Crítica | Até o Último Homem

hacksaw

estrelas 4

Já fazia uma década desde que não víamos Mel Gibson atrás das câmeras. Na verdade, fazia tempo que não víamos o talentoso ator/diretor em qualquer tipo de projeto, dado o polêmico escândalo de suas gravações vazadas e comentários infelizes em 2010. Uma pena que Gibson tenha se metido nesse tipo de situação, já que seu trabalho artístico é valioso demais para ficar tanto tempo afastado dos holofotes. Neste ano, Gibson retorna como ator no competente filme de ação Herança de Sangue e, certamente o mais notável, na direção do épico de guerra Até o Último Homem. E tendo visto o que vimos aqui, só posso dizer que senti saudades de Mel Gibson…

A trama adapta a inacreditável história real de Desmond Doss (Andrew Garfield), e quando uso a palavra inacreditável, é no maior sentido da mesma. Doss foi um soldado na Segunda Guerra Mundial que se alistou no exército após se dar conta de todo o esforço e sacrifício que o país passava. Porém, dada sua devota crença no cristianismo e sua postura como Objetor da Consciência, Doss se recusou a portar armas durante todo o conflito, acreditando que seu dever não deveria tirar vidas, mas sim salvá-las ao atuar como médico militar. Os eventos do filme centram-se na atuação das tropas americanas em Okinawa, e a tomada do desfiladeiro de Hacksaw, uma zona crucial para dominação do território japonês.

É realmente uma história inspiradora, do tipo que é capaz de provocar diversas emoções e comover fortemente o espectador, algo que o roteiro da dupla Robert Schenkkan e Andrew Knight certamente enxerga, trazendo diálogos que sempre evocam grandes frases de efeito ou uma sequência de eventos que segue a clássica estrutura da derrota e superação. É uma narrativa simples, mas que acaba ganhando um bom texto pelas mãos da dupla, que é eficiente em contar a história de Doss desde sua infância, elaborando a origem de sua crença e sua aversão à violência, além de situar o drama de seu pai abusivo (Hugo Weaving), o romance açucarado com a enfermeira Dorothy (Teresa Palmer) e a difícil adaptação de Doss a seu pelotão.

Nesse quesito, o texto da dupla segue bem essa estrutura do filme de treinamento, com direito a um brilhante Vince Vaughn encarnando o estereótipo do “militar nervoso” de forma absolutamente memorável e divertida. Vemos também o drama de Doss sendo isolado e até agredido pelo restante de seus colegas militares em decorrência de sua crença, o que gera uma dinâmica mais agressiva com o personagem de Luke Bracey, já preparando uma satisfatória catarse que virá no campo de batalha. Essa narrativa também explora com clareza o difícil processo pelo qual Doss foi forçado a passar a fim de ter seu desejo de lutar desarmado permitido pela Corte Marcial e o Exército dos EUA.

Tudo isso ganha vida de forma explosiva e visceral pelas lentes de Gibson, que surge inspiradíssimo na criação das sequências de ação. Conhecido pelo realismo e a violência extrema de seus trabalhos anteriores, as cenas de guerra aqui são inacreditáveis. A câmera de Gibson move-se através dos campos de forma a captar cada detalhe grotesco e gráfico, sendo notável o uso impressionante de um lança-chamas durante o conflito armado – e senti-me na obrigação de mentalmente aplaudir não somente o trabalho excepcional da equipe de dublês ali, mas também a maestria da equipe de edição e mixagem de som, que mergulham o espectador no barulho e desespero do combate, marcado por metralhadoras altíssimas e explosões poderosas. Vemos corpos sendo dilacerados, tripas voando e sangue jorrando com a terra do chão, em três sequências que certamente tornarão-se lendárias, podendo facilmente serem equiparadas ao trabalho de Steven Spielberg em O Resgate do Soldado Ryan.

Ver nesse cenário verdadeiramente infernal a força de vontade e fé de Desmond Doss garante momentos realmente emocionantes, vide o belíssimo plano onde o protagonista corre em direção à fumaça cinza do campo de batalha para resgatar membros de seu pelotão. Muito disso se deve à excelente performance de Andrew Garfield, acertando um sotaque sulista complicado e entregando toda a intensidade e explosão dramática que o papel lhe requer. É notável como Garfield tenta permanecer a calma e ternura de Doss mesmo durante seu resgate insano em meio a uma zona de guerra, deixando claro ali sua postura de cuidado e preocupação com os “pacientes”. Também é divertidíssimo ver as cenas de Garfield com Teresa Palmer, onde a felicidade do rapaz de se estar em um encontro habilidosamente se equilibra com sua total inexperiência nesse tipo de situação.

Os únicos problemas do filme residem em excessos pontuais. O primeiro ato do filme, por exemplo, traz uma doçura inegável em relação ao início do romance entre Doss e Dorothy, mas Gibson aqui e ali exagera com um plano puramente épico do casal se beijando no topo de uma colina enquanto os ventos sopram os cabelos da moça. Há até alguns momentos dignos de Michael Bay, como a cena em que Doss banha-se em câmera lenta na contra luz, a fim de limpar o sangue depois do conflito, além dos simbolismos pouco sutis de Gibson, vide o plano onde Doss é carregado por uma maca e o diretor opta por um contra plongée para literalmente colocá-lo aos céus – aproximando-o de Deus e de um status literalmente divino. É algo visualmente bonito, mas que acaba um tanto anacrônico perto do festival violento das cenas de batalha; o mesmo serve para o romance, mas nesse último caso, o choque de estilos até contribui para tornar o campo de batalha ainda mais tenebroso.

Até o Último Homem marca o retorno triunfante de Mel Gibson ao grande cinema, entregando um épico de guerra comovente e que impressiona pela força de suas imagens e o poder de sua história inacreditável. Tem sua dose de excessos, mas só comprova que o cinema americano não pode ficar tanto tempo sem o talento de Gibson.

Até o Último Homem (Hacksaw Ridge) — EUA, 2016
Direção: Mel Gibson
Roteiro: Robert Schenkkan e Andrew Knight
Elenco: Andrew Garfield, Teresa Palmer, Vince Vaughn, Hugo Weaving, Sam Worthington, Rachel Griffiths, Luke Bracey
Duração: 139 min

LUCAS NASCIMENTO . . . Estudante de audiovisual e apaixonado por cinema, usa este como grande professor e sonha em tornar seus sonhos realidade ou pelo menos se divertir na longa estrada da vida. De blockbusters a filmes de arte, aprecia o estilo e o trabalho de cineastas, atores e roteiristas, dos quais Stanley Kubrick e Alfred Hitchcock servem como maiores inspirações. Testemunhem, e nos encontramos em Valhalla.