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Sagas Marvel | Empyre

por Ritter Fan
711 views (a partir de agosto de 2020)

Um dos aspectos mais interessantes de Empyre é que ela é uma saga construída em cima de dois arcos narrativos clássicos da Marvel Comics de décadas atrás. O primeiro deles é nada menos do que o mais longevo e relevante conflito intergalático do Universo Marvel, a Guerra Kree-Skrull que, em termos editoriais, teve sua primeira abordagem no arco homônimo de Os Vingadores, em 1971 e 1972. O outro é a chamada Saga da Madona Celestial que tem Mantis como alvo das atenções e que também foi publicado na revista mensal dos Vingadores entre 1974 e 1975.

Mas é claro que a Marvel não é boba e Empyre não exige conhecimento desse material prévio para a compreensão da nova saga que tem os Vingadores e o Quarteto Fantástico como principais jogadores no lado dos heróis da Terra. Não só a história consegue ser razoavelmente auto-contida, não dependendo (demais) de seus vários e inevitáveis tie-ins para ser lida, como a primeira edição das seis dedicadas exclusivamente à saga dão conta dos mais importantes eventos que levam ao conflito atual. Seja como for e, como de praxe, a editora pavimentou o caminho para Empyre com prelúdios recentes que podem ser de interesse dos leitores e que listo abaixo apenas para referência já que eles não serão objeto da presente crítica:

  • Meet the Skrulls: Minissérie em cinco edições publicada entre março e junho de 2019 que nos apresenta à família Warner, na verdade Skrulls infiltrados na Terra;
  • Incoming #1: Publicação one-shot publicada em dezembro de 2019, como “introdução” ao que será abordado pela editora no ano seguinte, no caso 2020, com pequenas e misteriosas histórias;
  • Road to Empyre: The Kree/Skrull War #1: Publicação one-shot que usa justamente os Warners de Meet the Skrulls como instrumentos que resumem tudo o que precisamos saber para entender Empyre.

É claro que a leitura de tudo é sempre o ideal (inclusive das sagas setentistas), mas a grande verdade é que basta começar por Empyre #0: Vingadores e Empyre #0: Quarteto Fantástico, que, para todos os efeitos, são consideradas partes da saga em si. Essas duas HQs introdutórias têm objetivos específicos diferentes, mas, no geral, abordam o como e o porquê do envolvimento dos Vingadores e do Quarteto Fantástico na história para além do óbvio, já que a Terra (ou, melhor, a Lua), para variar, é o epicentro da coisa toda.

A edição #0 dos Vingadores começa com Tony Stark relembrando como a guerra Kree-Skrull começou e sendo imediatamente chamado por seus colegas para a Área Azul da Lua que, para a surpresa deles, tornou-se um jardim paradisíaco graças aos esforços de Quoi, sob a mentoria da versão Cotati do Espadachim. Os dois chamaram seus antigos colegas porque precisam da ajuda dos heróis para impedir que uma armada conjunta dos Krees e dos Skrulls, agora unidos sob o comando do Imperador Dorrek VIII, mais conhecido como Theodore “Teddy” Altman, mais conhecido ainda como o híbrido Kree-Skrull, filho do Kree Capitão Marvel com a Skrull Princesa Anelle, Hulkling, destrua o lugar como parte da raiva coletiva que os dois povos sentem em relação aos Cotatis.

Área Verde da Crítica

Ficaram enlouquecidos com o que escrevi no parágrafo anterior? Pois não fiquem. Aqui vão os esclarecimentos:

