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Sagas Marvel | Heróis Renascem (2021)

por Ritter Fan
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Há algum tempo, a Marvel Comics prometeu que diminuiria a frequência de suas sagas, algo que vinha acontecendo no mínimo anualmente há bastante tempo. Mas a editora, claro, mentiu. E descaradamente, diria, o que não deve ter surpreendido ninguém. Afinal, o que ela fez mesmo foi parar de chamar seus grandes eventos editoriais de sagas, batizando-os com nomes em tese menos chamativos como meramente “eventos” ou retornando à década de 70, quando eram apenas crossovers e, pior, aumentando sua frequência. Pessoalmente, não me importo muito com isso e me divirto com as sagas/eventos/crossovers, fazendo ao máximo para não perder um sequer, o que me dá uma boa ideia do status geral do universo que lia aos volumes quando ainda em tenra idade.

Heróis Renascem é a mais recente saga da Marvel, uma que, apesar de não exigir a leitura de seus tie-ins para sua compreensão (a editora tem ficado cada vez melhor nisso tenho que admitir), exige duas contextualizações para que a proposta de Jason Aaron, que capitaneou o evento, seja efetivamente compreendida. Portanto, vamos a elas, muito rapidamente (quem não se interessar por elas, basta pulá-las!):

Contextualização 1:
O Esquadrão Supremo

Em outubro de 1969, na edição #69 de Os Vingadores, Roy Thomas e Sal Buscema apresentaram sua mais recente criação, o grupo vilanesco Esquadrão Sinistro, abertamente uma sátira, um pastiche da Liga da Justiça, originalmente composto pelo super-poderoso homem nuclear Hyperion, pelo bilionário detetive Falcão Noturno, o controlador de uma joia multicolorida e extremamente poderosa Doutor Espectro e o velocista Whizzer (vou deixar em inglês mesmo para não confundir ninguém já que esse personagem já teve diversos nomes em português, inclusive Ciclone, Tufão e Corisco, além de já ter sido também Speed Demon e Blur, em inglês). Nem preciso dizer que super-heróis da DC Comics eles correspondem, não é mesmo?

Não demorou e, em fevereiro de 1971, em Os Vingadores #85, a mesma dupla de criadores adicionou uma nova personagem ao grupo, a princesa Zarda da Ilha de Utopia, mais conhecida como Princesa do Poder (um doce para dizer de quem ela é uma cópia!) e converteu a equipe de vilões em uma equipe de super-heróis – tecnicamente, não é uma conversão e sim uma outra equipe, por acaso igual à anterior, só que boazinha -, dando origem ao Esquadrão Supremo que, ao longo de décadas, foi tratado como sendo um super grupo de outra realidade do multiverso Marvel. Isso mudou com a saga Guerras Secretas (a de 2015), quando eles – juntamente com diversos outros personagens de outras realidades como Miles Morales – foram trazidos para a amálgama multiversal resultante, que é a Terra-616 que conhecemos. Também ao longo das décadas, a característica de pastiche da Liga da Justiça da equipe foi se perdendo, ainda que, lógico, seus nomes, aparências e poderes continuassem a fazer as conexões propositais com a Distinta Concorrência.

Contextualização 2:
A primeira Heróis Renascem

Lá por meados da famigerada década de 90, todos os heróis Marvel “morreram” nas mãos do vilão Massacre (na saga Massacre, que veio logo depois de outra saga, Era do Apocalipse – viu como a Marvel é era basicamente uma editora de sagas?), “acordando” em seguida em um mundo diferente, mas não tanto. Começava o mega-evento (ou saga) Heróis Renascem que durou mais de um ano entre 1996 e 1997 e que terminou com Heróis Retornam que, como o título indica, fez com que tudo voltasse a ser como antes. O mais curioso da saga, que tomou a linha editorial da empresa completamente, como se realmente o universo antigo não mais existisse (imagine uma versão ruim do Universo Ultimate tomando o lugar do universo regular…), foi que grande parte do trabalho de criação da obra foi terceirizado para ex-criadores que trabalharam na Marvel e que co-fundaram a Image Comics, notadamente Jim Lee e Rob Liefeld, que, claro, imprimiram o “estilo anos 90” de escrever e desenhar ao trabalho o que, só de lembrar, da câimbra ocular…

