Crítica | O Caranguejo das Pinças de Ouro

estrelas 3

Na madrugada do dia 1º de setembro de 1939, o governo nazista deu início à Operação Fall Weiss, que invadiu a Polônia e deu início à Segunda Guerra Mundial. Menos de um ano depois, em 10 de maio de 1940, a Alemanha invadiu a Bélgica (numa campanha que também subjugou a França, a Holanda e Luxemburgo), empreendendo o seu domínio por boa parte da Europa.

Sob domínio nazista, a Bélgica passou por uma completa mudança em suas publicações midiáticas, passando pela censura e pelo desaparecimento de diversos veículos de comunicação, como jornais, rádios e revistas. No meio dos veículos que foram extintos estava o Le Vingtième Siècle, jornal para o qual Hergé escrevia e desenhava as histórias das aventuras de Tintim. Por ocasião da extinção do jornal, o autor estava no meio da publicação de Tintim no País do Ouro Negro (publicado entre 8 de setembro de 1939 e 9 de maio de 1940, um dia antes da invasão nazista), aventura que se seguiu a O Cetro de Ottokar.

O problema é que com o encerramento do Le Vingtième Siècle, Hergé estava sem emprego e não tinha como concluir a história. Ele então vai em busca de um novo canal de comunicação para empregá-lo e consegue entrar para a equipe do Le Soir, um jornal de Bruxelas que o contratou para o suplemento infantil/juvenil da casa, o Le Soir Jeunesse.

Foi por isso – e também por questões políticas envolvidas na história, que naquele momento não seriam aprovadas pelos nazistas – que ao invés de voltar à história do País do Ouro Negro começada no outro jornal (história que só seria lançada definitivamente em 1950!), Hergé deu início a uma nova aventura: O Caranguejo das Pinças de Ouro. A publicação da história se deu entre 17 de outubro e 1940 e 18 de outubro de 1941.

Nessas tirinhas, o autor retorna à temática do ópio como motivo principal da investigação, um problema já abordado de maneira mais encorpada em O Lótus Azul, mas que aqui aparece quase como uma novidade, porque um novo personagem surge e dá uma cara nova a todo o enredo: o Capitão Archibald Haddock.

No sentido narrativo, é impossível não se impressionar com o avenço de Hergé. Eu já havia comentado essa evolução nos textos de Os Charutos do Faraó e O Cetro de Ottokar, mas é importante trazer novamente à tona, porque estamos falando de uma sequência de tirinhas publicadas num país dominado pelos nazistas e que havia uma presente censura nas publicações de massa, o que talvez explique a ausência de um contexto histórico evidente na aventura.

Basicamente temos Tintim metido em uma investigação de Dupond e Dupont, uma investigação que os levaria ao cargueiro Karaboudjan, onde o Capitão Haddock se enchia de uísque e o Imediato Allan Thompson, seguia traficando ópio em latas de caranguejo, uma organização chefiada pelo respeitado Omar Ben Salaad. O que se destaca no roteiro é a modificação pela qual o Capitão Haddock passa, e claro, o seu temperamento explosivo, que não se ressente em xingar a todos os que lhe tomam uma garrafa das mãos em pleno “país da sede”, como ele mesmo denomina.

As situações são engraçadas e tensas ao mesmo tempo. Mesmo faltando o genial subtexto que o autor adicionara em algumas aventuras anteriores, o leitor tem em mãos uma história bem contada e a apresentação mais que brilhante de um personagem que rivalizaria em popularidade com Tintim.

A arte também recebe um total cuidado do autor (lembrando que era um momento complicado de sua carreira, estando em um novo emprego e tendo que conquistar novos leitores num país em guerra), que representa com muitos detalhes as feiras marroquinas, o interior de algumas casas e empolgantes sequências de lutas e tiroteios. Dos pontos artísticos notáveis, temos a excelente representação de Tintim, Haddock e Milu à deriva e os quadros onde Tintim descobre o esconderijo de Allan Thompson e sua gangue. Embora não seja genial, O Caranguejo das Pinças de Ouro é uma divertida história, escrita em um momento de crise social e política na Europa.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.