  • Quoi (apelido de Sequoia) é o ser arbóreo conhecido como o Messias Celestial, filho de Mantis com o Espadachim-Cotati, que seria destinado a “mudar o universo”;
  • O Espadachim morreu há muito tempo, mas sua essência foi absorvida pelos Cotatis e ele, agora, é um Cotati em forma humana;
  • Os Cotatis são uma raça de vegetais sencientes original de Hala, planeta que dividiam com os Krees. Há milênios, os Skrulls pacifistas chegaram ao planeta e entregaram tecnologia para os guerreiros Krees – então não muito mais do que selvagens – e os pacifistas Cotatis para que eles competissem: o povo que fizesse o melhor uso da tecnologia, seria o dominante do planeta. Os Krees criaram uma mega-cidade na Lua (sim, da Terra), fundando a Área Azul que seria depois usada como lar do Vigia e os Cotatis criaram um gigantesco jardim em uma outra lua remota. Sentido-se ameaçados, os Krees não só cometeram genocídio contra os Cotatis, como exterminaram os Skrulls cientistas responsáveis pela tal competição pacifista, iniciando, então, a inimizade milenar. No entanto, claro, os Cotatis não foram completamente exterminados e se manifestaram diversas vezes ao longo da história do Universo Marvel;
  • Hulkling, membro dos Jovens Vingadores, foi coroado imperador das duas raças beligerantes, alcançando finalmente a paz entre eles.

A edição #0 de Empyre com o Quarteto Fantástico, no lugar de servir de “lembrete” sobre a partes relevantes da História do Universo Marvel e de estabelecer conexão direta com a saga, coloca a Primeira Família da editora – agora sempre com Valeria e Franklin Richards à tira-colo – em uma divertida história que os leva a um cassino espacial onde eles acabam salvando duas crianças, uma Kree e uma Skrull, que são obrigadas a guerrear entre si praticamente todos os dias. Claro que são essas duas crianças que terão papel importante em Empyre, mas isso só é visto bem lá para o final da história.

A saga em si, contada em seis edições que têm Al Ewing e Dan Slott como criadores macro, com eles se revezando nos roteiros, faz o que tem se tornado cada vez mais comum nas histórias da editora: eles pegam uma narrativa com enorme potencial cósmico e reduzem tudo a uma pancadaria padrão no planeta Terra. Considerando que Donny Cates conseguiu recentemente escrever uma mega-história cósmica dentro da revista mensal de Thor, não deixa de ser um pouco frustrante que Ewing e Slott peguem uma premissa clássica dessas e a restrinja à Área Azul da Lua e, depois, com a reviravolta de praxe, transfira o conflito para a superfície de nosso planeta.

Mas essa frustração passa logo, ainda que ela sem dúvida permanece presente lá no fundo da cabeça de qualquer leitor que deseje algo no nível de Aniquilação ou Infinito. A razão para ela desaparecer é que, apesar de resultar na pancadaria generalizada que é padrão em sagas assim, as motivações de cada lado do conflito – basicamente a vingança – assim como o envolvimento dos heróis da Terra, com destaque para os dois gênios de plantão, Reed Richards e Tony Stark, funciona muito bem. Claro que temos que aceitar algumas conveniências narrativas como o porquê do Hulkling chegar de surpresa, sem avisar ninguém e em momento algum, antes do conflito, tentar explicar exatamente o que pretende e porque está fazendo o que faz. Nem mesmo Wiccano, seu namorado – e, como é revelado, marido – sabe de alguma coisa, o que é fundamentalmente estranho mesmo considerando que Teddy está sendo assessorado pelo beligerante Super Skrull (Kl’rt) e pela traiçoeira Tanalth, A Perseguidora.

No entanto, ao longo das seis edições principais da saga, os desdobramentos mantém uma lógica estrutural boa que não foca apenas nas rinhas de galo e abordam a insegurança e a culpa de Tony Stark pelo que acontece, pois ele se sente enganado, além da relação dele com Reed que, por seu turno, assume um papel diferente mais para o final só para efeito visual, pois não faz lá muito sentido prático se pensarmos bem. Seja como for, a conexão entre eles é boa e toda a pancadaria em Wakanda – muito semelhante à que vemos em Vingadores: Guerra Infinita, aliás – sustenta bem a história e, melhor ainda, distribui com cuidado os diversos núcleos dos heróis, notadamente o Pantera Negra de um lado e Susan Richards, Mantis, Coisa e Mulher-Hulk de outro, com consequências potencialmente duradouras para Jennifer Walters.

