Crítica | Cassino (1995)

Ouça-me cuidadosamente. Há três maneiras de fazer as coisas por aqui: a maneira correta, a maneira errada e a minha maneira. Entendeu?
– Ace

Fruto da parceria de Martin Scorsese com o repórter criminal e autor Nicholas Pileggi, que publicara O Homem da Máfia dez anos antes, Os Bons Companheiros é, sem dúvida alguma, um dos grandes marcos da carreira do diretor e, em muitos aspectos, seu filme mais lembrado e adorado mesmo diante de sua incrível e variada filmografia. Arriscaria até mesmo a afirmar que foi justamente o sucesso dessa produção que fez com que Cassino, a segunda parceria dos dois apenas cinco anos depois, ficasse razoavelmente esquecido nas brumas do tempo. No entanto, apesar da inescapável familiaridade temática, o ambicioso épico mafioso de Scorsese e Pileggi passado em Las Vegas, que é também a oitava parceria do diretor com Robert De Niro, é uma excepcional obra que não deixa muito a dever a seu irmão mais velho e mais reconhecido.

Assim como no caso de Os Bons Companheiros, Cassino é baseado em obra de não-ficção de Pillegi – Cassino: Amor e Honra em Las Vegas – que, apesar de pronto, como parte do acordo de produção, somente foi publicado após o lançamento do filme e, exatamente como antes, Scorsese e Pileggi trabalharam juntos no roteiro que, também como na produção de cinco anos antes, conta a história da ascensão e queda de mafiosos em uma narrativa que mistura família e amizade. O foco é na trinca formada por Sam “Ace” Rothstein (De Niro), o bandido honesto que gerencia o cassino Tangiers, Nicky Santoro (Joe Pesci), o bandido violento e estourado, amigo de longa data de Ace e que representa a máfia “chicagoense” em Las Vegas e Ginger McKenna (Sharon Stone), a estonteante prostituta golpista que acaba casando com Ace, personagens esses que são apresentados de maneira extremamente fluida juntamente com a complexa operação ilegal financeira bancada pela máfia com o uso de testas-de-ferro e dinheiro devidamente lavado.

Aliás, é um eufemismo dizer que as apresentações são feitas de maneira extremamente fluida, já que algo como os primeiros 80 minutos de projeção, com constante narração ora de Ace, ora de Nicky, são um dos mais fascinantes do cinema americano noventista e deixam evidente a habilidade de Martin Scorsese de contar uma história rica e complexa. E sim, eu falei 80 e não oito minutos, ainda que essa 1h20′ pareça mesmo passar como se não fossem mais do que 10 minutos que relatam a ascensão dos protagonistas em um emaranhado de sequências que parecem pequenas histórias ou clipes costurados em uma tapeçaria complexa, mas completamente hipnotizante e nem por um minuto confusa ou arrastada. Nesses 80 minutos, Cassino é a grande obra-prima de Scorsese, melhor ainda que Os Bons Companheiros, uma masterclass de Cinema com um estupendo trabalho de montagem não completamente linear de Thelma Schoonmaker (que trabalha com Scorsese desde Quem Bate à Minha Porta?, seu primeiro longa de ficção) casado com uma perfeita seleção musical que comenta os acontecimentos em um conjunto que lembra muito o tipo de abordagem cinematográfica que Quentin Tarantino popularizou notadamente com Pulp Fiction, do ano anterior, mas só que ainda mais sutil nos cortes e nas idas e vindas temporais e com o elenco absolutamente irretocável.

Quando a obra alcança o ponto mais alto da vida da trinca principal e suas respectivas quedas começam a acontecer, o filme também começa a perder seu frescor e seu brilhantismo. Não é que ele sequer chegue próximo a ficar ruim, nada disso, mas a segunda metade é consideravelmente menos inspirada que a primeira, ainda que seja nela que particularmente Sharon Stone tenha o merecido espaço para brilhar e para mostrar que foi para esse seu papel de Ginger McKenna, e não o de Catherine Trammel, que ela tenha nascido, com Scorsese arrancando da atriz uma performance de cair o queixo que consegue até mesmo abafar às de seus colegas de profissão nas sequências em que contracenam.

Mesmo que Scorsese faça esforço para manter o ritmo por todo o “segundo filme”, ele não consegue alcançar resultado parecido com a magistral primeira parte, o que indica que, talvez, um roteiro mais econômico na decadência de Ace, Nicky e Ginger, com possivelmente até metade da enorme duração, tivesse feito muito bem à Cassino. Ainda há muito o que ser apreciado, porém, especialmente a participação mais significativa de James Woods como Lester Diamond, o cafetão e também o vício/amor/obsessão de Ginger, e a radicalização das ações policiais, com o desmantelamento das operações mafiosas em Las Vegas, tudo baseado nos fatos reais colacionados pela extensa pesquisa de Pileggi.

Mas, independente de que parte de Cassino apreciemos mais ou menos, o trabalho de design de produção, direção de arte e de figurino do épico é absolutamente irretocável do começo ao fim. Se os ternos espalhafatosos de Ace chamam a atenção de qualquer um, trazendo até um tom cômico à história, é importante perceber como cada detalhe se encaixa e como cada figurino de De Niro ganha eco no cenário em que ele está, demonstrando uma programação visual cuidadosa e que não existe apenas para ornamentar. E as reconstruções de época são arrebatadoras, ajudando também nas viagens temporais para o presente e o passado do filme e contribuindo enormemente para manter o espectador perfeitamente localizado nessas transições seja pelo uso de automóveis específicos de cada época, seja pelos figurinos, seja pela evolução do onipresente cassino comandado por Ace, também um importante personagem na história.

Cassino pode, no seu conjunto, até ser realmente inferior a Os Bons Companheiros, mas essa percebida inferioridade é apenas relativa dentro da carreira de Scorsese, já que não seria exagero afirmar que o épico de quase três horas é mais outra obra-prima em sua filmografia e isso mesmo depois de reconhecer que sua segunda metade não tem o mesmo gabarito da primeira. Viciante em níveis diferentes do começo ao fim e com atuações irretocáveis, especialmente de Sharon Stone, Cassino aposta todas as suas fichas na opulência visual e e ganha quase todas as apostas.

Cassino (Casino, EUA/França – 1995)
Direção: Martin Scorsese
Roteiro: Nicholas Pileggi, Martin Scorsese (baseado em romance de Nicholas Pileggi)
Elenco: Robert De Niro, Joe Pesci, Sharon Stone, James Woods, Frank Vincent, Don Rickles, L. Q. Jones, Kevin Pollak, Alan King, Pasquale Cajano, John Bloom, Dick Smothers, Philip Suriano, Bill Allison, Vinny Vella
Duração: 178 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.