Portanto, é importante esclarecer que a nova Heróis Renascem não tem conexão direta com a original para além do título e das linhas bem gerais da premissa (assim como é o caso de Guerras Secretas de 2015 e Guerras Secretas de 1984/85). Até porque, o foco fica no Esquadrão Supremo de um universo em que os Vingadores nunca se formaram, criando aquela impressão de ser tudo novo e sem sequer haver um “começo” como foi o caso da saga original que começou a partir de outra. Mas, bem no estilo moderno de se fazer esses grandes eventos, a editora evitou protraí-la no tempo como na original, lidando com tudo em econômicas oito edições dedicadas (sete de Heróis Renascem e uma de Heróis Retornam, todas criticadas em conjunto aqui) ao longo de rapidíssimas oito semanas.

A crítica: 

Não sei quem teve a ideia de ressuscitar Heróis Renascem, mas a escolha de Jason Aaron para escrevê-la foi perfeita. Em mãos menos hábeis, poderíamos estar diante de outra tragédia marveliana. No entanto, o roteirista, veterano na Marvel e vasto conhecedor dos meandros e bastidores da editora, sabia muito bem o que estava fazendo e sua abordagem para a história leva em consideração tanto o que o Esquadrão Supremo foi em sua gênese quanto o que a própria saga original noventista representou para a editora. Em outras palavras, no lugar de fazer algo que se leva a sério, Aaron simplesmente mergulha fundo na sátira e no deboche e eu posso dizer que há muito tempo eu não me divertia tanto lendo uma dessas pomposas sagas que paralisam linhas editoriais inteiras com base em uma ideia tirada da cartola.

Essa ideia não é nem exatamente uma recriação de Heróis Renascem, pois a estrutura é muito mais próxima de Dinastia M, só que sem contexto, ou seja, sem todo o processo prévio que leva ao estalar de dedos da Feiticeira Escarlate. Com isso, logo quando a primeira edição começa, estamos em um universo Marvel muito diferente do que conhecemos, um em que os Vingadores não se formaram e que o maior super-grupo da Terra é o Esquadrão Supremo da América. No entanto, no lugar de uma versão mais atual da equipe, o que temos é o retorno ao que eles eram no começo, ou seja, descaradamente uma pegada brincalhona em cima da Liga da Justiça. E, mais do que isso, essa versão em particular está mais para Esquadrão Sinistro, pois o que vamos descobrindo pelas bravatas exageradas de seus membros e na medida em que descobrimos mais sobre esse mundo, é que a equipe impõe suas próprias regras, mandando para uma prisão na Zona Negativa qualquer um que se desvie um pouco dos padrões que eles determinam como aceitáveis. Chamem-nos de Esquadrão Fascista e o leitor terá uma ideia do que Aaron fez aqui.

É o exagero na proposta do roteirista que faz tudo realmente funcionar, já que é hilário ver Hyperion posando de bom moço enquanto esconde uma faceta assassina, o mesmo valendo para a Princesa do Poder e sua bebedeira constante e assim por diante. Estruturalmente, Aaron também faz algo muito interessante. Ele primeiro dá a impressão que focará em Blade, a única pessoa que sabe que “algo errado não está certo” e parte para criar sua própria versão dos Vingadores (como acontece com Wolverine em Dinastia M), somente para transformar essa narrativa em uma subtrama que fica literalmente em histórias secundárias. O destaque, portanto, fica mesmo com o Esquadrão Supremo que, na primeira edição, enfrenta uma ameaça em comum, com as cinco seguintes sendo cada uma dedicada a um dos membros da equipe na forma de spin-offs ou detalhamentos dessa luta principal da edição inaugural, retornando ao grupo apenas na sétima e última. Só para exemplificar, em Heróis Renascem #1 vemos o Doutor Espectro detectando uma ameaça cósmica vindo em direção à Terra e ele parte para enfrentá-la, algo que só efetivamente vemos acontecer na edição #4, com todas elas, em grande parte, acontecendo simultaneamente, como desdobramentos de uma grande missão. Além disso, toda as edições, menos a primeira, contam com duas histórias, uma que lida com os membros do Esquadrão e outra, secundária e de não mais do que cinco páginas, que lida com os esforços de Blade em recrutar seus Vingadores. E isso sem contar com o one-shot Heróis Retornam que nada mais é do que a oitava e última edição de Heróis Renascem, mas que ganha esse título diferente para seguir a lógica da saga original (aliás, todos os tie-ins do evento, vale dizer, são também one-shots, o que facilita muito a leitura, ainda que, para fins da presente crítica, apenas as oito edições principais tenham sido levadas em consideração) e que encerra a pancadaria de maneira competente, deixando, claro, muito espaço aberto para as consequências desse evento para a Terra-616.

