioria dos suspenses genéricos com doses de erotismo, que vieram na onda de Instinto Selvagem, por exemplo, apresentam figuras ficcionais assim. Madonna, em Corpo em Evidência, é um desses casos peculiares. Além disso, esses personagens são frequentemente utilizados para enfatizar temas centrais da obra, pois sua simplicidade permite que a complexidade da trama seja explorada de maneira mais clara. Os personagens planos, portanto, podem ser úteis para criar um ritmo narrativo ágil, mas também podem levar à superficialidade emocional se não forem bem integrados à história.

Em contraste, os personagens esféricos, sendo Catherine Trammell um destes casos emblemáticos, são aqueles que apresentam uma rica complexidade psicológica e evoluem ao longo da narrativa. Tais personagens costumam ser de múltiplas faces e apresentam uma variedade de traços e camadas que se revelam conforme a história avança. As suas motivações são mais complexas. Eles possuem falhas, ambições, medos e desejos que os tornam mais humanos e identificáveis para o público. Uma das características mais distintivas dos personagens esféricos é a sua capacidade de transformação. Eles podem começar com um certo conjunto de crenças e valores, mas, ao longo da narrativa, passam por experiências que os forçam a confrontar a si mesmos e evoluir. E, nessa dinâmica de crescimento pessoal, permite uma conexão mais profunda com o público, que pode se ver refletido nas lutas internas e nos triunfos desses personagens. São frequentemente protagonistas em dramas psicológicos, onde a luta interna e a evolução são fundamentais para o desenrolar da história. Quando confrontam os padrões já estabelecidos na indústria, como foi o caso de Instinto Selvagem, se tornam ainda mais fascinantes e envolventes. Este é o caso de Trammell, amoral e dona de suas leis próprias.

Como exposto na análise de Instinto Selvagem, dirigido por Paul Verhoeven e escrito por Joe Eszterhas, a produção é um suspense policial com fortes doses de erotismo, narrativa conhecida por explorar temas acerca de tabus da nossa sociedade ainda hoje, três décadas após o seu polêmico lançamento nos cinemas: sexualidade, desejo e manipulação, elementos enredados pela complexa teia da personagem Catherine Tramell, interpretada por Sharon Stone. Sedutora e manipuladora, ela é a personificação da femme fatale, uma mulher sedutora e manipuladora, emblemática personagem que usa seu charme e sexualidade para enganar e controlar os homens ao seu redor. Sua persona desafiadora desafia as normas de gênero da época, ilustrando como uma mulher pode ser tanto vulnerável quanto poderosa. Catherine é uma personagem envolta em mistério e ambiguidade, com uma identidade que permanece obscura durante grande parte da trama. Este é um dos pontos instigantes do roteiro Eszterhas, pois a falta de clareza sobre suas verdadeiras intenções, bem como a possibilidade de sua culpabilidade, estabelecem situações que criam um eficiente clima de tensão e dúvida.

 A ambiguidade é uma ferramenta narrativa que provoca o espectador a questionar suas próprias percepções. O texto, ao evocar a atmosfera de Um Corpo Que Cai, dirigido por Alfred Hitchcock, coloca em cena uma dinâmica de manipulação e poder. Catherine exerce controle não apenas sobre os homens, mas também sobre a narrativa do filme. Sua habilidade de manipular a situação em seu favor mostra uma inteligência astuta. Ela utiliza a sedução como uma forma de poder, explorando as fraquezas dos homens, especialmente do detetive Nick Curran, interpretado por Michael Douglas. Além disso, a sexualidade de Catherine é um elemento central de sua personagem, que ela usa tanto como ferramenta de sedução quanto como meio de controle. Constantemente, o filme desafia a dicotomia entre sexualidade e poder, sugerindo que uma mulher pode ser ao mesmo tempo sexual e poderosa, sem se limitar aos papéis tradicionais de vítima ou submissa. A famosa cena da entrevista também desafia os limites e padrões da sexualidade feminina. Ademais, Catherine tem uma conexão temática com a morte, particularmente através de sua obra literária e suas interações com a vida e a morte dos outros. A narrativa em torno de sua vida como romancista cria uma interseção entre ficção e realidade, onde a morte e o crime tornam-se elementos atraentes para ela. Essa obsessão sugere uma complexidade psicológica que a torna fascinante e aterrorizante.

A dinâmica entre Catherine e Nick é central para a história, revelando a complexidade dessa relação. O relacionamento deles é conflituoso e cheio de tensão sexual, onde as motivações e os sentimentos reais permanecem em constante dúvida. Catherine é, ao mesmo tempo, atraente e exasperante, algo que desafia Nick em toda decisão, o que culmina em um jogo psicológico intenso, reiterado pelas imagens de Jan de Bont, acompanhadas pela textura percussiva de Jerry Goldsmith. Catherine representa a mulher moderna, independente e sexualmente autônoma, numa época em que essas características eram frequentemente menosprezadas. Ao longo das linhas de diálogo e das cenas, sua personagem desafia as expectativas sociais da mulher típica, desde sua vida sexual ativa até sua profissão como escritora. Isso provoca tanto a admiração quanto o medo nos homens ao seu redor, refletindo uma mudança nas normas de gênero e o medo masculino da sexualidade feminina. Temos também como ponto interessante na concepção da personagem, a história, centrada em um crime que Catherine supostamente comete, mas a narrativa coletiva questiona sua culpabilidade. Ao longo do filme, as percepções do público sobre o que é “verdadeiro” e “falso” mudam, refletindo a complexidade das versões da história.

