Crítica | Cavaleiro da Lua: Dos Mortos (Vol.7 – #1 a 6)

estrelas 5,0

Novamente em Nova York, Marc Spector deixou o clima relativamente leve e cômico da Los Angeles de Brian Michael Bendis e Alex Maleev e retornou, em seis pequenas e heterogêneas histórias contadas pelo peculiar Warren Ellis, ao tom introspectivo e insano do submundo da vigilância. Combatendo da máfia até fantasmas e cogumelos gigantes, o Cavaleiro da Lua, aqui repaginado neste volume 5 com terno e gravata, protagoniza uma das melhores obras da Totalmente Nova Marvel, muito pela aposta em um escopo pequeno capaz de mostrar o talento minimalista de Ellis e a brilhante arte sequencial do pouco conhecido Declan Shalvey.

O presente Cavaleiro da Lua continua com sua perturbação e breguice características. Felizmente, porém, ganha novo fôlego nesta edição, distinguindo-se da obra de Bendis por abordar a personalidade tão característica do vigilante como fato dado e já internalizado. Nada há de menções aos heróis da Marvel, muito menos grandes reações de coadjuvantes que pudessem realçar o absurdo da situação de um herói que vai combater o crime de terno todo alvo. As seis edições roteirizadas por Ellis vão direto ao ponto e ignoram qualquer costura de arcos da qual Bendis é tão afeito. Uma mera primeira página explica quem é o personagem para o desavisado leitor. A arte, logo em seguida, dá o verdadeiro tom daquilo que se está prestes a ler.

moonknight

Convicto de sua atitude ao chegar em uma limusine branca no local sujo e escuro do crime, o Cavaleiro da Lua, ou melhor, Sr. Da Lua, traz muito mais investigação do que ação desenfreada nas seis edições – ainda que haja muita ação. A dupla criativa dita a narrativa conseguindo criar um personagem cuidadoso, meticuloso e sagaz o suficiente para encarar sua loucura de frente, o que traz certo alívio e prazer ao leitor por ver uma história limpa, clássica do gênero, até certo ponto, e respeitosa ao personagem, sem estabelecer o foco neste transtorno de Spector que poderia gerar uma repetição cansativa e desnecessária.

A primeira edição é um show de cooperação entre Ellis e Shalvey. Uma narrativa extremamente rústica, de um ponto geral, com poucas e precisas linhas de diálogo, que deixam nos contrastes das cores de Jordie Bellaire e na sensacional arte sequencial de Shalvey o real sentido da história. Como apresentação do novo estilo empregado, a edição #1 é um primor, principalmente pelo design escolhido pelo desenhista para inovar e demonstrar, detalhadamente, seja em quadros maiores, pela postura altiva, seja em menores, onde se enxerga a habilidade e o manejo do combatente, no que o Sr. Da Lua se distingue dos demais Cavaleiros da Lua vistos até aqui.

O toque de loucura, dado pela linha narrativa escolhida, além de se encaixar no personagem historicamente, consegue impedir que se caia na armadilha do protagonista “maluco beleza”. A escuridão psicológica de Spector contribui para manter os pés no chão e não desvirtuar o herói, mas é a cuidadosa forma de contar cada história que faz de Ellis um mestre. Ao incutir na forma os traços mais próprios da mitologia do herói, o autor estabelece uma intensa fluidez narrativa, fazendo de sua passagem uma obra de claro propósito e conteúdo. Ainda que sem muita pretensão – ou nenhuma – o autor inglês abusa da variação de temas em cada aventura. A segunda edição – confesso ser a minha favorita – mistura uma exposição descontinuada da história com uma formatação ousada de quadros, que quase beira duas páginas seguidas em branco, para em seguida dar espaço, novamente, à arte sequencial que mais se assemelha a uma aula sobre cenas de ação. Sem grandes vilões, sem grandes sagas, sem grandes projetos – ainda que com uma sutil crítica social ao final – Ellis e Shalvey parecem dominar os aspectos de Spector oferecendo muito em criatividade.

mooonknight

Não à toa o misticismo e o psicodelismo – com o brilho de Bellaire – das edições #3 e #4 mantêm a qualidade, ainda que incidindo sobre noções tão diversas e tramas tão diferentes, mesmo dizendo respeito à linha sobrenatural presente nas hqs passadas. A “normalidade” volta com a edição #5, uma espécie de longo plano sequência, destes mais vistosos que só aparecem nas mãos dos melhores diretores de ação. É Shalvey dignificando a narrativa de Ellis, que prudentemente enxerga a hora de recuar e de atacar com seu texto ácido. O escritor precisa de poucas linhas para transformar e polir uma simples história.

O trabalho do autor de Homem de Ferro: Extremis aqui é facilmente devorado em minutos, merecendo releituras diversas, mesmo que não envolvam as famosas camadas de complexidade dos grandes ícones desta mídia. O Cavaleiro da Lua de Ellis está mais para uma minicurso elitizado de como lidar com revistas do gênero. Com sensibilidade, mas sem frescura.

Cavaleiro da Lua vol. 7 #1-6
No Brasil: Cavaleiro da Lua #1 Dos Mortos
Roteiro: Warren Ellis
Desenhos: Declan Shalvey
Cores: Jordie Bellaire
Editora: Marvel Comics
Páginas: 132

ANTHONIO DELBON . . . Ressentido como Vegeta, não suporto a beleza nos outros. Escondo minhas taras em falsas profundidades e não titubeio em dizer um taxativo não aos convites para experimentar os gostos do mundo. O mundo tem gostos demais, livros demais, críticas demais. Escrevo porque preciso – viver, não sobreviver - e viajo fluidamente sem sair do lugar. Na madrugada, nada melhor do que a guitarra de Page ou a voz de Yorke para lembrar da contingência do pó, ainda que nossa tragicômica vida mereça ser mantida, seja por distração ou por vício, como diria Cioran.