Crítica | Luke Cage Noir (2009)

estrelas 4,5

Composta até agora de 10 histórias (nove minisséries e um one-shot), a linha Marvel Noir é uma interessante, ainda que errática, proposta da editora: reinventar seu personagens em um ambiente noir e com pitadas de pulp fiction que desloca a ação normalmente para algum momento no passado e substitui, dentro do possível, os poderes dos super-heróis por algo razoavelmente mais realista. Começando com X-Men Noir em 2009, a série, no mesmo ano ganhou adições interessantes e uma das melhores até agora é Luke Cage Noir.

Diferente dos super-heróis mais extravagantes da editora, Luke Cage parece ter nascido para uma abordagem realista, como, aliás, a minissérie Cage, de 2002, deixa muito claro. A premissa é, de forma longínqua, a mesma: durante os anos da Lei Seca nos EUA, um negro do Harlem sai da prisão e tenta reconstruir sua vida, lidando com seu amigo de infância e hoje gângster Willys Striker e sendo contratado por um branco rico para descobrir que matou sua esposa. Esqueçam qualquer semblante de uniforme ou qualquer outro traço de semelhança com as histórias comuns do personagem que não sejam os nomes de alguns personagens como Lápide e Rackam. A história funciona de forma independente de qualquer conhecimento prévio sobre o herói, ainda que, claro, aqueles que o conhecem, conseguirão fazer diversos paralelos, notadamente como a clássica invulnerabilidade dele é tratada no roteiro de Mike Benson e Adam Glass.

Aliás, o trabalho da dupla é excepcional em amarrar as histórias de maneira coesa e inteligente. A volta de Cage catalisa eventos que o colocam em uma enlouquecida espiral de descobertas e vingança que ele lida sempre com semblante frio, calculando seus movimentos de forma a desbaratar o quebra-cabeças que sua ausência de 10 anos no Harlem formou. Com isso, seu passado é trazido à tona de maneira orgânica na narrativa e cada novo acontecimento remete a algo que desenvolve a trama detetivesca típica de filmes noir dos anos 30 e 40. Tenho reticências sobre o “momento eureca” ao final e sobre a forma com ele acaba sendo explicado de maneira demasiadamente otimista no clímax, mas não é algo que diminua a jornada exploratória de um Luke Cage profundamente alterado, mas não menos interessante que o original.

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Os artifícios narrativos que marcam os filmes do gênero são usados sem medo aqui, como narrativa em off, arte escurecida, muita chuva e roupas sóbrias. Mas Benson e Glass não exageram e dosam a aplicação desses elementos de maneira que as reviravoltas não pareçam forçadas ou artificiais e alcançam um bom equilíbrio entre explicação e ação, essa última sempre graficamente violenta e sem freios, por vezes até exagerada, mas de maneira que gere catarse ao personagem e, também, ao leitor.

A arte, que ficou ao encargo de Shawn Martinbrough, prolífico desenhista da Marvel, DC Comics e Image Comics, é, como eu disse, condizente com a atmosfera da proposta de Luke Cage Noir. A recriação dos personagens é sóbria, respeitosa mais ao estilo da narrativa de Benson e Glass do que à mitologia dos personagens (o único a ganhar características mais diretamente relacionadas com sua versão clássica é Lápide). Com isso, ele triunfa ao encapsular uma era em uma mistura de Cotton Club com Relíquia Macabra, sempre privilegiando o realismo. Nick Filardi, responsável pelas cores, mantém a seriedade dos traços de Martinbrough e do trabalho dos roteiristas, usando a escuridão quase como um personagem nesse Harlem dos anos 30. Mesmo as sequências que se passam durante o dia ganham tons mudos que de certa forma já imprimem o tom lúgubre da história.

Luke Cage Noir é uma excelente releitura de um personagem clássico. Uma história que definitivamente merece figurar nas prateleiras dos leitores de quadrinhos Marvel.

Luke Cage Noir (EUA, 2009)
Contendo: Luke Cage Noir #1 a 4
Roteiro: Mike Benson, Adam Glass
Arte: Shawn Martinbrough
Cores: Nick Filardi
Letras: Cory Petit
Editora original: Marvel Comics
Data original de publicação: outubro de 2009 a janeiro de 2010
Editora no Brasil: Panini Comics
Data de publicação no Brasil: outubro de 2013 (encadernado)
Páginas: 124

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.