Crítica | Bata Antes de Entrar

Mais conhecido por suas incursões no mundo da tortura e do horror explícito, Eli Roth retornou, em 2015, com um filme que também adentra neste universo de dor e desconforto, mas desta vez, foca na instituição familiar e na tortura psicológica para efeito catártico. Funciona em partes, apesar de algumas irregularidades. Bata Antes de Entrar, refilmagem não creditada de Death Game, suspense bizarro de 1977, nos apresenta como era e como se tornou a vida do arquiteto desempregado Evan (Keanu Reeves), um homem que sofre tal como os personagens masculinos de Perversa Paixão, Atração Fatal, Instinto Selvagem, Fixação, dentre outros. E a diferença em relação aos similares está no inferno passado em sua totalidade no ambiente domiciliar, pois as presas da vez atacam dentro de casa, numa brecha deixada pela esposa e seus filhos.

Às vésperas da comemoração do Dia dos Pais, a família de Evan segue rumo à casa de praia e deixa o “papai” em casa, pois este se encontra no processo final de realização de um projeto. A noite cai, uma chuva torrencial toma o bairro e de repente, alguém bate á porta de Evan. Ao abrir, o arquiteto é surpreendido por duas belas moças: Genesis (Lorenza Izzo) e Bel (Ana de Armas). Ambas se dizem perdidas, pois supostamente não encontraram o caminho para uma badalada festa. Os figurinos e maquiagem de Elisa Hormazábal comprova isso. Inicialmente cordial, Evan as deixa entrar, usar o computador para enviar uma mensagem, bem como solicitar um táxi para levá-las de volta ao dito trajeto inicial.

O problema é que com a chuva, as moças só conseguem um transporte para 45 minutos após a solicitação. Neste espaço de tempo, eles conversam, contam histórias, elas até dançam, pois descobrem que o dono da casa era um DJ no passado. Não demora para um clima sexual se estabelecer e as duas levarem, após um golpe baixo envolvendo toques e sussurros, o “pai de família” para a cama. Tudo estaria bem e voltaria a ganhar equilíbrio se no dia posterior as duas não tivessem virado a casa abaixo e começassem a se comportar de maneira desequilibrada, alegando menoridade. E a coisa consegue ficar pior: elas retornam ao lar e começam uma perseguição monstruosa que culmina em tortura, sangue, mortes e destruição total do lar e do equilíbrio mental de Evan.

Como suspense mixado com horror, Bata Antes de Entrar funciona bem. Mas é preciso paciência e compreensão da proposta do texto de nos inquietar. É um filme estranho, feito por meio de convenções, mas aberrante e praticamente surrealista. A trama consegue representar bem o lado perverso da mente humana. Ao mesclar elementos de Violência Gratuita e Atração Fatal, a narrativa cria uma atmosfera de desconforto que precisa ser vista além da caretice do “castigo para marido traidor”. O filme consegue ir além. Um pouco, mas vai. No quesito estético, ao menos, a construção audiovisual contempla bem os elementos essenciais para o tipo de narrativa. A casa de Evan é recheada de quadros, porta-retratos com imagens da família em momentos de pura felicidade. O design de produção de Marichi Palacios, eficiente, conta com a direção de arte de Alexandre Alé na edificação da atmosfera visual, captadas pelas imagens igualmente eficientes da direção de fotografia de Antonio Quercia.

O que a equipe técnica faz é aderir, em suma, ao simulacro puro: o ideal de ambiente equilibrado é colocado em xeque com a presença das moças, responsáveis por estabelecer a desordem. A montagem é equilibrada, a música é adequada e o roteiro foge do lugar comum tão batido nas narrativas hollywoodianas, deixando espaço para o que os manuais chamam de cena obrigatória: final aberto, com múltiplas possibilidades interpretativas, que nos fazem pensar o que terá acontecido após o retorno da família ao lar destruído pelas “meninas malvadas”.

Bata Antes de Entrar é a perpetuação do olhar voyeur machista. As mulheres estão no poder, mas isso não significa que o filme as trate de maneira não estereotipada. São seres de temperamento “caliente”, sádicas, extremamente sexuais e predadoras do “pobre” coitado que só quis ajudar. Em seus 99 minutos de duração, a jornada de Keanu Reeves no universo das mulheres psicopatas incomoda muito. É um filme estranho, absurdo, praticamente surreal, mas reflete com eficiência o ambiente de psicopatia e representa, através de imagens, os desvios mais impensáveis da mente humana. Coprodução entre o Chile e Estados Unidos, o suspense de humor ácido termina com uma ironia da contemporaneidade e fecha as suas cortinas seguindo à risca o que uma religiosa pregava recentemente em um transporte coletivo: “o Facebook, assim como o diabo, veio para roubar, matar e destruir”. Assista para saber o motivo.

Bata Antes de Entrar (Knock, Knock, Estados Unidos – Chile, 2015)
Direção: Eli Roth
Roteiro: Eli Roth, Nicólas López, Gilhermo Amoedo
Elenco:Keanu Reeves, Lorenza Izzo, Ana de Armas, Aaron Burns, Colleen Camp, Igancia Allamand
Duração: 99 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.