Fora de Plano #63 | Um Grito Que Ainda Ecoa: a Obra-Prima de Edvard Munch

Exposta na Galeria Nacional de Oslo, a famosa pintura O Grito, de Edward Munch é parte de uma série de quatro obras que representam a mesma figura andrógina num momento peculiar de tormento e dor. Em seu plano de fundo, a doca de Oslofjord serve como indicativo do pôr-do-sol e chegada da noite, angustiante para alguns. É uma imagem com amplas possibilidades interpretativas e com força ainda no contemporâneo, pois o tempo é outro, mas os nossos conflitos pessoais e sociais são muito semelhantes desde sempre. Assim, uma pergunta se estabelece: qual o legado desta pintura para a história das artes e de suas respectivas sociedades? Para uma compreensão mais abrangente da pintura, torna-se importante conhecer algumas peculiaridades biográficas de Edward Munch, artista que nasceu na Noruega em representa traços do Impressionismo e do Expressionismo alemão. Com um pai extremamente controlador e a morte de sua mãe quando tinha apenas cinco anos, o jovem rapaz cresceu diante de suas próprias “assombrações”. Munch estudou na Escola de Artes e Ofícios de Oslo e desde jovem sempre abordou reflexões sociais em suas produções.

Em O Grito, datado de 1893, o pintor delineou, dentre tantos temas, a transitoriedade da vida, envolta em angústia e desespero, sentimentos que coadunam com as palavras-chave de seu interesse, tais como a solidão, melancolia, os mistérios da morte e as forças oriundas da natureza. As interpretações são múltiplas. Há quem diga que seja uma representação medo irracional diante e durante um pesadelo. A figura sem cabelo, pincelada por cores frias, aparenta saúde física e mental caótica, algo visualmente memorável de tão assustador e intrigante. No que tange aos elementos semióticos, O Grito é uma pintura com cores intensas, associadas entre si de maneira semelhante aos traços estéticos do expressionismo, tendo ainda algumas ressonâncias de Van Gogh, Toulouse-Lautrec e Gauguin. Diante de um observador que contempla a sua sensação de pavor, as linhas são longas e sinuosas compõe os espaços em torno da figura central, a reverberar o seu estridente grito, espalhado por todos os cantos do quadro, tomado pela emanação do grito de socorro e um plano de fundo que representa a distorção do mundo. Em suma, um quadro permeado pela dor e angústia, interpretação cabal das ondulações em tons vivos e sombrios, tal como um espelho deformado, escolha estética que nos leva ao tema da angústia.

As características apontadas são pontos específicos da arte expressionista, fervilhante na transição dos comportamentos e correntes artísticas da virada dos séculos XIX para XX. Há uma constante aversão ao tecnicismo nesta época, período das imagens distorcidas, cores compartimentadas, gosto pelo trágico e sombrio, aderência ao que é chocante e polêmico. As dores e sensações humanas são constantemente representadas nos dramas pictóricos de artistas da época, juntamente com a abordagem psíquica das emoções, tal como Edward Munch. Os cineastas fazem isso hoje, mas com os seus filmes. A sua técnica explosiva, com dinamismo abrupto e com espaço para improvisações nos lembra o que Wes Craven e Kevin Williamson fizeram nos quatro filmes da franquia Pânico, universo que possui os seus antagonistas claramente inspirados na figura andrógina de O Grito, título original dos filmes que acompanham a saga de Sidney Prescott (Neve Campbell), sempre em combate com o Ghostface da vez, numa trajetória que expõe as dores e angústias de sua trágica existência enquanto heroína de um conjunto de histórias imersas em sensações que estiveram com Edward Munch em seu processo produtivo guiado pela melancolia, luto, etc.

O nome, por sinal, veio das reportagens e críticas da época. O título original da obra é Skrik. Reconhecido em vida, Munch fez várias versões e consegui torna-las um produto para venda. A possibilidade de litografar em 1900 permitiu que a obra alcançasse mais pessoas, numa entrada na era da reprodutibilidade técnica que possibilitou a sua permanência no imaginário social e cultural ainda nos dias atuais, com versões paródicas em Andy Warhol, na animação Looney Tunes, na Família Simpson, em charges e reportagens da mídia, inclusive na Times e sua famosa matéria sobre complexos de culpa e ansiedade. Na arte pop de Warhol, a figura ganhou uma releitura típica do artista que transformava o seu ponto de partida num festival de cores e tons, característicos da cultura pop de sua época. Conhecido por seu gênio criativo, o artista readaptou Marilyn Monroe, Elvis Presley, flertou com a imagem de James Dean, exaltou Madonna nos anos 1980 e também recorreu ao arcabouço da arte moderna para refletir sobre as questões do momento estético em que esteve mergulhado, sendo o ser andrógino de Edward Munch um dos escolhidos.

Pernalonga e Patolino se esbarraram com a angustiada figura dentro de um museu na versão live-action com Brendan Fraser. Arte da reprodutibilidade e da retomada de conceitos, adornados por novas significações, a cultura pop também tomou O Grito e o expôs no famoso episódio A Casa do Horror IV, da série Os Simpsons, exibido em 1993. Além da sátira acerca do roubo da obra, caso real, os personagens dialogam brevemente sobre a composição e legado de Munch. Os Feiticeiros de Waverley Place, produção do Disney Channel, toma “personagens” do quadro e o colocam diante da realidade para que respondam um teste. São referências muito interessantes. A escolha da franquia Pânico como produção para estabelecimento de uma leitura comparada, no entanto, é a busca desta reflexão para a seguinte responder a seguinte pergunta: o grito de Munch ainda ecoa?

