Crítica | As Aventuras de Tintim, Repórter do Petit-Vingtième, no País dos Sovietes

estrelas 2,5

O primeiro álbum que Hergé escreveu tendo Tintim como protagonista não foi exatamente um álbum, mas sim uma coleção de tiras publicadas semanalmente no suplemento infantil Le Petit Vingtième do jornal Le XXe Siècle entre 10 de janeiro de 1929 e 08 de maio de 1930 e, depois, reunidas em formato de livro. Assim, qualquer análise dessa obra tem que necessariamente levar esse aspecto em consideração, além da relação de Hergé (Georges Prosper Remi) com o Abade Norbert Wallez, editor do jornal que lhe ofereceu o emprego de fotógrafo e ilustrador.

Wallez era conhecido por ser fascista, ao ponto de ter orgulho de possuir uma foto autografada de Benito Mussolini em sua mesa. Estamos falando do ano de 1927, com Hergé saindo do serviço militar na Bélgica e procurando emprego com aquilo que gostava: desenhar. Já trabalhando no Le Petit Vingtième, Hergé apenas ilustrava obras de terceiros e não via satisfação nisso.

A arte sequencial, naquela época, ainda estava em sua infância. Balões de fala eram ferramentas usadas de forma esparsa. No entanto, recebendo cópias de publicações americanas do repórter do jornal localizado no México, Hergé ficou fascinado com essas novas técnicas e isso acabou levando-o à criação de Tintim, um repórter que viaja o mundo acompanhado de seu simpático cachorro Milu. Sem dúvida alguma, Tintim era uma espécie de reflexo dele mesmo, misturado com o personagem Totor, também de sua criação, e seu próprio irmão.

Sua ideia era mandar o personagem para uma viagem até os Estados Unidos, mas Wallez, que já se tornara mentor de Hergé, pediu que a viagem fosse até a União Soviética, de forma que os pequenos leitores do suplemento infantil tivessem seu primeiro contato com os horrores do regime comunista. Em outras palavras, Tintim deveria funcionar como uma peça de propaganda anti-comunista marretada semanalmente na cabeça das crianças.

O tragicômico dessa relação entre Hergé e Wallez é que Hergé, então muito novo, obedeceu instruções de um admirador de um ditador para falar mal de outro regime ditatorial, um que a história provaria como um dos mais sangrentos de todos os tempos.

Mas Hergé não se fez de rogado e abraçou completamente a causa de Wallez no trabalho que fez. Os Bolcheviques são retratados como assassinos sanguinários, ladrões, espiões e tudo mais de ruim que se pode imaginar e que possa ser impresso em um jornal para crianças. A viagem de Tintim para a União Soviética já começa mal, quando ele sofre um atentado que literalmente mata todos os 216 passageiros do trem onde está. Só Tintim e Milu, claro, sobrevivem.

tintim_no_pais_dos_sovietes capaEsse começo apoteótico é apenas uma pequena amostra do que Tintim teria que passar para chegar a Moscou e voltar. Literalmente a cada duas ou três páginas ele é preso, mas, usando suas habilidades de MacGyver e, também, de lutador e mestre dos disfarces, sempre consegue escapar, tendo seu cachorro como constante aliado. Hergé faz uso constante do artifício de deus ex machina para livrar Tintim de suas enrascadas. Em uma situação hilária, para não dizer ridícula, vemos Tintim em uma prisão que fica abaixo do nível da água de um lago olhando para o lado e, de repente, encontrando um escafandro. Sim, um escafandro! Ele nem titubeia, veste o aparato, derruba a parede da prisão que dá para a água e sai tranquilamente pelas margens do lago. É um daqueles momentos WTF que só funcionam bem para crianças muito pequenas, ou talvez nem para elas. Aliás, essas situações absurdas se repetem tanto que elas acabam cansando. E é aí que sentimos mais fortemente a característica de “tira de jornal” de Tintim no País dos Sovietes.

Uma coisa é ler tiras semana a semana. Dessa maneira, a memória nos prega peças e conseguimos aceitar repetições e mais repetições do mesmo tipo de situação. Afinal de contas, a não ser gente completamente obsessiva lê a tira da semana seguinte com o jornal da semana anterior ao lado, para comparar. Por isso é que a obra de Hergé deve ter funcionado bem no formato de tiras, mas não é bem resolvida no formato álbum ou livro.

Sim, há uma história una, até bem simples: Tintim tem que sair do ponto A e chegar no ponto B e, depois, voltar para o A e, no meio do caminho, enfrenta obstáculos. Até aí, tudo bem, não há problema. A questão é que Hergé exagera nos superlativos e na capacidade do jovem repórter, ferindo a lógica do próprio universo que cria.

A arte de Hergé é também muito fraca, quase como se ele estivesse literalmente dando seus primeiros passos no desenho sequencial. E, de fato, é isso mesmo. Hergé, em 1927, pouco havia desenhado e ainda estava experimentando com a fluidez de quadros e o uso de balões. Novamente, a estrutura de tiras atrapalha esse trabalho, pois ele foi obrigado a criar situações que começavam e acabavam muito rapidamente e, mesmo assim, ainda tendo que situar o leitor “da semana seguinte” sobre o que estava acontecendo.

O uso dos balões por Hergé é quase totalmente infantil, mas também parte de sua curva de aprendizado. Cada situação que vemos é também explicada por Tintim, quase que exercendo uma função de narrador. Mesmo as situações mais óbvias são descritas por Tintim e quase que repetidas por Milu, que ganha balões de pensamento. Mas é bastante irritante ver Tintim, ao longo de 141 páginas repetir situações como as que seguem: ele se disfarça como soldado bolchevique e, no quadro em que isso acontece, ele diz “Virei um soldado dos sovietes” e, mais para a frente, amarrado a uma cadeira com Milu roendo a corda, ele encoraja seu cão com “Isso, Milu. Roa estas cordas que me imobilizam”. Seria cômico se não fosse tão cansativo.

E o interessante é que Hergé mesmo reconhece essa crueza ou “tosquidão” de seu primeiro trabalho com Tintim. Tanto é assim que, a partir de 1942, quando o autor passou a redesenhar seus trabalhos anteriores, colorindo-os e alterando traços e textos (às vezes, radicalmente), ele não fez com esse primeiro álbum, deixando-o como ele hoje se encontra. Hergé reconheceu que Tintim no País dos Sovietes não tinha salvação e preferiu não perder tempo retrabalhando sua obra.

De toda forma, o primeiro álbum de Tintim funciona como um registro histórico muito interessante de um desenhista e roteirista prolífico em seu nascedouro. Também funciona como o registro cômico de uma era de paranoia e sandices anti-comunistas que, mesmo eu, assumidamente de direita, me surpreendi muito lendo.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.