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Crítica | Marnie, Confissões de uma Ladra

por Ritter Fan
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Marnie, Confissões de uma Ladra, adaptação do romance de Winston Graham, publicado em 1961, era para ter sido o filme seguinte a Psicose na carreira de Alfred Hitchcock. Joseph Stefano, que escrevera o roteiro do filme que se tornaria o mais famoso do Mestre do Suspense, já havia sido contratado novamente e tinha um tratamento pronto em mãos. Foi a tentativa frustrada de escalar Grace Kelly mais uma vez – ela já era princesa na época e seus súditos rejeitaram a ideia de vê-la em um filme em que viveria uma mulher sexualmente traumatizada, além de ainda estar presa a um contrato com a MGM – que acabou atrasando tudo e fazendo o diretor focar seus esforços em Os Pássaros.

Quando Hitchcock voltou ao projeto, Tippi Hedren, que ele descobrira e por quem ficara fascinado, embarcou no elenco no papel título ao lado de Sean Connery que, por sua vez, também estava na crista da onda da fama com agenda cheia em razão dos sucessivos filmes de 007 do início da década de 60. Evan Hunter, roteirista de Os Pássaros, também foi chamado e reescreveu o texto diversas vezes, todos eles rejeitados pelo cineasta que havia se enamorado com uma cena de estupro marital que Hunter não queria/sabia escrever. Com isso, eis que Jay Presson Allen, então romancista, dramaturga e roteirista apenas muito esporadicamente para a televisão, foi chamada para reescrever tudo, mas sem ciência de que havia outras versões de roteiros, finalmente chegando ao ponto que Hitchcock queria.

A história tem elementos do primeiro terço de Psicose – Marnie (Hedren) é uma ladra, ainda que, aqui, profissional, que executa golpes rotineiramente – e muito de Um Corpo que Cai, já que o componente psiquiátrico é fortíssimo, com Marnie de certa maneira reunindo tanto as características de Madeleine/Judy com “troca de personalidade” quanto a de Scottie, que sofre de vertigem paralisante. Mas o longa em si não é, como os dois citados, um whodunit ou algo semelhante a isso, mergulhando quase que exclusivamente no trauma psicossexual freudiano da personagem titular que não só não consegue lidar com a cor vermelha e relâmpagos, como também não suporta homens em geral, passando a ser uma espécie de “projeto de vida” do milionário Mark Rutland (Connery) que a emprega sabendo quem ela é para estudá-la e também por realmente gostar dela da maneira estranha (doentia?) dele.

Também como em Um Corpo que Cai, a trama anda lentamente, com uma construção cuidadosa de Marnie que muito claramente guarda um trauma há muito tempo que ela mesma não exatamente reconhece ou lembra e que tem conexão com sua relação extenuada com sua mãe vivida por Bernice (Louise Latham). Hedren não funciona bem o tempo todo em sua personagem, revelando um pouco de sua inexperiência como atriz. Falta a ela as nuanças que Kim Novak mostrou anteriormente e não ajuda muito os artifícios quase expressionistas que Hitchcock usa para visualmente lidar com seu trauma, com flashes que avermelham a tela repentinamente, algo que, devo confessar, não envelheceu muito bem.

Mas se Hedren mesmo assim consegue se virar em seu papel, o mesmo não pode ser dito de Connery que deixa sua limitação dramática transparecer muito claramente neste papel que exige mais camadas do que sua canastrice habitual. Primeiro, ele faz algum esforço para esconder seu sotaque natural, mas falha terrivelmente nessa tarefa. Segundo, ele não consegue sair de seu James Bond (de certa forma, compreensível, já que no mesmo anos ele estrelou Goldfinger, depois de Dr. No e Moscou contra 007 nos dois anos anteriores) completamente, mantendo poses e caras e bocas que causam muito estranhamento. Terceiro – e ainda na esteira do estranhamento – a equipe de maquiagem aplicou algo em seus olhos que tornam os closes muito estranhos a ponto de conseguir distrair.

A grande verdade, porém, é que o estudo de caso – vamos classificar assim – é sem dúvida intrigante e bem desenvolvido, com uma temática difícil de ser retratada em tela e que Hitchcock faz de maneira elegante por quase todo o tempo, mesmo que por vezes exagere no didatismo como a sequência em que a câmera foca no dinheiro dentro do cofre de Rutland ou toda a cena da caçada que não só parece deslocada, pouco contribuindo para a história em si, como deixa a desejar em termos técnicos. Sua elegância está em manter o foco majoritariamente em Marnie, mas sem deixar de incomodar o espectador como os melhores filmes fazem. A sequência de estupro marital que Hitchcock tanto queria manter é, por mais desconcertante que naturalmente seja, abordada sobriamente, com um corte inteligente e com consequências imediatas pesadas (que de certa forma acabam se perdendo, mas tudo bem).

É estranha também a obsessão de Mark com Marnie, como se ela fosse um hamster que ele “compra” para fazer experiências. Há um pouco de manipulação macabra que se encaixa bem na filmografia de Hitchcock, mas que é mais saliente aqui, inclusive com a utilização de conceitos psiquiátricos hoje certamente mais conhecidos, com Mark fazendo as vezes de especialista, o que, novamente, é estranho, mas que temos que aceitar para o filme funcionar.

Marnie, Confissões de uma Ladra é, como todos os cinco filmes que seguiram Os Pássaros, parte da “filmografia esquecida” de Alfred Hitchcock que marca sua estirada final, mas, dentre todos esses, é de longe o mais complexo e o mais ousado, além de ser também o mais perturbador. Não é de fato uma obra-prima em razão de um elenco principal que deixa a desejar e de escolhas estilísticas estranhas do cineasta, mas sem dúvida é uma obra que merece mais atenção do que recebeu e até hoje recebe.

Marnie, Confissões de uma Ladra (Marnie, EUA – 1964)
Direção: Alfred Hitchcock
Roteiro: Jay Presson Allen (baseado em romance de Winston Graham)
Elenco: Tippi Hedren, Sean Connery, Diane Baker, Martin Gabel, Louise Latham, Bob Sweeney, Alan Napier, Mariette Hartley, Bruce Dern, Meg Wyllie, Kimberly Beck, Melody Thomas Scott
Duração: 130 min.

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