Crítica | Sin City: Vol. 4 – O Assassino Amarelo

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estrelas 5,0

An old man dies, a little girl lives. Fair trade.

O Assassino Amarelo (That Yellow Bastard) é a quarta graphic novel de Frank Miller da aclamada série Sin City a ser publicada, mas, em termos cronológicos, é a que acontece primeiro. Ela começa com Nancy Callahan, a dançarina exótica que vemos fazendo ponta em A Cidade do Pecado e A Dama Fatal, com 11 anos de idade e vai até um pouco antes dos eventos envolvendo Dwight em A Dama Fatal (mais precisamente, logo depois de Ava deixá-lo). Além disso, O Assassino Amarelo é a terceira grande história adaptada para o cinema no longa-metragem de 2005, entrecortando-se com as desventuras de Marv e de Dwight dos volumes 1 e 3.

Situada temporalmente a narrativa, vale lembrar que Frank Miller introduz duas novidades em O Assassino Amarelo.

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O suplício de Hartigan.

A primeira delas é a criação e utilização de um personagem completamente honesto e com moral inabalável. Se Marv era um ex-condenado durão com sérios problemas psicológicos e Dwight um homem que foge de seu passado e é predisposto a ter ataques de fúria, John Hartigan, com uma cicatriz de cruz cortando o rosto, é o protótipo do policial com reputação ilibada e extremo compasso moral que, literalmente faltando uma hora para sua aposentadoria por invalidez em razão de seu problema de coração, não hesita em ir atrás de Roark Junior, filho do Senador Roark (mencionado em A Cidade do Pecado) o manda-chuva de (Ba)Sin City. O jovem Roark tem a desagradável tendência de estuprar e matar meninas e Hartigan, que passou a carreira tentando driblar o sistema corrupto para pegar o monstro quer evitar a todo custo que ele mate sua quarta vítima, Nancy Callahan.

Sua atitude heroica e, claro, extremamente violenta, é bem-sucedida, com Nancy escapando ilesa. No entanto, o Senador faz de tudo para que não só Hartigan sobreviva com seja preso justamente pelos crimes cometidos por seu filho. Sem ter o que fazer, Hartigan, heroicamente, aceita tudo calado, afastando sua esposa e seus amigos, tendo apenas cartas semanais de Nancy, assinando como Cordélia, para esquentar seu coração.

Apesar da unidimensionalidade de Hartigan, é impossível não se afeiçoar com o personagem e sofrer com seu sofrimento. É justamente sua retidão moral que torna a tortura psicológica e física de Hartigan – em uma maravilhosa sequência de páginas em que só vemos o leito e as pernas de Hartigan cobertas, com o foco todo em Roark – algo que realmente cria empatia com o leitor. Ele é um homem que, para salvar uma menina que mal conhece, sacrifica sua aposentadoria, sua esposa e sua liberdade. É um herói à moda antiga, completamente despido de ego e revestido de uma armadura ética e moral inquebrantável.

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The Good, the Bad and the Beautiful.

Mas a segunda novidade também muito bem vinda de O Assassino Amarelo é a cor. Mas calma! Frank Miller não trai o princípio de sua série neo-noir fazendo páginas coloridas comuns. O contraste entre o preto e o branco continua, sem espaço para cores intermediárias como o cinza. No entanto, para caracterizar o personagem título, que aparece mais para a frente na história, ele usa a cor amarela, claro. O assassino amarelo já é disforme, uma verdadeira monstruosidade física que tortura Hartigan de outra maneira. Mas é a cor que nos choca. Relendo para escrever a presente crítica, lembrei-me claramente quando li essa publicação pela primeira vez, quando de seu lançamento na década de 90 e vivenciei novamente o genuíno susto que foi virar a página – agora, tempos depois, “ao passar o dedo na tela do tablet” – e me deparar com a forte cor amarela criando um contraste inesperadamente ainda maior com o branco e o preto ao redor.

E o mais interessante é a escolha do tom do amarelo, cor normalmente relacionada com coisas boas. Miller é cirúrgico ao escolher uma tonalidade que causa asco imediato ao leitor. É um amarelo estranho, podre, vomitado, representativo de tudo que está errado no mundo. Estou sendo dramático demais? Talvez. Mas leia para tirar suas própria conclusões (nem coloquei imagens com cores para não estragar eventuais surpresas de quem ainda não tiver lido). O assassino amarelo do título é um dos seres mais asquerosos que já singrou a Nona Arte e é muito mais eficiente nas páginas dos quadrinhos do que no filme.

Com um roteiro redondo e uma arte que forma o melhor conjunto dos quatro volumes, O Assassino Amarelo está lá em cima no panteão de Sin City. Não percam por nada!

Sin City: Vol. 4 – O Assassino Amarelo (Sin City: Vol. 4 – That Yellow Bastard, EUA)
Roteiro: Frank Miller
Arte: Frank Miller
Editora: Dark Horse Comics (publicada originalmente em 6 números, de fevereiro a julho de 1996, republicado diversas vezes depois como uma graphic novel)
Páginas: 215

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.