Ilações Contemporâneas: Wes Craven, os filmes de terror, a nossa sociedade e a atualidade em O Grito

Tratado como retomada do slasher, gênero enfraquecido com a exaustão dos filmes de terror dos anos 1980, Pânico revitalizou a carreira de Wes Craven e colocou Kevin Williamson nos holofotes da produção cinematográfica industrial. O filme foi um sucesso merecido de crítica e bilheteria, haja vista o roteiro bem construído, o desenvolvimento dos diálogos e seus personagens, trilha sonora imersiva, direção de fotografia e design de produção cuidadosos e conectados com o tema da narrativa, além da metalinguagem que o tornou referência absoluta da cultura pop. O traje do antagonista é uma roupa que mescla o que se tem em mente da morte na cultura popular, juntamente com alguns traços da figura andrógina de Edward Munch em O Grito. Como a narrativa se chama Scream, a aproximação do universo da pintura é uma possibilidade pelo viés da literatura comparada, afinal, não vamos forçar a barra e dizer que os filmes da franquia são inspirados na pintura. O que se faz aqui é a comparação de contextos e a repetições de temas no bojo da produção cultural. Nos desdobramentos de Pânico, os personagens mesclam luto, dor, angústia e outros sentimentos expressados por seus gritos vibrantes de horror, tal como a figura de Munch em seu quadro.

O melhor capítulo da franquia nos apresenta Sidney Prescott em um ambiente novo. Depois do massacre de Woodsboro, a heroína agora é uma estudante universitária que luta para esquecer a dor e o sofrimento dos acontecimentos anteriores: a perda de sua mãe, seguida do namorado e amigo psicopata, a morte de seus amigos e outras tragédias sem precedentes em sua vida. Envolvida no teatro da instituição, Sidney interpreta Cassandra, personagem incompreendido ao longo da vasta história da tragédia grega. A estreia do primeiro filme inspirado nos assassinatos de Woodsboro reacende os olhares da mídia diante da sua trajetória de luta. Um assassino, talvez dois, circunda o ambiente universitário disposto a tirá-la de seu conforto. Novos amigos perdidos, falta de confiança, imersão nas incertezas do contexto angustiante tornam a sua aflição gritante e reverberante em cada frame do filme, tal como o grito da figura andrógina de Munch se espalha pelo quadro. Pânico 2 é um filme sobre como o trauma e a morte podem ser inspiradores para a sociedade do espetáculo e suas reportagens sensacionalistas que escorrem sangue. Visualmente empolgante, a trama aborda falsas esperanças, um feixe de luz diante da escuridão do ambiente, cores vibrantes em contraponto ao estado de espírito da personagem, temas presentes, respectivamente, em Ciúme, Amor e Dor e Melancolia, pinturas de Munch realizadas em 1895, 1984 e 1892.

A história de Sidney Prescott já tinha se tornado material para cinema na produção anterior. Com o sucesso, agora é uma franquia voltada aos crimes de Ghostface. Novos gritos e mais sangue transformam o único episódio irregular da franquia num terreno fértil para discussão da ressonância negativa que a mídia pode ter na vida de pessoas que após terem as suas tragédias transformadas em espetáculo, lutam para voltar para uma zona pacífica de suas existências e recobrar o que lhe foi tirado de maneira violenta. Situado em Hollywood, o filme traz o trio principal para novas emoções numa sociedade de pessoas corrompidas pelo poder e glória. A família continua como a base de tudo, afinal, a morte de Maureen Prescott e seu passado nos estúdios de Facada 3 é o que rege os acontecimentos do filme. Um filho em luto, uma filha que não tem culpa de nada que lhe foi atribuído como desdobramento do destino. Em Pânico 3, a dor e a angústia muitas vezes expressados pelos gritos entoados pelos personagens escalados para morrer, em manifestações sonoras que também são expressadas pela protagonista, exausta de ser parte do ramo apodrecido desta vinha narrativa.

No desenvolvimento de Pânico 4, Kevin Williamson voltou para os bastidores e assumiu o roteiro do filme que capitaliza, de maneira muito sábia, os possíveis horrores de um mascarado na era dos aplicativos, redes sociais e outros avanços da cibercultura. Sidney decide voltar ao local de onde saiu, Woodsboro, palco de encenação do espetáculo de sangue do primeiro filme. A sua chegada desperta outros psicopatas, responsáveis por promover um festival de mortes, todas em torno de sua estadia para lançar um livro que conta como venceu as dores e traumas do passado. Sidney, sem conseguir escapar do luto, continua a “gritar”, mesmo que silenciosamente, numa busca por fugir do obscurantismo de sua vida cheia de cicatrizes físicas e psicológicas: perdeu tragicamente a mãe, assistiu a morte de amigos e outras pessoas queridas, além de não encontrar a paz tão necessária depois de tantas atribulações. Audacioso, o filme é comprovação de tantas coisas, dentre elas, a relevância da franquia quando assumida pela dupla formada por Craven e Williamson, além da reiteração das angústias e temores da época de Munch ainda na contemporaneidade. Os gritos dos personagens de Craven dão continuidade aos vibrantes sons ecoados pela figura do pintor, ainda reverberados na sociedade atual. O contexto é outro, mas as ansiedades e disfunções são basicamente as mesmas.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.