Crítica | Pantera Negra de Jack Kirby (Black Panther #1 a 13)

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Após o encerramento da fenomenal série solo do Pantera Negra na revista Jungle Action em novembro de 1976, foi a vez de um dos criadores do personagem assumir as rédeas de outra série do herói. Iniciada em janeiro de 1977, a Black Panther Vol.1 teria apenas 15 edições, sendo as doze primeiras escritas, desenhadas e co-editadas por Jack Kirby e as três últimas entregues a outros artistas, com a saída de Kirby do título — ao que tudo indica, por decisão dele.

Depois que o leitor já se acostumou com a saga política, selvagem e extremamente envolvente intitulada A Fúria do Pantera Negra, fica bastante difícil pegar um material que segue outros caminhos, mesmo que seja algo criado pelo Mestre Kirby. O fato é que o artista desconsiderou linha narrativa de Don McGregorRich Buckler e grande equipe, e adotou um caminho completamente diferente para o personagem, algo que, cronologicamente (digo, do ponto de vista do herói, não de publicação), fica um pouco difícil de classificar. Tentando fazer algum sentido linear para esta fase, poderíamos considerar as seguintes características:

  1. Wakanda ainda parece estar aprendendo a tirar proveito econômico e criar seu próprio desenvolvimento tecnológico/urbano a partir da exploração do Vibranium;
  2. T’Challa parece ter entrado em contato com Mr. Abner Little para algum tipo de negociação (isso não é explicado em momento oportuno) e ficou com ele por um certo. Ele parece estar nos primeiros anos de seu contato como o Pantera Negra fora de Wakanda;
  3. Existe ainda uma fragilidade política muito grande no país (não é novidade, certo?), mas T’Challa parece muito respeitado por ter ganhado o direito simbólico de usar o manto Pantera (o direito de sangue ele já tinha, por ser filho de T’Chaka). Todavia, ele não é, nesta fase, um grande governante. Não por incompetência, mas por não ter tido assim tanto tempo como líder em sua própria terra.
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Um momento decisivo para a História de Wakanda: T’Challa luta pelo manto.

Poderíamos dizer que Kirby guiou dois grandes arcos ao longo de seu run, sendo cada arco em um ano. O primeiro, ligado aos Colecionadores (Mr. Little, Princesa Zanda, Conde Zorba, Coronel Pigman e Silas Mourner), e o segundo ligado à sua própria nação, quando ele volta para casa e enfrenta uma poderosa e descontrolada manifestação de seu meio-irmão Jakarra, que se expôs ao Vibranium em estado bruto e foi fisicamente afetado pelo metal. Em termos de organização da história, relevância para o personagem e até mesmo da arte, o segundo arco (nas edições publicadas em 1978) é o mais interessante.

Quando começamos a nossa jornada aqui, fica um pouco difícil entender o propósito geral das andanças de T’Challa com Mr. Little. A arte de Kirby — sempre grandiosa e atenta a variações inimagináveis de engrenagens, peças modificadas (como o sapo da tumba do Rei Salomão que na verdade é uma máquina do tempo) e captura de movimentos feitos em grande estilo — é um destaque por si só e certamente consegue nos prender sem maiores questionamentos. O enredo, porém, apesar de despertar a curiosidade imediata, demora bastante para mostrar a essência de uma história do Pantera Negra. Ver o personagem fora da Wakanda e sem uma boa justificativa ou melhor desenvolvimento para isso, ao longo das seis primeiras edições do volume, é um pequeno problema. Neste período de tempo conhecemos os Colecionadores e sua neurose cumulativa — muitas vezes em detrimento de vidas humanas inocentes –; conhecemos Shinzu e a Cidade Sagrada dos Samurais, com seu Cálice da Eternidade; mas falta algo… Falta África neste primeiro bloco.

À parte o pequeno período de tempo que o texto mostra Narobia (o Emirado da Princesa Zanda) o leitor atravessa maquinações e aventuras que poderiam facilmente ser protagonizadas por qualquer outro herói. E é isso que pesa bastante nessas edições do Pantera Negra de Kirby. Tanto que ao guinar o texto para os acontecimentos de Wakanda, começando com uma tentativa de golpe de Estado e passando para uma destruição do local, tudo começa a ser diferente, inclusive a participação do protagonista. Até mesmo o momento em que ele chega ao set de filmagens em pleno Saara (um tanto distante de Wakanda) já temos uma outra visão do andamento do enredo. O texto passa a usar o espaço geográfico a favor do suspense e dos possíveis mistérios em torno da aventura, algo que fica cada vez melhor à medida que o Pantera se aproxima de seu reino.

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T’Challa é convencido de que existe o “elixir da longa vida”.

