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Crítica | Expresso do Amanhã – 1X08: These Are His Revolutions

por Ritter Fan
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  • Há spoilers. Leiam, aqui, as críticas dos demais episódios e do restante de nosso material sobre esse universo.

Confesso que não esperava que a tão alardeada revolução de Andre Layton fosse começar a acontecer tão rapidamente. Imaginava, em minha inocência, que fôssemos ser brindados com algum tipo de preparação maior que indicasse os caminhos que seriam tomados, que desenvolvesse um pouco melhor alguns outros personagens coadjuvantes e que também abordasse os acontecimentos paralelos na Primeira Classe. Mas These Are His Revolutions veio de maneira veloz e furiosa, mergulhando direto na pancadaria e devo dizer que me surpreendi positivamente com o desenrolar de tudo.

Com exceção do ridículo banho de sangue digital – sei que custa menos usar CGI para isso, mas Expresso do Amanhã é uma série realista dentro de sua lógica e não algo como 300, de Zack Snyder, ou Spartacus, da Starz, pelo que é uma distração ver jorros de pixels vermelhos – a condução da direção de Everardo Gout nas sequências de ação é exemplar, realmente um show de planos sequência e de movimentação de câmera em espaço confinado que consegue, muito eficientemente, transpirar violência, dor, desespero, derrota e triunfo, mesmo usando artifícios como introduzir e matar uma personagem para fins unicamente de espetáculo (falo especialmente da moça com aquela marca no rosto). Sempre duvidei dessa possibilidade em uma guerra civil franca e de larga escala dentro do Perfuraneve, mas a série mostrou que, felizmente, eu estava bem equivocado.

É de se aplaudir, também, a forma como o roteiro de Tina de la Torre (baseado em teleplay dela e de Hiram Martinez) consegue ser discreto na maneira como ele guia o espectador para os meandros dos planos da revolução, começando de maneira calma, mas ao mesmo tempo tensa, com a “visita” de LJ à locomotiva, cortesia do jovem Miles e da revelação por Layton, no episódio anterior, sobre a inexistência do Sr. Wilford. A narrativa foca nas duas pontas na medida do estritamente necessário. Vemos Layton usando de sua liderança para aquecer os corações e as mentes de seus colegas Fundistas e LJ funcionando como força atrativa – talvez sem conhecimento completo do plano – dos soldados para a Primeira Classe de forma que a deposição de Melanie possa acontecer sem maiores perturbações. Quando todos percebem o que está acontecendo, já é tarde demais, ainda que a resistência de Roche e seus soldados seja formidável e destruidora, talvez bem mais do que os revolucionários esperassem considerando a estratégia à la Seven que ele usaram para “assustar” a tropa inimiga e mesmo armados de uma balestra muito bacana, mas que me pareceu um tanto quanto surgida do nada.

O drama de Melanie, finalmente desmascarada, é também muito bem executado. Afinal, se ela é quem mantém o trem funcionando, como sabemos que é, fato é que ninguém mais tem conhecimento disso, especialmente sobre o verdadeiro Sr. Wilford, praticamente, conforme a Voz do Trem diz para Ruth, um bilionário inútil e egoísta que iria usar o trem unicamente para sua sobrevivência. No entanto, o que realmente segurava o trem em pé era a mística ao redor do Sr. Wilford, essa sim construída cuidadosamente ao longo da temporada, literalmente substituindo religiões. Sem Wilford, o caos tende a reinar, ainda que, na prática, sua  existência ou não seja absolutamente irrelevante tecnicamente.

A demolição de mitos é o outro lado da moeda do episódio, algo que vemos especialmente no que se refere à Ruth, que tem o tapete sob seus pés puxado bruscamente, sem piedade. Deus está morto. De verdade (até prova em contrário). Congelado pelo frio mortal antes mesmo de embarcar em sua arca salvadora. A raiva que ela sente pela mentira mantida por sete anos quase que unicamente por Melanie é palpável, quase assustadora que reúne simultaneamente cargas de ignorância sobre como o mundo (o trem!) funciona de verdade e de ressentimento por ser enganada. Melanie, apesar de déspota, era esclarecida e efetivamente útil para o trem – essencial, na verdade -, algo que praticamente todos os habitantes da Primeira Classe (e possivelmente da Segunda) não são.

Mesmo que a revolução não tenha começado como imaginava que iria começar, fiquei feliz com a forma tecnicamente inteligente com que ela foi conduzida por Gout e de la Torre e pela escolha do showrunner em não banalizá-la com um encerramento rápido, ainda dentro deste episódio. O cliffhanger para o próximo e potencialmente ainda para o último episódio da temporada é sinal de que a sanguinolência digital ainda não acabou e que Melanie é capaz de conseguir reverter parte do panorama complicado para ela mostrando que sem sua ingerência, o trem simplesmente não aguentará mais uma volta ao mundo.

Expresso do Amanhã – 1X08: Revoluções (Snowpiercer – 1X08: These Are His Revolutions, EUA – 05 de julho de 2020)
Showrunner: Graeme Manson (baseado no filme homônimo de Bong Joon-Ho e na graphic novel O Perfuraneve de  Jacques Lob, Benjamin Legrand e Jean-Marc Rochette)
Direção: Everardo Gout
Roteiro: Tina de la Torre (baseado em história de Tina de la Torre e Hiram Martinez)
Elenco: Jennifer Connelly, Daveed Diggs, Mickey Sumner, Alison Wright, Iddo Goldberg, Susan Park, Katie McGuinness, Sam Otto, Sheila Vand, Mike O’Malley, Annalise Basso, Jaylin Fletcher, Steven Ogg, Happy Anderson, Shaun Toub
Disponibilidade no Brasil: Netflix
Duração: 48 min.

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