Catherine se torna uma figura que desafia o conceito de culpabilidade, explorando a interseção entre sexualidade e criminalidade. A personagem de Catherine é complementada pela figura de Nick, criando um embate entre a razão e a intuição. Ele, como detetive, busca entender e controlar a situação, enquanto Catherine representa a instabilidade e o caos. Este contraste enriquece a narrativa e permite que os temas de poder e controle sejam explorados em várias perspectivas. E, ainda mais intrigante, é o clímax de Instinto Selvagem, com sua escolha narrativa que altera a percepção do espectador sobre Catherine, levando a um desfecho que provoca reflexão sobre sua verdadeira natureza. O desfecho deixa muitos espectadores questionando a identidade de Catherine e suas reais intenções, desafiando a noção de resolves. A ambiguidade que permeia sua personagem, algo desenvolvido em Instinto Selvagem 2, mas por outro prisma, mais explicito e sem a ambiguidade que tornou o primeiro filme uma trama controversa.

Analisado por diversos prismas, desde as reflexões da crítica especializada ao reduto acadêmico, em especial, pelo viés da ensaísta Camille Paglia, que possui a participação em uma edição comentada da versão especial do filme em mídia física, Catherine Trammell é associada ao que na teoria, conhecemos por um movimento chamado de pós-feminismo, conceito que emerge como uma resposta e uma evolução do feminismo tradicional, trazendo à tona uma nova perspectiva sobre as questões de gênero, identidade e o papel das mulheres na sociedade contemporânea. Diferente do feminismo das décadas anteriores, que se concentrava em questões como a igualdade de direitos, o sufrágio e os princípios fundamentais da liberdade feminina, o pós-feminismo enfatiza a individualidade, a autoexpressão e a autonomia da mulher em um contexto que muitas vezes é permeado pela cultura de massa. É um movimento que busca integrar as conquistas feministas com as novas realidades sociais, culturais e econômicas.

Um dos aspectos cruciais do pós-feminismo é a ideia de que as mulheres agora têm o direito de escolher como se expressar e quais papéis desempenhar na sociedade. Isso significa que a liberdade de escolha tornou-se uma prioridade, e as mulheres podem optar por seguir carreiras, ser donas de casa, ou ainda uma combinação de ambas. O foco se desloca, assim, da luta por direitos básicos para a exploração de como as mulheres podem usar esses direitos para explorar suas identidades de maneira mais complexa e multifacetada. Neste contexto, a figura de Catherine Trammell, segundo Paglia, torna-se emblemática do pós-feminismo. Como já mencionado aqui, ela é uma personagem sedutora, inteligente e profundamente complexa, cujas ações desafiam as normas de gênero e subvertem as expectativas do público. Por meio de sua sexualidade assertiva e de suas manipulações, Catherine não apenas incorpora os ideais de liberdade e autonomia que o pós-feminismo advoga, mas também questiona a própria natureza do desejo, da moralidade e dos papéis de gênero. Em suma, uma mulher que tem controle sobre sua vida e suas escolhas. Ela não se conforma aos estereótipos tradicionais das mulheres no cinema, que muitas vezes são descritas de maneira passiva ou como meros objetos de desejo.

Ao invés disso, Catherine é uma personagem ativa que utiliza sua sexualidade como uma ferramenta de poder. A dinâmica de sedução que ela estabelece não é apenas uma questão de desejo físico, mas também um jogo psicológico que revela sua astúcia e inteligência. Através de sua manipulação, ela consegue influenciar e controlar os homens à sua volta, transformando as relações de gênero de maneira que desafia o que foi estabelecido como convencional. No âmbito do pós-feminismo, as ações de Catherine não devem ser vistas apenas sob uma luz negativa, como uma representação da mulher que usa o sexo para sua vantagem. Embora a sexualidade tenha uma grande presença em sua caracterização, ela também reflete uma crítica social mais profunda sobre a objetificação das mulheres e a dinâmica de poder nas relações. Por meio de sua personagem, o filme explora a complexidade da sexualidade feminina e o poder que pode vir dela, estabelecendo um diálogo sobre liberdade, controle e a autonomia das mulheres. Outro ponto importante a considerar é que Catherine Trammell representa também a ambiguidade moral que caracteriza muitas heroínas do pós-feminismo.

No filme, ela é simultaneamente uma vítima e uma manipuladora, pois suas ações são muitas vezes questionáveis, levando a plateia a refletir sobre questões de moralidade e vingança. Essa ambiguidade é crucial para a compreensão do pós-feminismo, pois ressalta a ideia de que as mulheres podem ser multifacetadas e que suas escolhas não devem ser julgadas de forma simplista. Catherine não é uma heroína típica, mas sim uma figura complexa que ultrapassa os limites da representação feminina convencional. Além disso, Instinto Selvagem também ilustra como as narrativas de gênero podem ser utilizadas para explorar o desejo e a violência de maneira interconectada. A sexualidade de Catherine não é isenta de consequências, afinal, suas interações são muitas vezes marcadas por tensões emocionais intensas e conflitos que ilustram as complicações na interação entre sexo e poder. Essa abordagem ressaltada pelo filme ajuda a estabelecer uma nova forma de diálogo sobre a identidade feminina, explorando dimensões que o feminismo tradicional pode não ter abordado com a mesma profundidade.

E, por fim, a análise de Catherine Trammell como uma representação do pós-feminismo está ligada a uma nova compreensão do poder feminino nas narrativas culturais.

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