Alguns leitores podem ter uma opinião pouco positiva em relação ao formato político criado por Kirby ao estabelecer a hierarquia de comando de Wakanda nesta fase. De minha parte, achei bastante coerente a forma como esse viés foi apresentado e exercido. O problema que temos aqui não envolve o governo ou sua colocação propriamente dita, mas o afastamento de dois membros da “família-líder” após as coisas com o Jakarra-Monstro serem resolvidas. Como já vínhamos de uma resolução um pouco morna do dilema dos mísseis e da relação com Zanda no arco anterior, entendemos que o autor não conseguiu encontrar o tom correto para fechar algumas janelas abertas, o que é normal, desde que existam outras coisas boas no andamento da história para compensar essas rusgas. E aqui existe, de fato.

A partir da edição #7 os desenhos de Kirby começam a ficar mais fechados, com planos que valorizam os personagens em quadros dramáticos e emotivos, não exatamente contextualizados em um grande ambiente, como foi o destaque no arco dos Colecionadores. Agora mais próximo dos personagens, o leitor consegue ligar-se rapidamente aos sofrimentos e ao horror de algumas situações, não tanto no dilema de Jakarra, mas muito quando chega o impasse com Kiber, o Cruel. Com uma diagramação mais ritmada, marcada parcialmente pela urgência de perseguições e explosões, como se estivesse desenvolvendo dramas de maior importância a longo prazo, o autor encerra (na verdade, deixa incompleto, infelizmente) a sua passagem solo por um título do Pantera Negra, justamente na chegada de T’Challa ao covil-laboratório de Kiber. Mostrando, nesta fase final, o estabelecimento e retomada de domínio do Pantera sobre seu reino, Jack Kirby nos deixa pedindo por mais coisas, imaginando como ele teria terminado tudo isso e como teria continuado a saga — agora sim, aplaudível — do glorioso líder de Wakanda.

Black Panther Vol.1 #1 – 12 (EUA, janeiro de 1977 a novembro de 1978)
Roteiro: Jack Kirby
Arte: Jack Kirby
Arte-final: Mike Royer
Cores: Dave Hunt (1), Petra Goldberg (2, 3, 12), Irene Vartanoff (4, 5, 9), Sam Kato (6, 7), Glynis Wein (8), Roger Slifer (10), George Roussos (11)
Letras: Mike Royer
Capas: Jack Kirby, John Verpoorten, Frank Giacoia
Editoria: Jack Kirby, Archie Goodwin
24 páginas (cada edição)

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O Que é e o que Nunca Deveria Ser

Black Panther Vol.1 #13

A saída de Jack Kirby da revista do Pantera Negra deixou o arco contra Kiber, o Cruel, sem finalização. A história era interessante, centrava-se em Wakanda (mas aqui, direcionou-se para outro lugar) e colocava em cena, mais uma vez, o uso de tecnologia ou super-poderes agindo em um território perigoso, como a terra de T’Challa. Coube aos roteiristas Jim Shooter e Ed Hannigan assumir a bronca e, em uma única revista, terminar a saga inicia pelo Mestre. O título Black Panther Vol.1 só duraria mais duas edições a partir daí, em uma história completamente diferente, ambientada algum tempo depois dos eventos aqui apresentados, ligando-se à trama da parte final da revista Jungle Action, concluindo na Marvel Premiere a batalha do Pantera contra o Klan.

Nesta What Is and What Should Never Be, temos a introdução da Ilha Kiber, a anexação dela pelo Pantera ao território de Wakanda e uma luta extremamente tensa do personagem contra o cientista que tinha fixação por manipulação de matéria e acabou se tornando uma espécie de avatar do filme A Bolha (versão de 1958, claro). Não há concessões diante do nível de crueldade empregada pela infame criatura e a atitude de T’Challa, ao final do arco, é mais do que compreensível. Sem fazer feio no enredo ou na arte, um pequeno novo time encerrou a jornada do Pantera Negra em um de seus retornos para casa, após um longo período fora.

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Os artistas não se isentaram de mostrar como a busca cega por qualquer tipo de poder, em qualquer tempo e sociedade, só pode acabar em desgraças e morte de muitas pessoas, a maioria delas, inocentes. A trama é claustrofóbica e guiada com bastante cuidado para mostrar justificativas e modus operandi dos dois lados, terminando com uma promessa que, se concretizada, poderia diminuir o impacto moral dos eventos da história. A sugestão de salvação dos mortos, porém, não faz mal ao roteiro, porque é apenas uma hipótese de esperança. O caminhar do Pantera Negra com uma preciosa fonte de energia das mãos nos dá a plena sensação de vingança e alegria. Um triste, mas grandioso fim.

Black Panther Vol.1 #13 (EUA, janeiro de 1979)
Roteiro: Jim Shooter, Ed Hannigan
Arte: Jerry Bingham
Arte-final: Gene Day
Cores: Francoise Mouly
Letras: Tom Orzechowski
Capas: Jerry Bingham, Bob Layton
Editoria: Roger Stern
24 páginas

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.