Claro que, na medida em que aprendemos mais sobre esse mundo – Phil Coulson é o presidente dos EUA e ninguém é temente a Deus por lá, mas sim a Mephisto, só para ficar em dois exemplos -, mais os próprios personagens começam a também entender que há algo errado. São palavras soltas aqui e ali, personagens do universo “normal” que começam a lembrar do antes e assim por diante, com Blade vagarosamente fazendo de tudo para justamente localizar aqueles que sabem que há algo de errado acontecendo, mesmo que não entendam exatamente o que. Não é, convenhamos, um grande mistério, mas o ritmo que Aaron impõe é frenético, sem jamais perder o humor afiado e as críticas ferinas sejam aos super-heróis da Era de Ouro, seja aos EUA atuais ou qualquer outro elemento que ele consiga inserir em seu texto, incluindo as próprias sagas da Marvel e da DC Comics que são citadas constantemente de maneira enviesada e inteligente para que leitores de longa data pesquem as referências.

No departamento artístico, de forma a tornar possível que a saga saísse na velocidade vertiginosa em que saiu, a Marvel Comics providenciou um verdadeiro revezamento de desenhistas. Ed McGuinness e seu estilo heroico padrão é o artista-guia, por assim dizer, responsável pela totalidade da primeira edição de Heróis Renascem e por Heróis Retornam, além de toda a arte das histórias secundárias das edições #2 a #6 de Heróis Renascem. O mesmo vale para as tintas de Mark Morales, garantindo a unicidade visual do evento como um todo. As histórias principais das edições #2 a #6 de Heróis Renascem, porém, foram, cada uma delas, desenhada por um artista. O resultado final dessa empreitada é muito bom, com cada desenhista imprimindo seu estilo e sendo bem-sucedido na empreitada, valendo especial destaque para o sensacional e inimitável James Stokoe na edição #4 que, costumeiramente, arrasa em seu trabalho, recriando Rocket Racoon, Groot e o Vigia, que contrata a dupla para acabar com o Doutor Espectro, levando a uma pancadaria cósmica no estilo inconfundível do artista.

Sinceramente achei que Heróis Renascem seria uma bobagem sem tamanho mesmo considerando o time criativo por trás e qual não foi minha surpresa quando notei que estava completamente envolvido no texto de Aaron que costura décadas e décadas de narrativas super-heróicas em uma aventura repleta de cinismo, sátira, um fino deboche e severas críticas sociais, tudo costurado em um conjunto agradável e cômico de ler dentro da boa e velha estrutura de rinha de galo que é o padrão de 95% desses mega-eventos. Agora, sem dúvida alguma é necessário entrar no espírito da proposta, entender um pouco de onde Aaron parte e mergulhar de cabeça na pegada enganosamente simples do roteirista. Se isso acontecer, a diversão é garantida.

Heróis Renascem (Heroes Reborn – EUA, 2021)
Contendo: Heroes Reborn #1 a 7 e Heroes Return #1
Roteiro: Jason Aaron
Arte (história principal): Ed McGuinness (#1 e Heróis Retornam), Dale Keown (#2), Carlos Magno (#2), Federico Vicentini (#3), James Stokoe (#4), R.M. Guéra (#5), Erica D’Urso (#6), Aaron Kuder (#7)
Arte-final (história principal): Mark Morales (#1 e Heróis Retornam), Scott Hanna (#2), Carlos Magno (#2)
Arte (histórias secundárias): Ed McGuinness
Arte-final (histórias secundárias): Mark Morales
Cores: Matthew Wilson (#1, #2, #4 principal e todas as secundárias), Matt Milla (#3 principal), Giulia Brusco (#5 principal), Jason Keith (#6 principal), Dean White (#7 principal)
Letras: Cory Petit
Capas: Leinil Francis Yu, Sunny Gho
Editoria: Martin Biro, Alanna Smith, Tom Brevoort, C.B. Cebulski
Editora original: Marvel Comics
Datas originais de publicação: 05 de maio a 23 de junho de 2021
Páginas: 207 (Heróis Renascem) + 34 (Heróis Retornam)

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