Por mais que os acontecimentos paralelos sejam visivelmente apenas detalhes do que está sendo desenvolvido em tie-ins, há informações suficientes para compreendermos com bastante propriedade o que acontece, especialmente o que o Capitão América faz na liderança das forças pelo mundo e, claro, a crescente importância dos jovens Kree e Skrull que o Quarteto Fantástico acha no cassino espacial do prelúdio. A convergência das ações é eficiente, ainda que as “armas secretas” dos heróis caminhem perigosamente para o lado do deus ex machina ou, pelo menos, para a “super-conveniência que temos que aceitar porque acontece em todas as menos do que excelentes sagas”. A única sidequest que fica enevoada é a de Thor, pois ela não ganha explicação na saga em si e sequer nos tie-ins, pois, em razão da pandemia, o de Thor foi cancelado (mas, quem conhece um pouquinho da mitologia nórdica raiz compreenderá com facilidade o que acontece, ainda que ele seja o maior – o literal – deus ex machina de todos).

E, com tem sido regra nas sagas da Marvel, há duas edições dedicadas às consequências da pancadaria, os famosos epílogos ou dénouements que colocam os pingos nos “Is”. Não entrarei em detalhes para evitar spoilers como tenho feito ao longo da presente crítica, bastando dizer que Empyre: Aftermath Avengers #1 serve para, quase que aleatoriamente, reviver um personagem Marvel há muito morto (não, não é o Capitão Marvel) e para estabelecer o mistério sobre a origem das armas dos Cotatis e Empyre: Fallout Fantastic Four #1 contém um pulo temporal para um futuro incerto e não sabido que mostra que potencialmente o que é alcançado na saga não será duradouro (como se isso fosse uma novidade, aliás…). Em outras palavras, a saga arma potencialmente pelo menos mais uma saga em breve para lidar com mais esses desdobramentos “surpreendentes”.

A arte em geral, apesar de muito tumultuada em razão da quantidade de “jogadores”, dá conta do recado. O artista principal, Valerio Schiti, não se mostra muito interessado em painéis grandiosos ou splash pages, mas sim em preencher os espaços de maneira muito completa e detalhada, com as cores digitais de Marte Gracia que, confesso, não gosto muito por parecerem chapadas demais, funcionando razoavelmente bem para marcar as diferenças entre raças. Diria que os Cotatis talvez merecessem um tratamento um pouco melhor. Quoi até que tem uma boa aparência, mas as buchas de canhão são extremamente genéricas, faltando, talvez, a construção de uma hierarquia vegetal como a guarda pessoal de Thanos, por exemplo. O mais importante é que, mesmo com todo o frenesi, a arte consegue manter a fluidez da saga, tornando a leitura fácil, ainda que não particularmente especial.

Como suposto fim da Guerra Kree-Skrull, Empyre desaponta por não dar escala a um evento tão importante na história editoral da Marvel. Mas, como uma nova saga publicada a toque de caixa pela Marvel (todas as 10 edições aqui criticadas e todos os tie-ins que sobreviveram à pandemia saíram em meros quatro meses), ela diverte de maneira descompromissada.

Empyre (EUA, 24 de junho a 09 de setembro de 2020)
Contendo: Empyre #0: Vingadores, Empyre #0: Quarteto Fantástico, Empyre #1 a 6, Empyre: Aftermath Avengers #1 e Empyre: Fallout Fantastic Four #1
Roteiro: Al Ewing, Dan Slott
Arte: Pepe Larraz (Empyre#0: Vingadores), R.B. Silva, Sean Izaakse (Empyre #0: Quarteto Fantástico, Empyre: Fallout Fantastic Four #1), Valerio Schiti (Empyre #1 a 6)
Cores: Marcio Menyz (Empyre #0: Quarteto Fantástico – juntamente com Marte Gracia, Empyre: Fallout Fantastic Four #1), Marte Gracia (todas as edições)
Letreiramento: Joe Caramagna
Editoria: Martin Biro, Alanna Smith, Tom Brevoort, C.B. Cebulski
Editora: Marvel Comics
Data original de publicação: 24 de junho, 08 de julho, 15 de julho, 22 de julho, 29 de julho, 05 de agosto, 12 de agosto, 02 de setembro e 09 de setembro de 2020
Páginas: 285

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